África apoia Infantino na FIFA e causa polémica: “Só queremos o dinheiro”


Isha Johansen, antiga membra do Conselho da FIFA, concedeu, esta quinta-feira, uma extensa entrevista à estação televisiva norte-americana ESPN, na qual defendeu que Gianni Infantino deve apresentar a demissão da presidência do organismo que rege o futebol internacional, visto que “passou dos limites e houve uma quebra de confiança”.

A empreendedora liderou a Federação de Futebol da Serra Leoa (SLFA), entre 2013 e 2021, e revela, agora, que, na altura, só não avançou com uma recandidatura ao cargo por conselho do próprio advogado ítalo-suíço, por motivos que, acredita, o devem fazer pensar na situação que vive: “Eu era uma presidente que lutava contra a corrupção e tentava instituir um código de ética e governação”.

“O Gianni visitou a Serra Leoa por volta do mesmo período, com Patrice Motsepe [presidente da CAF, a Confederação Africana de Futebol], e, vendo o quão terrível a situação era, ele próprio virou-se para mim e disse ‘Deixa esta gente’. Eu percebi o ponto de vista dele, e decidi recuar, pelo bem do futebol no meu país. Foi isso que eu fiz, e recuei, em 2021, pelo bem de todos”, começou por afirmar.

“É uma grande história que eu conto em detalhe, no meu livro recentemente publicado, ‘The Uncommon Enemy’ [‘O Inimigo Incomum’, em português], que cobre a minha luta incansável pela ética, pela integridade e pela boa governação no futebol, assim como a perseguição de que eu própria sofri, nesse processo. Eu recuei pelo bem do futebol, contra os conselhos dos meus apoiantes e ‘stakeholders'”, prosseguiu.

“Com base nessa reflexão, eu pergunto, agora, se ele não deveria recuar, para bem do futebol. Ele ficou do meu lado porque eu estava a fazer cumprir o código de ética e boa governação da FIFA, que é aquilo que, supostamente, a FIFA apoia. É irónico, perturbador e, na verdade, triste que, hoje, ele devesse manter-se fiel àquilo que defendeu, e esteja a ser derrubado por uma quebra dessa mesma ética de integridade”, rematou.

“Nós queremos o dinheiro, porque isso é a única coisa que queremos”

Nesta mesma entrevista, Isha Johansen questionou os motivos pelos quais o presidente da CAF, Patrice Motsepe, continua a apoiar Gianni Infantino com vista às eleições para a presidência da FIFA, que estão agendadas para 18 de março de 2027 (com o prazo para a entrega de novas candidaturas a terminar já no próximo dia 18 de novembro).

“Eu fiquei desapontada pelo facto de o Patrice ter dito ‘Oh, mantemo-nos leais’ e que, no no país, no nosso continente, não apunhalamos alguém pelas costas. Isso foi um comunicado muito prematuro de se fazer, neste contexto. Isso não dá uma boa imagem de África. A economia social e as dinâmicas, em África, são muito diferentes das que há na Europa”, refletiu.

“Digamos que, na Premier League, se pagam 40 milhões de euros por um jogador. A Serra Leoa nunca viu esse tipo de orçamento, esse tipo de dinheiro. Por isso, como é que aquele presidente em particular vai voltar ao país, encarar o chefe de Estado e dizer que recusou 40 milhões de euros? Ele vai ter de explicar como geriu, como chegou a essa conclusão e como fez as contas para perder essa quantia”, acrescentou.

“Eu odeio que haja uma perceção silenciosa de que, é claro, África vai dizer que se mantém do lado dele [de Gianni Infantino]. Nós queremos o dinheiro, porque isso é a única coisa que queremos. Ninguém quer falar sobre o aspeto ético de como é que recebemos esse dinheiro, de como é que esse dinheiro nos foi dado. Ninguém quer perguntar o quão ético isso é”, concluiu.

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