EUA preparam ataques terrestres e reforçam presença militar na América Latina


O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, durante coletiva no Pentágono em Washington. Foto: Reprodução

O governo de Donald Trump prepara uma nova etapa da militarização da América Latina, com operações terrestres das Forças Armadas dos Estados Unidos contra grupos classificados por Washington como organizações terroristas. 

O anúncio foi feito pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, durante visita ao Panamá, onde representantes militares de 18 países discutiram os próximos passos da coalizão regional liderada pelos EUA.

Hegseth afirmou que Washington pretende levar para o território latino-americano o mesmo modelo empregado nos ataques contra embarcações acusadas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. 

Desde setembro do ano passado, 66 embarcações foram atacadas e ao menos 221 pessoas morreram nessas operações, segundo dados citados pelo New York Times.

Agora, a intenção declarada do Pentágono é transferir a ofensiva do mar para a terra.

“Em qualquer lugar em que vocês trafiquem drogas, em que ameacem o povo americano ou nossos parceiros, vocês são um alvo, assim como o Estado Islâmico ou a Al Qaeda”, declarou Hegseth.

O secretário afirmou que os EUA passaram os últimos 25 anos aperfeiçoando sua chamada “kill chain” — expressão militar para o processo de identificar, localizar, acompanhar e atacar um alvo — durante as guerras conduzidas por Washington no Oriente Médio e em outras regiões.

“Por que não pegamos essas capacidades, com os melhores americanos, e as aplicamos aqui?”, questionou.

A mudança representa mais do que uma intensificação da política antidrogas. Ao equiparar organizações criminosas latino-americanas a grupos enfrentados militarmente pelos EUA durante a chamada “Guerra ao Terror”, Washington busca estabelecer uma justificativa para empregar diretamente seu aparato de guerra dentro de países da região.

Colômbia e Equador abrem caminho para operações

A Colômbia, governada desde a semana passada pelo presidente de extrema direita Abelardo de la Espriella, tornou-se um dos principais pontos de apoio da nova estratégia.

Segundo Hegseth, Bogotá autorizou “operações militares conjuntas para destruir terroristas e redes de terror”. Questionado sobre a possibilidade de ataques conjuntos contra grupos armados colombianos, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e dissidências das antigas Farc, o secretário respondeu afirmativamente.

“Organizações designadas como terroristas, em conjunto com governos parceiros, serão alvos legítimos do governo dos Estados Unidos”, afirmou.

O novo ministro da Defesa colombiano, Jorge Eduardo Mora, também defendeu a iniciativa. Segundo ele, chegou o momento de os chamados “cartéis narcoterroristas” enfrentarem “o poder e as capacidades de todo o hemisfério, liderado pelos Estados Unidos”.

A cooperação militar com o novo governo colombiano poderá superar inclusive o grau de envolvimento alcançado durante o Plano Colômbia, programa financiado por Washington a partir do início dos anos 2000 e marcado pela forte presença dos EUA na política de segurança colombiana.

No Equador, ações conjuntas já começaram. Washington e Quito anunciaram em março operações contra grupos classificados como terroristas. Uma delas foi apresentada pelos dois governos como um bombardeio contra traficantes, mas investigação do New York Times apontou que o alvo atingido era uma fazenda de produção de gado e laticínios.

Hegseth afirmou ainda que Honduras concordou com operações conjuntas. Guatemala também foi pressionada pelo Pentágono a permitir ataques aéreos e outras ações militares norte-americanas em seu território.

Escudo das Américas organiza presença militar dos EUA

A ofensiva terrestre faz parte de uma estrutura regional que o governo Trump vem montando desde o início do ano. O chamado Escudo das Américas reúne uma coalizão de 18 países sob liderança dos Estados Unidos e tem como justificativa oficial o combate ao narcotráfico, aos cartéis e ao “terrorismo”.

Participam Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

Brasil e México estão entre os principais países da região que permanecem fora da iniciativa.

Durante a reunião no Panamá, o comandante do Comando Sul dos EUA, general Francis L. Donovan, afirmou que os participantes começaram a definir responsabilidades, regiões de atuação e países encarregados de liderar diferentes frentes.

“Entre agora e novembro, vamos elaborar um plano de campanha”, declarou Donovan. Segundo o general, integrantes da coalizão já se ofereceram para assumir a liderança de operações em determinadas sub-regiões.

A estrutura formal da ofensiva, no entanto, permanece subordinada ao aparato militar norte-americano.

Dias antes da reunião, o Comando Sul ativou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM), criada para centralizar o comando das operações e integrar as capacidades militares dos EUA às forças dos países participantes.

Segundo o próprio Pentágono, a força-tarefa terá comando e controle unificados nos níveis tático e operacional e atuará em conjunto com as 18 nações da coalizão.

Hegseth invoca ‘Doutrina Donroe’

Durante a visita ao Panamá, Hegseth vinculou diretamente a ofensiva à chamada “Doutrina Donroe”, expressão utilizada pelo governo Trump para atualizar a Doutrina Monroe, formulada pelos Estados Unidos no século 19 para reivindicar primazia sobre o continente americano.

“Vamos defender nosso hemisfério de ameaças externas”, afirmou o secretário, incluindo entre elas o narcotráfico e aquilo que Washington classifica como “influência estrangeira maligna”.

A formulação recupera uma concepção histórica utilizada pelos EUA para justificar intervenções políticas e militares na América Latina.

“Quando dizemos que vamos desmantelar os cartéis, estamos falando sério”, afirmou. Segundo ele, os integrantes deverão adotar “medidas concretas — às vezes arriscadas, corajosas — em parceria”.

O secretário chegou a propor um lema para a coalizão: “Fazemos coisas ruins com pessoas ruins”.

“Essa é a mentalidade que quero ver nesta sala. Estamos lidando com pessoas ruins que fizeram muitas coisas ruins com muitas pessoas boas, por muito tempo. E elas estão prestes a conhecer um novo xerife na cidade”, declarou.

Organizações de direitos humanos e especialistas em direito internacional questionam a legalidade da estratégia. 

A principal crítica é que a classificação de traficantes como “combatentes” não transforma automaticamente crimes ligados ao narcotráfico em um conflito armado que autorize execuções militares.

A experiência recente também coloca em dúvida a eficácia da estratégia. Apesar de centenas de mortos nos ataques contra embarcações desde 2025, investigação do New York Times apontou que a disponibilidade de cocaína nos Estados Unidos não sofreu redução significativa.

Mesmo assim, o governo Trump prepara a expansão do modelo.

“Esta é uma luta em rede”, afirmou Hegseth. Segundo ele, os comandos Sul e Norte receberam poder para agir conjuntamente no continente. “Vamos nos aproximar e destruir essas redes usando todas as capacidades do governo americano.”



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