Avenue vê IA como amortecedor do choque do petróleo, mas alerta para riscos do conflito no Oriente Médio | Finanças


A cada mês que se estende o conflito no Oriente Médio diminui a convicção de que o choque do petróleo não vai bater no ritmo da economia global, na inflação e no bom desempenho dos ativos, em especial nos Estados Unidos, segundo Marcela Rocha, executiva-chefe de investimentos (CIO) da Avenue Securities.

Em encontro com jornalistas nesta manhã, a economista citou que há pelo menos três fatores atuando como amortecedores dos efeitos da guerra desde que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã na virada de fevereiro para março. O uso de reservas estratégicas do combustível, acesso a fontes de energia renovável e carvão na China e os investimentos gigantes em inteligência artificial nos EUA têm servido para amenizar as consequências primárias e secundárias do estresse geopolítico.

“Para frente, a visão é mais cautelosa pela durabilidade do conflito e o patamar do petróleo que podem afetar as economias; há uma dispersão com algumas mais afetadas do que outras, e nos Estados Unidos tem a questão da tecnologia”, disse Rocha.

Com o Estreito de Ormuz bloqueado para escoar a produção de petróleo, quando o barril beirou os US$ 120, as previsões iniciais eram que poderia ir a US$ 200.

“Nós estamos aprendendo que esses três amortecedores estão ajudando a suavizar esse cenário. Junto a isso, tem, claro, esse fiscal [expansionista], que é algo que é uma herança da pandemia, que é algo estrutural de todo mundo mais ativo, dos governos ali atuando para ajudar famílias e empresas com dívidas crescendo. Isso ajuda a amortecer muito a sensação de freio e traz um ”moral harzard” [risco moral] no sentido de as famílias continuarem consumindo”, afirmou Rocha.

O grande amortecedor veio, contudo, dos investimentos em tecnologia associados à inovação da inteligência artificial. Rocha comentou que, após a última revisão das gigantes do setor, os aportes previstos para este ano das cinco maiores já rondam os US$ 700 bilhões e, para 2027 e 2028, as estimativas são de US$ 1 trilhão.

“Isso dá mais de 3% do PIB, mas o mais importante são os efeitos que isso tem para a economia americana e outras emergentes, como Coreia e Taiwan, que se beneficiam também”, disse a economista. “Mas o interessante é que é um setor que descola de juros, desse risco de petróleo, por enquanto, e traz um dinamismo para a economia global, e principalmente para a americana.”

Quando se olha para a resistência da economia e as bolsas no maior nível histórico nem parece que há um conflito geopolítico de alta tensão. O mais importante, contudo, disse Rocha, quando se revisa a literatura sobre choques de oferta não é a intensidade, mas a durabilidade. Se não for resolvido e as rotas de petróleo continuarem interrompidas, em algum momento vem a consequência, “e todos esses amortecedores vão perdendo eficácia”.

Há um limite, as reservas acabam. “A cada mês a gente fica um pouco mais preocupado a respeito de como a economia global vai lidar com esse choque de petróleo, que ainda é um choque.” Por essa razão, a visão para os ativos é mais neutra hoje, em comparação a um viés positivo quatro meses atrás.

Diferentemente da fase das empresas pontocom nos anos 2000, os investimentos em tecnologia hoje parecem até atrasados em relação à demanda e não têm “cara” de bolha, disse Rocha.

O pool de investimentos privados para financiar a expansão da Nvidia nesta semana é emblemático dos novos tempos, já que o lastro não é no balanço da empresa, mas na capacidade computacional.

“O mundo está numa virada muito diferente. Como é o risco desse empréstimo? Mas olha o sinal, tem procura, tem necessidade, então acho que é diferente de bolha, não é uma estratégia não justificada, ao contrário, parece atrasado nesse investimento.” A questão é como as empresas vão entregar um retorno para os balanços dessas empresas sem que o fluxo de caixa livre seja muito comprometido.

“Eu acho que vai ser navegando, com seletividade e cuidado com a volatilidade num ambiente que vai precisar muito mais discernimento sobre o que cada empresa está fazendo, porque a tese é estrutural e tem se mostrado muito mais permanente.”

Há que se monitorar como ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês), como foi a badalada listagem da SpaceX, podem afetar ainda a volatilidade e liquidez dos mercados.

Outro ponto a se observar, acrescentou Rocha, é o rumo das taxas de juros, já que 2026 começou com previsão de dois cortes pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e agora o consenso migrou para um ou dois aumentos. E com a batuta agora nas mãos de Kevin Warsh, indicado pelo presidente americano, Donald Trump.

Por ora, Rocha não vê interferências políticas na atuação do Fed, mas a comunicação se tornou mais imprecisa, deixando em aberto os próximos passos e um período de maior volatilidade para as decisões de juros. Pelas comunicações de Warsh, há dúvidas se a autoridade monetária vai de fato defender a economia da inflação, ainda acima da meta, ou se os dados de atividade é que vão falar mais alto.

Marcela Rocha, CIO da Avenue — Foto: Divulgação
Marcela Rocha, CIO da Avenue — Foto: Divulgação



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