Não comecei a pensar na imigração a ler despachos de Bruxelas ou a ver imagens de Ceuta na televisão. Comecei porque a minha cidade mudou depressa demais. Para quem vive e faz política na Amadora, esta mudança não é uma tese académica. Está na Venteira ou na Mina de Água, nas rendas absurdas que atiram as nossas famílias para fora daqui, nas campainhas dos prédios que respondem em várias línguas, no sufoco que é tentar entrar num comboio às sete e meia da manhã. Aquela sensação persistente e pesada de que há cada vez mais gente a disputar o que já era escasso incomoda-me. Chega a dar raiva. E durante muito tempo, confesso, pareceu-me evidente onde estava o problema: mesmo aqui, à minha porta. Até começar a desconfiar que o que vemos nas nossas ruas é apenas o último e mais doloroso quilómetro de uma história muito maior.
Estou cansado do debate de pacotilha na televisão que nos obriga a escolher entre ser o polícia de fronteira implacável ou o anjo da guarda das portas escancaradas. Na Amadora, sabemos bem o que custa fechar os olhos e deixar criar sociedades paralelas, bairros onde a presença do Estado é uma miragem e onde a integração é apenas uma palavra bonita em relatórios públicos. Mas também sei que não é a erguer muros à pressa que protegemos o que temos. Como português, europeu e liberal, procuro o óbvio: mobilidade com regras claras, integração a sério (que exige muito de quem chega, mas também de nós) e um Estado que não tem complexos em dizer quem pode entrar e em que condições. Não há contradição nenhuma nisto. Há política. E é política que nos tem faltado.
Foi quando levantei os olhos da nossa realidade local que a pergunta mudou. Já não me basta saber quantos chegam à Damaia ou à Buraca, ou como gerimos Unidades de Saúde à beira da rutura. A questão é: o que estamos a fazer antes de estas pessoas sequer fazerem as malas?
É de uma pobreza atroz ver a Europa só descobrir África quando um barco se afunda no Mediterrâneo ou quando as tensões rebentam na Rua do Benformoso, ou em Ceuta. Quando chegamos a esse ponto, já vamos com anos de atraso. Estamos apenas a gerir o desespero e as consequências de omissões que começaram a milhares de quilómetros daqui. E enquanto nós, europeus, ficamos paralisados entre a culpa colonial e o medo da extrema-direita, outros não perderam tempo. A China construiu estradas, portos, dominou a energia e os minérios. A Rússia tomou conta da segurança de meia dúzia de países. Nenhum deles foi para África distribuir abraços ou fazer caridade. Foram fazer negócio. Foram defender os seus interesses.
E aqui entra Portugal. A inquietação bate mais forte porque a nossa relação com África não é um mero dossier diplomático. São famílias, é a nossa língua, são memórias, algumas de violência e muita dor, é certo, mas também são laços que não se apagam por decreto. Muitas destas pessoas que hoje dividem casa de forma precária na Amadora têm raízes que se cruzam intimamente com as nossas. No entanto, agimos demasiadas vezes como se África fosse um museu do nosso passado e não o continente do futuro. Como se descolonizar significasse virar as costas.
Sei perfeitamente que dizer “a Europa tem de voltar a África” soa mal. Acorda logo fantasmas neocoloniais. Não estou a falar de ir para lá dar lições de moral, e talvez até seja ingénuo da minha parte achar que as nossas empresas se portarão muito melhor lá do que os chineses. Mas temos de tentar uma relação diferente. Falo de investir a sério, levar empresas, partilhar tecnologia, criar conhecimento, abrir mercados e assumir interesses sem falsos pudores. O contrário da exploração não tem de ser o abandono. Tem de ser uma relação entre adultos, baseada num compromisso mútuo.
A equação parece-me óbvia. A Europa precisa de energia, mercados e, sim, de pessoas para travar o inverno demográfico. África tem a juventude e os recursos. Mas essas pessoas têm de ter o direito de ficar nas suas terras, de transformar esses recursos em riqueza local, sem que a esperança de uma vida decente dependa de um bilhete só de ida para a Europa.
Claro que precisamos de imigrantes; fechar a porta de vez seria a nossa ruína económica. Mas não nos enganemos: trazer sucessivamente mais gente não é a panaceia para a nossa falta de filhos, para a baixa produtividade ou para a falência da máquina do Estado. Não podemos tratar quem chega como mera mão-de-obra barata para tapar buracos, ignorando que nenhuma sociedade, muito menos uma cidade densa como a nossa, tem uma capacidade elástica e infinita de integração. Governar a imigração é planear; nós temos andado apenas a recebê-la como quem recebe a chuva, esperando que não inunde tudo.
Não quero uma Europa que só chega a África através de patrulhas costeiras, para depois atirar uns milhões em “ajudas” para remendar problemas. Quero uma Europa que esteja lá antes. A criar oportunidades onde as pessoas nascem, para não termos de fingir surpresa quando elas vêm bater à nossa porta. Perceber isto não é abrir fronteiras ao acaso; é perceber que a fronteira devia ser a linha de chegada de uma política bem pensada, e não o único sítio onde ela acontece.
Como país, não temos o músculo financeiro da Alemanha. É verdade e é uma desculpa muito confortável. Mas temos uma proximidade histórica, linguística e humana com partes de África que não se compra com músculo financeiro. Falta-nos é ambição e coragem para usar o que somos.
Continuo a não me conformar com o custo de vida na Amadora nem com o fechar de olhos a uma integração sem regras. Mas o que mais me indigna é ver a política presa ao imediato, a tentar tapar o sol com a peneira no final da linha, enquanto ignora as causas profundas que se desenrolaram a milhares de quilómetros antes. Ficámos obcecados com quem aparece no último quilómetro e esquecemo-nos de fazer política nos milhares que vêm antes.











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