China aposta na Rota Marítima do Norte: degelo no Ártico encurta ligação Ásia-Europa e contorna instabilidade no Médio Oriente


Durante décadas, o Ártico foi uma fronteira quase inacessível à navegação comercial, mas o degelo está a alterar essa realidade e a abrir uma rota marítima capaz de ligar a Ásia à Europa pelo extremo norte do planeta. E essa é uma corrida que a China começou já a explorar, com um porta-contentores chinês a iniciar neste fim de semana uma viagem inédita para a Europa através da Rota Marítima do Norte, numa travessia que não só encurta para praticamente metade o percurso como permite contornar as águas cada vez mais instáveis do Médio Oriente.

O Dubai Tower, assim se chama o cargueiro, partiu este sábado (15 de agosto) do porto de Ningbo, no leste da China, com destino à Europa, numa viagem que o deverá levar através do estreito de Bering e, depois, ao longo da costa norte da Rússia, pela Rota Marítima do Norte.

Segundo a agência AFP, citada pelo jornal francês Le Figaro, a ligação é apresentada como uma alternativa mais rápida à tradicional passagem pelo canal do Suez, já que o percurso pelo Ártico é cerca de duas vezes mais curto, embora continue fortemente condicionado pelas características extremas da região e pela evolução sazonal do gelo.

A travessia surge também como alternativa à instabilidade nas principais rotas marítimas entre a Ásia e a Europa, numa altura em que o conflito no Médio Oriente a envolver Irão, EUA e Israel, bem como as ameaças dos rebeldes huthis no mar Vermelho, têm aumentado os riscos associados às rotas que atravessam aquela região, como acontece com o Estreito de Ormuz.

A Sea Legend, proprietária do navio, pretende manter a ligação semanal até outubro, aproveitando o período de degelo no Ártico, durante o qual a rota pode ser percorrida sem recurso a quebra-gelos. O calendário divulgado pela empresa prevê a chegada do Dubai Tower ao porto britânico de Felixstowe a 7 de setembro. O navio deverá depois seguir para Hamburgo, na Alemanha, e Gdynia, na Polónia, ainda nessa semana.

A viagem não é, contudo, inédita para a navegação comercial. A dinamarquesa Maersk foi a primeira grande companhia a atravessar a Rota Marítima do Norte, em 2018, e desde então o número de porta-contentores que escolhem esta passagem tem vindo a aumentar.

Em 2025, 23 cargueiros utilizaram a rota, segundo uma análise de dados da Allianz Commercial divulgada em junho, citada pela AFP. Foi um novo máximo, depois dos 15 navios registados no ano anterior.

O crescimento da circulação no Ártico suscita, porém, preocupações ambientais, com organizações de defesa do ambiente a alertarem que o aumento do tráfego marítimo poderá contribuir para acelerar a degradação do gelo numa região já particularmente exposta ao aquecimento global.



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