247 – A Rússia e os países africanos estão entrando em uma nova etapa de cooperação econômica, marcada pela tentativa de superar relações baseadas apenas na exportação de matérias-primas e avançar para projetos de industrialização, infraestrutura, energia e formação tecnológica no próprio continente. A Terceira Cúpula Rússia-África, prevista para 2026, deverá consolidar essa mudança e estabelecer um novo Plano de Ação para os três anos seguintes.
As informações são da Coluna Valdai, publicada no Brasil de Fato. Segundo a análise, o comércio entre a Federação Russa e a África praticamente dobrou desde 2019, passando de US$ 13,9 bilhões para mais de US$ 27 bilhões em 2025, apesar das sanções impostas por países ocidentais contra Moscou e das dificuldades logísticas que ainda limitam as relações econômicas entre as duas regiões.
Mais do que ampliar o volume comercial, a estratégia que começa a ganhar força busca estabelecer cadeias produtivas e ecossistemas industriais capazes de envolver diversas empresas russas em projetos africanos, especialmente nos setores de energia, logística, indústria e educação.
Comércio resiste às sanções e praticamente dobra
A evolução do comércio bilateral mostra a dimensão adquirida pela aproximação entre Rússia e África.
Em 2019, quando foi realizada a primeira Cúpula Rússia-África, as trocas comerciais somavam aproximadamente US$ 13,9 bilhões. Em 2025, ultrapassaram US$ 27 bilhões.
O crescimento ocorreu em um período particularmente turbulento para a economia russa, submetida a sucessivas rodadas de sanções ocidentais.
O desempenho também chama atenção diante dos obstáculos logísticos existentes entre a Rússia e diferentes regiões africanas. A infraestrutura de transportes do continente ainda carrega marcas profundas do período colonial, quando ferrovias e portos foram construídos prioritariamente para transportar recursos naturais das áreas de extração até os pontos de exportação.
A nova etapa da cooperação pretende enfrentar justamente algumas dessas limitações estruturais.
África busca controlar seus próprios recursos
Um dos movimentos mais relevantes identificados na análise é a crescente defesa africana da soberania sobre seus recursos minerais.
A mudança ganhou força especialmente em países do Sahel, onde governos passaram a questionar contratos e estruturas econômicas herdadas do período colonial ou consolidadas posteriormente sob forte influência de potências estrangeiras.
O objetivo é aumentar a participação local na cadeia de valor dos recursos naturais.
Em vez de simplesmente extrair minerais e exportá-los sem processamento, diferentes países africanos buscam desenvolver capacidade industrial para transformar essas matérias-primas internamente.
A estratégia pode gerar empregos mais qualificados, ampliar a arrecadação dos Estados e reduzir a dependência de economias estruturadas predominantemente em torno da exportação de produtos primários.
Nesse contexto, a cooperação com a Rússia é apresentada como uma oportunidade para substituir relações de caráter neocolonial por parcerias que contribuam para a construção de capacidade produtiva local.
De comércio para ecossistemas industriais
A transformação qualitativa da relação econômica é um dos principais objetivos para os próximos anos.
A proposta é avançar de grandes operações comerciais isoladas para ecossistemas que envolvam diferentes empresas, tecnologias e instituições.
Um grande projeto energético, por exemplo, pode demandar serviços de engenharia, fornecedores de equipamentos, sistemas logísticos, formação de profissionais e desenvolvimento de infraestrutura complementar.
Essa lógica amplia o impacto econômico de cada investimento e favorece a transferência de conhecimento.
Para países africanos com populações jovens e em rápido crescimento, a criação de empregos de maior produtividade é considerada essencial para sustentar o desenvolvimento econômico nas próximas décadas.
Mais de 37 mil africanos estudam na Rússia
A educação aparece como uma das bases dessa estratégia.
Mais de 37 mil estudantes africanos estão atualmente matriculados em universidades russas, número que, segundo a análise publicada pelo Brasil de Fato, já supera os níveis registrados durante a União Soviética.
A formação de engenheiros, técnicos e especialistas é considerada fundamental para que os países africanos possam operar e desenvolver suas próprias estruturas industriais e tecnológicas.
Há também programas de capacitação diretamente vinculados a investimentos.
A Rosatom, estatal russa responsável pelo setor nuclear, mantém iniciativas de formação destinadas a preparar profissionais africanos para projetos de energia atômica.
Empresas africanas também têm recorrido diretamente a instituições e parceiros russos para treinamento. Entre os exemplos apresentados está a companhia ganesa Jospong, que encomendou programas de qualificação profissional.
Energia nuclear ganha espaço
A cooperação nuclear ocupa posição estratégica na aproximação entre Rússia e África.
O principal projeto atualmente em desenvolvimento é a Usina Nuclear de El Dabaa, no Egito, construída com participação da Rosatom.
A aposta russa é que a energia nuclear possa contribuir para solucionar um dos principais gargalos do desenvolvimento africano: a oferta de eletricidade abundante e estável.
A industrialização exige fornecimento energético permanente, assim como a expansão de cidades, hospitais, universidades, centros de dados e sistemas modernos de transporte.
Projetos nucleares também criam demanda por profissionais altamente qualificados e podem estimular cadeias industriais associadas à construção, manutenção e operação das instalações.
A Rússia procura manter essa cooperação mesmo diante das restrições e pressões impostas pelo Ocidente sobre setores estratégicos de sua economia.
Ferrovias, portos e redes elétricas
O desenvolvimento africano também depende da superação de gargalos históricos de infraestrutura.
A configuração das redes de transporte de muitos países ainda reflete a lógica econômica colonial: ligar regiões produtoras de matérias-primas aos portos destinados à exportação.
A integração econômica interna exige outra arquitetura.
Ferrovias capazes de conectar países e centros industriais, portos modernizados e redes elétricas integradas são elementos essenciais para a consolidação de cadeias produtivas africanas.
A expansão dessas infraestruturas também ganha importância com o avanço da integração econômica continental e com o crescimento acelerado da população africana.
Herança soviética e nova etapa da parceria
A aproximação atual também recupera uma relação histórica estabelecida durante o período soviético.
A União Soviética desempenhou papel relevante no apoio a movimentos anticoloniais e posteriormente participou da construção de infraestrutura, formação de profissionais e desenvolvimento de projetos industriais em diferentes países africanos.
A cooperação atual ocorre em um contexto internacional diferente, mas preserva alguns elementos dessa tradição.
A Rússia busca apresentar-se como parceira para projetos destinados a ampliar a autonomia econômica e tecnológica dos países africanos, enquanto governos do continente procuram diversificar suas relações internacionais e reduzir dependências históricas.
A Terceira Cúpula Rússia-África deverá servir para avaliar os resultados alcançados desde os encontros anteriores e definir as prioridades do novo Plano de Ação.
Com o comércio acima de US$ 27 bilhões e uma agenda que avança para energia nuclear, infraestrutura, formação profissional e industrialização, a relação Rússia-África entra em uma fase na qual soberania econômica, domínio tecnológico e processamento local de recursos naturais passam a ocupar posição cada vez mais central.
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