Seja pela emoção perante seres humanos desesperados ou pelo repúdio de uma alegada ameaça, ninguém fica incólume às imagens de Ceuta. No entanto, a ilusão subjacente é ainda mais perturbadora. Dezenas de milhares de pessoas atiraram-se ao mar e muitos morreram pelo caminho. Perderam a vida para chegar até nós.
É a parte difícil de compreender. Acreditam mais na Europa do que muitos europeus. Aventuram-se nas águas atrás de um sonho sem saberem se ele existe. Atravessam fronteiras por uma ideia que nós próprios estamos a abandonar. Arriscam chegar a um continente envelhecido, assustado, onde um manto cada vez menos invisível de intolerância se instala. Sem se importarem, colocam a vida em risco para chegar onde não são desejados. A um lugar nada recomendável.
A resposta está na desigualdade. Uma parte substancial da riqueza natural do planeta encontra-se em África, mas a esmagadora maioria da riqueza financeira não está lá. África possui cerca de 30% das reservas minerais do planeta, 40% do ouro mundial e 90% das reservas de crómio e platina. E, para além das vastas reservas de petróleo, gás, cobalto, diamantes e urânio, possui 65% da terra arável mundial.
Os Estados Unidos e a China, juntos, concentram mais de metade da riqueza mundial e a Europa permanece entre as regiões mais ricas do planeta. Num sistema económico internacional alicerçado na compra de matérias-primas baratas, transformando-as onde existe capital e tecnologia, vendendo depois o produto final por muitas vezes o seu valor inicial, o minério permanece em África e o valor acrescentado desaparece para outros lados. E, um dia, as pessoas começam a partir, porque nenhuma legislação mais severa consegue impedir alguém de procurar aquilo que deixou de existir no seu próprio país.
Claro que é necessário combater as redes criminosas de tráfico de seres humanos, porém, nenhuma política migratória será eficaz enquanto tratar apenas a consequência e ignorar a causa. Sem condições de vida, emprego, educação, saúde, liberdade e esperança nos países de origem, Ceuta repetirá Ceuta.
Não sofremos por falta de riqueza, incentivamos uma distribuição desigual. Uma parte do mundo possui a fortuna debaixo dos pés e a outra guarda-a nos bancos. Ao aceitarmos esta realidade como inevitável, continuaremos a discutir políticas sobre migrantes em vez de debatermos o desenvolvimento. Continuaremos a reforçar fronteiras quando deveríamos também estar a construir oportunidades nos países de origem.
As imagens de Ceuta desaparecerão em breve, substituídas por outras. Existirá sempre alguém disposto a atravessar um deserto, saltar uma vedação ou lançar-se ao mar enquanto acreditar que existe, noutro lugar, uma vida que lhe foi negada. É a verdadeira ilusão. Não a deles, mas a nossa. O logro de que podemos continuar a viver num mundo profundamente desigual e esperar que cada um permaneça, resignadamente, do outro lado da fronteira.
Escritor e Gestor Público











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