Por Enric Marín i Otto*
Na madrugada de 30 de julho de 2026, Ceuta acordou diante de uma cena que parecia impossível. Dezenas de milhares de cidadãos marroquinos se concentravam na fronteira de Tarajal, dispostos a entrar na cidade autônoma de Ceuta. Em poucas horas, as praias e os espigões se transformaram no cenário de uma das tragédias humanitárias mais graves da história recente da fronteira hispano-marroquina. O balanço final, ainda incerto, fala em pelo menos 111 mortes.
A primeira reação de governos, analistas e meios de comunicação foi buscar responsáveis políticos. Falou-se em uma manobra do Marrocos, em uma falha dos serviços de inteligência espanhóis, nos efeitos da regularização extraordinária promovida pelo governo de Pedro Sánchez ou na influência das redes sociais. Não há nenhum dado que permita relacionar a regularização extraordinária aos acontecimentos, mas, de qualquer forma, alguns desses fatores podem ajudar a explicar o que aconteceu. Porém, há um fator mais profundo, mais estrutural: o desespero em um contexto de desigualdades extremas. Dentro do Marrocos e entre as duas margens do Mediterrâneo.
A maioria dos jovens que chegaram a Ceuta vinha de cidades como Casablanca, Fez ou Marrakech. Eles haviam percorrido centenas de quilômetros depois de meses se organizando pela internet. Mobilizaram-se motivados por mentiras e narrativas repletas de falsas expectativas. Não fugiam de uma guerra nem de uma catástrofe natural. Fugiam da falta de perspectivas, da falta de horizontes para suas vidas.
O Marrocos é hoje um regime autoritário com vocação para se tornar uma potência regional emergente. O país dispõe de grandes infraestruturas, consolidou alianças estratégicas com os Estados Unidos e Israel e conseguiu se posicionar como uma ponte entre a Europa e a África. Mas essa modernização convive com uma realidade menos visível, menos amável. Nos subúrbios urbanos ou longe dos principais centros urbanos, persistem profundas desigualdades, altos índices de desemprego juvenil e importantes déficits em educação e saúde.
A juventude marroquina é provavelmente o grupo que sofre com maior intensidade essa contradição. Apesar dos avanços econômicos, milhões de jovens continuam sem uma expectativa real de emancipação ou mobilidade social. Depois da pandemia, da seca e da crise econômica internacional, o descontentamento se tornou um fenômeno estrutural. De fato, na crise humanitária de Ceuta convergem três crises simultâneas: a) a crise social e política do Marrocos; b) as contradições da política migratória europeia; e c) a onda de extrema-direita e a instrumentalização política da migração por parte de governos e movimentos populistas, de direita e autoritários.
Essa realidade se conecta a outra questão de fundo: a política europeia em relação à África e ao Oriente Médio e sua gestão dos fluxos migratórios. Uma gestão cada vez mais marcada pelas teses xenófobas da nova extrema-direita. O cenário de fundo é assustador. Segundo a Organização Internacional para as Migrações, pelo menos 32 mil pessoas morreram tentando chegar à União Europeia na última década. O número real provavelmente é muito maior. O Mediterrâneo se transformou na fronteira mais mortal do planeta. Um muro que separa dois mundos. Uma fronteira que tem seus pontos mais críticos em Ceuta, Melilla, Lampedusa, nas costas gregas… e também em Gaza, como espaço em que o muro assume a forma de campo de concentração. Uma fronteira da qual apenas dois atores extraem benefícios complementares: a extrema direita e as máfias dedicadas ao tráfico de pessoas.
Apesar dos bilhões de euros investidos em vigilância, cercas e acordos com países terceiros, as pessoas continuam tentando chegar à Europa. Não parece que tornar o muro cada vez mais alto seja a solução. O caso de Lampedusa é especialmente ilustrativo. Apesar das políticas xenófobas e restritivas promovidas pelo governo italiano de Giorgia Meloni, milhares de migrantes continuam desembarcando nas costas italianas todos os anos.
A contradição é evidente. A Europa construiu um sistema voltado para conter os movimentos migratórios sem enfrentar suas causas. Sem levar em conta que as pessoas não arriscam suas vidas porque exista um “efeito de atração”, mas porque muitas vezes não percebem alternativas. Quando o horizonte é o desemprego, a repressão ou a pobreza, as políticas de fechamento têm eficácia muito limitada.
A crise de Ceuta também lembra que as relações entre Espanha e Marrocos continuam marcadas por uma enorme assimetria política. O precedente de 2021 já demonstrou até que ponto a questão migratória pode se transformar em uma ferramenta de pressão diplomática. Desta vez, Rabat manteve um perfil bastante mais discreto, mas, sem uma atitude permissiva das autoridades marroquinas, a onda humana e a consequente crise humanitária não teriam sido possíveis.
No entanto, o foco exclusivo sobre as responsabilidades políticas corre o risco de esconder uma evidência fundamental. Entre Marrocos e Espanha existe uma das desigualdades econômicas mais acentuadas entre todas as fronteiras europeias. Na margem sul há um país com uma renda média três vezes inferior à do vizinho do norte. E ainda existe um último fator que o debate político centrado em Madri evita abordar. Ceuta e Melilla são os últimos territórios coloniais que o Reino da Espanha conseguiu manter no norte da África. É o único remanescente do extinto Protetorado espanhol no norte do Marrocos (1912-1956), que chegou ao fim com a independência do Marrocos, em 1956. Um anacronismo de incômoda simetria com a situação colonial de Gibraltar…
Ceuta é um muro de separação; uma fronteira rígida. Mas é mais do que isso. Também é um espelho. O espelho que reflete as fraturas sociais do Marrocos, as contradições da política migratória europeia e as limitações de um modelo de relação com as antigas colônias que pretende administrar os efeitos sem enfrentar as causas.
*Este texto foi publicado originalmente no portal Nació Digital, em catalão, e foi cedido gratuitamente ao MigraMundo para ser traduzido e disponibilizado em português
Sobre o autor
Enric Marín I Otto é professor do Departamento de Meios de Comunicação, Comunicação e Cultura da UAB e pesquisador do InCom-UAB. Pesquisa políticas de comunicação, sociedade da informação, identidades culturais e mudança social. Foi decano da Faculdade de Ciências da Comunicação (1991-1995 e 2021-2024). Também foi secretário de Comunicação da Generalitat da Catalunha (2004-2006) e presidente da CCMA (2010-2012).
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