Chamada do Sportv para a Copa do Mundo Feminina de 2027 – Reprodução / Instagram (@sportv)
O ciclo de planejamento para o maior evento da história do esporte brasileiro nesta década já começou, mas as grandes marcas parecem presas a um hábito antigo e perigoso. Em 2027, o Brasil sediará a Copa do Mundo Feminina da Fifa. Será a primeira vez que o continente sul-americano receberá o torneio, transformando o país no centro das atenções do planeta. No entanto, a julgar pelo silêncio no mercado publicitário e pela lentidão na assinatura de novos contratos, o mundo corporativo caminha para cometer a mesma falha de sempre: deixar para acender as luzes nos últimos 90 dias antes da bola rolar, apostando em comerciais emocionantes de última hora para tentar colar sua imagem ao evento.
Tratar a Copa de 2027 como uma festa sazonal de tiro curto não é apenas um erro de planejamento; é um atestado de desconexão com a realidade do torcedor. O futebol feminino no Brasil há muito tempo deixou de ser uma pauta de boa intenção ou um discurso de responsabilidade social para se consolidar como uma potência de massa. O último Mundial, realizado na Austrália e na Nova Zelândia em 2023, foi assistido por 2 bilhões de pessoas ao redor do globo. Por aqui, a resposta do público foi arrebatadora: jogos decisivos registraram picos de 25 pontos de audiência na TV aberta e mais de 5,4 milhões de acessos simultâneos em transmissões digitais. A modalidade provou que tem força, apelo popular e capacidade de mobilizar o país de ponta a ponta.
O grande obstáculo para que mais marcas façam parte desta história, porém, está em um preconceito ultrapassado de mercado: a ideia equivocada de que o futebol feminino atrai apenas o público feminino. As pesquisas e os dados de transmissão da última temporada escancaram uma realidade bem diferente. No Brasil, mais de 50% dos espectadores assíduos da modalidade são homens, e a audiência é composta majoritariamente por núcleos familiares e jovens. É um público amplo, diverso e apaixonado, que assiste às partidas pelo valor do espetáculo, pela entrega em campo e pela identificação com histórias reais. Enquadrar esse fenômeno sob o rótulo simplista de “marketing para mulheres” é ignorar a dimensão do que está acontecendo nas arquibancadas e nas ruas.
As empresas que realmente liderarão o mercado em 2027 não serão aquelas que comprarem os comerciais mais caros na véspera da abertura; serão aquelas que tiverem a coragem de construir a jornada junto ao público desde agora. Apoiar os clubes locais, valorizar as atletas durante o campeonato nacional, lotar os estádios no dia a dia e criar conversas reais com o torcedor ao longo de todo o ciclo são atitudes que geram um respeito que dinheiro nenhum compra às pressas. O torcedor moderno desenvolveu um radar afiado para o oportunismo de ocasião; ele sabe exatamente quem sempre esteve ao lado da modalidade e quem só apareceu para tirar foto na hora da festa.
Quando uma marca decide apoiar o futebol feminino com antecedência, ela não está apenas comprando espaço publicitário; está conquistando a lealdade de uma comunidade inteira. Os estudos de comportamento mostram que quase 70% dos fãs da modalidade preferem consumir produtos de empresas que apoiam abertamente o esporte feminino de forma contínua. Existe uma gratidão genuína por parte de quem acompanha a luta do futebol feminino no Brasil, e essa conexão emocional transforma espectadores casuais em defensores apaixonados da marca.
A Copa do Mundo Feminina de 2027 será o grande momento de celebração do nosso futebol, mas a verdadeira partida já começou. As corporações que preferirem esperar até o ano do torneio pagarão uma fortuna por um espaço de pouca relevância, disputando a atenção de um público que já escolheu seus lados.
Por outro lado, as marcas que entenderem o tamanho dessa oportunidade hoje e começarem a jogar agora não serão meras patrocinadoras de ocasião. Elas chegarão a 2027 como donas legítimas do espetáculo, celebradas por terem ajudado a construir a maior Copa do Mundo que este país já viu.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Samanta Vicentini é especialista em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) e estratégias de relacionamento e fidelização de fãs. Com passagens nos programas de sócio-torcedor de Flamengo, Palmeiras e Vasco, acumula experiência no uso de dados para fortalecer o vínculo entre clubes e torcedores, gerando recordes de retenção e faturamento











Leave a Reply