Bagunça imigratória na Europa – Estadão


No fim de julho, Ceuta, enclave espanhol no Marrocos, perdeu por algumas horas o controle de sua fronteira. Mais de 50 mil pessoas atravessaram do Marrocos para o território. A maioria retornou, deixando exposta uma fragilidade: uma Europa que precisa receber imigrantes continua vulnerável a fluxos súbitos, sobretudo quando regras confusas se combinam à pressão de governos vizinhos.

O envelhecimento e a redução da população ativa tornam ilusória a promessa de uma Europa fechada. Empresas e serviços já disputam trabalhadores, enquanto diminui a base de contribuintes dos Estados sociais. A imigração pode aliviar essas restrições. A necessidade econômica, contudo, não assegura consentimento político. Os eleitores aceitam melhor a abertura se percebem critérios inteligíveis, fronteiras administradas e decisões efetivas.

Essa confiança se desfaz quando regimes jurídicos diferentes se aglutinam num sistema congestionado. Trabalhadores admitidos legalmente, refugiados e pessoas cujos pedidos foram recusados não pertencem à mesma categoria. A entrada irregular não exclui o direito ao asilo, que cabe ao Estado reconhecer ou negar mediante exame rápido. Processos que levam anos e ordens de retorno raramente cumpridas retiram consequência prática das distinções legais.

A demora, somada a regularizações amplas e à baixa probabilidade de repatriação, alimenta a expectativa de que a entrada irregular acabará convertida em residência. Essa expectativa só produz mobilização em condições favoráveis. Em Ceuta, a difusão viral de uma interpretação expansiva de uma decisão judicial encontrou a Espanha despreparada. Há indícios de instrumentalização pelo governo marroquino. A reputação permissiva do governo de Pedro Sánchez tornou a promessa mais verossímil.

Num espaço de livre circulação, decisões nacionais alteram expectativas e distribuem riscos entre parceiros. Países de trânsito ganham poder de pressão, enquanto redes clandestinas exploram falhas de controle e expectativas de permanência. O rápido refluxo em Ceuta reduziu o impacto material da invasão, mas não apagou as imagens de impotência estatal. A percepção de descontrole sobrevive à crise e fortalece partidos que prometem trancar todas as portas.

Essa reação encontra terreno fértil porque ganhos e custos são distribuídos de maneira desigual. Os benefícios alcançam a economia nacional, enquanto a pressão sobre moradia, escolas e saúde se concentra em algumas cidades e bairros. Médias nacionais pouco dizem aos moradores que enfrentam serviços sobrecarregados e integração insuficiente. A xenofobia, explorada por extremistas, faz parte dessa reação. Ainda assim, reduzir toda ansiedade a preconceito poupa os governos de responder por dificuldades reais e franqueia aos nativistas o monopólio do tema.

A direita radical usa falhas administrativas para atacar também profissionais recrutados legalmente e pessoas que fogem de perseguição. A resposta liberal exige ampliar as vias legais e julgar os pedidos de asilo em prazos razoáveis. Decisões negativas precisam ser tomadas com as devidas garantias, mas executadas com energia e prontidão. Cabe ainda aos governos financiar as localidades mais pressionadas e criar condições para que os admitidos aprendam a língua, ingressem no mercado de trabalho e se integrem às normas comuns.

Controle implica tanto limitar quanto admitir – proteger quem tem direito, recusar quem não o tem e prestar contas dessas escolhas. Implica também cooperação com países vizinhos, sem lhes conceder a capacidade de chantagem. Fronteiras administradas com brutalidade traem os valores liberais. Fronteiras porosas os desmoralizam.

Ceuta mostrou como uma política aberta pode perder legitimidade em poucas horas. Se a Europa continuar a receber pessoas sob a forma de crises, boa parte dos fluxos será determinada pela geografia e por agentes alheios às escolhas europeias, de traficantes a governos vizinhos, enquanto os nativistas ditarão a resposta política. Preservar a imigração de que o continente necessita depende de recuperar autoridade sobre entradas, permanência e integração. Cada nova demonstração de desordem aproximará o fechamento que a Europa não pode desejar nem se permitir.



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