Ana Esther Ceceña no Primeiro Congresso Internacional de Geopolítica – República Dominicana
A declaração do Ministro da Defesa brasileiro, José Múcio, dizendo que caso os Estados Unidos decidissem atacar o Brasil ele abriria o portão, repercutiu bastante no país. Mas ela não é surpreendente. Afinal, abrir as portas para o império do norte sempre – ou quase sempre – foi considerada a melhor opção. Não é sem razão que o Brasil tem, historicamente, se perfilado como um parceiro tradicional dos EUA, seja na economia ou na cultura. Em raros momentos da história encontramos governantes realmente interessados em constituir soberania e autonomia diante dos EUA. Talvez Getúlio Vargas, em alguma medida, ou Jango Goulart, deposto pelo golpe de 1964. Os demais sempre se colocaram do lado dos EUA, antes e depois da chamada “guerra fria”, iniciada pós-segunda grande guerra.
Hoje o mundo passa por significativas transformações na geopolítica do poder. E mais uma vez os Estados Unidos acossam os países da América Latina para que se mantenham na linha – como aliados – diante do avanço de uma nova potência mundial que é China, que, vinculada à Rússia e ao Irã, conforma, sob a ótica estadunidense, o novo “eixo do mal”. Esse tem sido o pano de fundo para toda essa convulsão que o mundo vive. Os grandes se engalfinham em peleias, e os países subdesenvolvidos e dependentes vão sendo puxados para um ou outro lado.
Conforme dados apresentados pela professora Ana Esther Ceceña, do Observatório Latino-Americano de Geopolítica, todos os grandes conflitos passam por essa disputa de poder. Com a China crescendo e se expandindo, os Estados Unidos, perdendo forças, busca reagir e controlar essa expansão asiática. Segundo ela há pelo menos três grandes batalhas acontecendo.
A primeira delas é pelos recursos naturais. Rússia, Qatar e Irã concentram 53% do gás que move o planeta, enquanto a região do Oriente Médio, somada a Venezuela, concentra o petróleo. Isso explica de alguma maneira os conflitos nestas regiões, bem como o golpe dado na Venezuela com o sequestro do presidente Maduro. A América Latina aparece como espaço das terras raras, também objeto de cobiça por parte dos EUA, já que a China conta com muitas reservas.
A segunda batalha é pela liderança mundial. Os Estados Unidos buscam rodear a China, instalando bases em inúmeras ilhas no Pacífico próximas ao território chinês, bem como cortar caminhos com países como o Irã, por exemplo, importante parceiro comercial.
Isso leva ao terceiro ponto de conflito que são as rotas de comércio. Como a China não aposta na intervenção armada e sim no comércio, este tem sido um tema central na batalha dos EUA contra o avanço chinês. Por isso o interesse de Donald Trump em fechar o estreito de Ormuz, afinal, por ali, passa o petróleo. Outro ponto em disputa é o estreito de Malaca, próximo à Malásia, que liga o Oceano índico ao Pacífico, e por onde escoam mercadorias chinesas. Segundo Ceceña, para barrar a China, Israel quer abrir um caminho entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo, passando por Gaza, claro. Vários caminhos da Rota da Seda, proposta pela China, também atravessam territórios do Irã, daí essa sanha dos EUA em tomar o poder por lá.
Todas essas guerras na região do Oriente estão ligadas a esse cenário, porque os Estados Unidos estão perdendo a batalha com a China. Por isso, diz Ceceña, os EUA estão se movendo em várias partes do mundo para tentar manter a hegemonia. Não é à toa que têm suas frotas em todos os territórios marítimos, apesar de estar perdendo a capacidade de controlar os mares no Médio Oriente. Também vem daí ideia de se apropriar da Groelândia, porque um caminho comercial pelo Polo Norte seria mais barato e mais rápido. É sabido que o canal do Panamá já é insuficiente, bem como se sabe que a China está construindo um canal na Nicarágua.
O que Ana Esther Ceceña deixa claro é que não há “loucuras” nas ações do imperialismo estadunidense. Tudo está pensado dentro deste embate entre potências. Vai daí que a região do grande Caribe segue sendo um espaço absolutamente estratégico para os Estados Unidos. É caminho para o petróleo na Venezuela, para a Amazônia, no Brasil, para o canal do Panamá e também serve como uma espécie de escudo, já que existem bases militares espalhadas por várias ilhas. A ideia dos EUA, segundo Ceceña, é transformar o Caribe num mar interno de sua propriedade, facilitando a circulação de riquezas e também do narcotráfico.
É nesse enredo que está a América Latina, espaço que os dirigentes estadunidenses afirmam estar totalmente sob seu controle. E se considerarmos que eles conseguiram tomar a Venezuela, que contava com um povo organizado e armado, sem disparar um tiro, imagine o que podem fazer nos demais países que são seus vassalos. Agendas como a “luta contra o narcotráfico”, e contra os “terroristas” são as que assomam como bandeira para pegar os incautos. Estados Unidos e Israel são parceiros nessa batalha, inclusive Israel está em Honduras agora, também financiando obras. Não foi à toa que Trump interveio de maneira decisiva nas eleições, impondo um candidato e soltando o ex-presidente traficante.
São tempos difíceis, alerta a professora mexicana, mas a América Latina haverá de encontrar caminhos para enfrentar.











Leave a Reply