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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje a especialista em Relações Internacionais, Liliana Reis. Bom dia, Liliana. Obrigado por se juntar a nós mais uma vez. Começo com as mais recentes trocas de ataques entre Estados Unidos e Irã. Os Estados Unidos lançaram ontem novos ataques contra alvos iranianos no Estreito de Ormuz. Também o Irã tinha atacado alvos norte-americanos, depois também de outros ataques por parte dos Estados Unidos. Aquilo que lhe pergunto é se estes ataques colocam em causa o memorando de entendimento que foi alcançado entre os Estados Unidos e o Irão.
Naturalmente, bom dia. Na verdade, aquilo que nós tínhamos do ponto de vista do memorando de entendimento, até porque o próprio não foi concebido como um tratado de paz clássico, mas como um mecanismo de gestão do próprio conflito, permitiu efetivamente reduzir temporariamente a violência enquanto se negociavam as questões estruturais, nomeadamente o programa nuclear, o levantamento das sanções, a segurança marítima e o equilíbrio regional. O que agora se coloca, e depois dos ataques, nomeadamente por parte da Guarda Revolucionária do Irã, que reivindicou, aliás, a responsabilidade em relação aos ataques contra a base aérea de Ali Salem, no Koweit, e também contra a base naval da Quinta Frota em Porto Salman, no Bahrein, e também os ataques dos Estados Unidos, como nós vimos, como resposta em relação àquilo que aconteceu, é que pode efetivamente comprometer não o acordo final, ou seja, o acordo de cessar-fogo final, mas antes desse mesmo acordo, estas questões técnicas que estavam a ser negociadas, e que deveriam acontecer nos próximos 60 dias para efetivamente se poder chegar a esse acordo final. Ora, apesar deste memorando de entendimento ser naturalmente mais flexível, por acomodar esta dimensão mais técnica e menos política, também é muito mais vulnerável a violações localizadas, como nós temos vindo a observar. Só que estas violações do memorando de entendimento podem efetivamente provocar efeitos sistêmicos e por isso é que neste momento começa também a ser analisado que esta deterioração militar, porque na verdade, aquilo que nós assistimos é efetivamente a uma deterioração militar, porque nenhum dos intervenientes abandonou oficialmente as negociações. Ou seja, aquilo que neste momento se está a especular é se efetivamente as negociações podem vir a ser mais difíceis pelas duas partes, devido a este crescimento das hostilidades.
E podemos, perante isso, também esperar alguma escalada nessa perspectiva ou não?
Pode acontecer, aliás, recuperando as palavras ontem novamente de Donald Trump, mas também já nos habituou a esse tipo de escalada, pelo menos ao nível da linguagem.
Ao nível verbal.
Exatamente, ao nível da linguagem, nós temos assistido constantemente a que as ameaças subam de tom e depois recuem quando há efetivamente necessidade de negociações mais concretas. Agora, ontem, das palavras de Donald Trump, aquilo que nós conseguimos efetivamente perceber é que há novamente uma recuperação de uma ameaça muito mais contundente e muito mais visível. Mas como lhe digo, neste momento, parece-me que nenhuma das duas partes quer efetivamente provocar uma escalada excessiva do conflito do ponto de vista regional. O que quer é também não sofrer uma derrota ou, pelo menos, que este memorando de entendimento, que efetivamente foi negociado e que nós estamos, como disse, na fase mais técnica, não comprometa os seus objetivos ao nível do cessar-fogo final.
É uma espécie de marcar território.
Exatamente. Trata-se muito mais, pelo menos é a leitura que eu faço, de uma forma de efetivamente condicionar as reivindicações que querem ver atendidas no acordo de cessar-fogo final daqui a 60 dias, nomeadamente e por parte do Irã, a questão do levantamento total dos ativos congelados, a questão do programa nuclear, que também não pretende efetivamente abandonar definitivamente. E por parte dos Estados Unidos, aquilo que nós observamos, e isto parece que pode efetivamente vir a comprometer alguns dos objetivos norte-americanos em relação a este acordo, é que ele não pode contar exclusivamente com aquilo que são os seus objetivos. Repare que nós temos aqui múltiplos teatros e múltiplos atores. E falo, por exemplo, em relação à incapacidade, provavelmente, do Líbano conseguir efetivamente neutralizar o Hezbollah.
Era aí que íamos assistir, exatamente.
Pois, está tudo relacionado.
Já agora, Liliana, só para contextualizar, Israel e o Líbano assinaram na sexta-feira um acordo-quadro em Washington, com a omissão dos Estados Unidos para preparar algum caminho para a paz entre os dois países, sendo que o Hezbollah recusa o acordo. Só para contextualizar.
Recusa o acordo e nós temos aqui também outros protagonistas, mesmo dentro de Israel. Por exemplo, o ministro da Segurança Nacional, Ben-Gvir, também já veio afirmar que este acordo com o Líbano é um erro grave para Israel, porque o próprio Líbano não terá a capacidade de conseguir desarmar o Hezbollah. E por isso é que eu falava aqui destes Destes vários atores e destes intervenientes. É um fato que, neste momento, muitos dos atores não diretamente envolvidos neste memorando de entendimento, nomeadamente o Irão e os Estados Unidos, podem vir a comprometer aquilo que será o acordo final. E falávamos do acordo realizado entre o Líbano e Israel, mas repare, o Hezbollah é também uma ameaça para o próprio Líbano. Naturalmente que o Líbano também tem todo o interesse em conseguir neutralizar este proxy do Irão. Não se sabe se efetivamente terá capacidade para fazê-lo. E depois, durante os próximos dias, nós podemos ter outros grupos proxy, nomeadamente os Houthis no Iêmen, ou ainda o Hamas. Aliás, também foram, nas últimas horas, levados ataques por parte de Israel contra o Hamas novamente. Nós não conseguimos antecipar é se, porventura, à margem do memorando de entendimento e à margem do acordo também celebrado entre o Líbano e Israel, se nós não temos, por um lado, outro tipo de atores, e nomeadamente neste segundo caso, o Hezbollah, a comprometer as negociações em curso. E depois nós também podemos ter efetivamente aqui novos ataques a bases norte-americanas no Golfo, e que isso pode obrigar os Estados Unidos a uma posição muito mais robusta contra o Irão. Isso não tenho grandes dúvidas que possa vir a acontecer, porque repare, se efetivamente este tipo de ataques que sucederam, por exemplo, no Koweit e no Bahrain, se vierem a acontecer noutras bases militares norte-americanas no Golfo, e provocarem efetivamente perdas de vidas humanas norte-americanas, provavelmente os Estados Unidos terão que responder de outra forma.
A Liliana já referenciou algumas críticas por parte de Israel a este acordo, mas também há quem diga que este acordo entre Israel e o Líbano também enfraquece o Irão. Há quem diga isso dentro de Israel. Podemos encarar este acordo também dessa forma, ou não?
Também pode ser feita essa leitura. Nós também não podemos afastar uma questão: é que nós vamos ter eleições em Israel final de setembro, início de outubro. Ora, naturalmente que aquilo que está a acontecer ao nível, quer do Irão, quer também do Líbano, mas em nível regional, ou seja, do ponto de vista mais abrangente, tem naturalmente implicações na política interna israelita. E neste momento os vários protagonistas, por isso é que eu recuperei, por exemplo, Ben-Gvir, como nós sabemos, é mais à direita ainda do que Netanyahu. Nós temos os vários protagonistas a começarem a posicionar-se efetivamente a nível interno para as eleições que vão disputar muito em breve. Aliás, aquilo que também nós sabemos é que, na verdade, para Israel não há política externa, tudo é política interna, como bem sabemos. Por quê? Porque é a questão da sobrevivência do próprio Estado e da segurança do próprio Estado. Ora, naturalmente que agora os vários protagonistas políticos, a nível interno, aquilo que têm procurado é efetivamente recolher ou os benefícios deste acordo, ou efetivamente a possibilidade de fracasso, para que isso tenha efeitos imediatos nas eleições mais próximas que serão realizadas. E por isso, essas várias leituras não podem ser afastadas desse quadro eleitoral que se aproxima.
Liliana, deixe-me ainda perguntar-lhe, porque esta situação do Médio Oriente acaba por, de certa forma, deixar um pouquinho mais de lado também aquilo que vai passando entre a Rússia e a Ucrânia. O presidente da Ucrânia diz que aprovou um plano para lançar uma operação de 40 dias destinada a pressionar a Rússia a pôr fim à guerra. Esta é uma operação que poderá ter sucesso, ou de que forma, por parte da Ucrânia?
Eu ainda não analisei ao pormenor os contornos dessa operação. Já li, efetivamente, o plano de intenção de Zelensky, mas ainda não tive oportunidade de analisar do ponto de vista estratégico e operacional aquilo que Zelensky pretende com essa operação. Agora, aquilo que também me cumpre dizer, até porque se aproxima, é que efetivamente a Cimeira da NATO, a 7 e 8 de julho, vai ser decisiva para as ambições do presidente ucraniano ao nível da continuidade do apoio por parte dos aliados. Repare que, naturalmente, aquilo que nós estamos a assistir, sobretudo pelo “senior partner”, pelos Estados Unidos, é que há uma alteração da posição estratégica em relação à Europa para o Médio Oriente. Ou seja, a preocupação é muito mais por parte dos Estados Unidos, neste momento, no Médio Oriente do que propriamente na Europa. E isso pode efetivamente levar a que os europeus tenham um papel muito mais decisivo depois desta cimeira da NATO em relação à Ucrânia. Agora, este tipo de operação, provavelmente é o objetivo de Zelensky, um recuo total por parte da Rússia. Não me parece, neste momento, que isso possa ter efetivamente possibilidade de acontecer Isso, mesmo que eu dissesse, não deixaria de ser wishful thinking da minha parte. E depois temos aqui outra questão: é que efetivamente a Rússia está a beneficiar bastante com esta deterioração do ambiente estratégico no Médio Oriente. E vou dar, por exemplo, uma situação. Repare que o que nós temos mais referido ao longo destas últimas semanas em relação ao conflito no Médio Oriente, têm apontado, efetivamente, para as consequências económicas pelo encerramento do Estreito de Ormuz. Ou seja, tudo aquilo que efetivamente tem sido mais noticiado, tem apontado para uma crise ao nível do preço dos combustíveis e, naturalmente, do aumento do preço do petróleo. Repare, quem é um dos principais beneficiados no sistema internacional é efetivamente a Rússia. O aumento do preço do petróleo beneficia diretamente a Rússia, que também é produtora de petróleo. E aquilo que também começamos a perceber é que efetivamente alguma divisão entre os aliados em relação ao Médio Oriente pode ter também consequências nessa posição mais conjunta e mais assertiva em relação também a uma defesa intransigente da Ucrânia depois da Cimeira da NATO. Por isso é preciso também estarmos com atenção àquilo que irá acontecer. Agora, como eu referi no início em relação a Israel, eu acho que também se observa em relação à Ucrânia. Não me parece que haja efetivamente um fim das hostilidades, porque isso implicaria, repare, para a guerra terminar na Ucrânia, era necessário que a Rússia recuasse. E a Rússia, neste momento, aliás, neste momento e desde o início desta guerra à qual chamam “operação militar especial”, a Rússia não tem qualquer tipo de interesse relativamente a esse recuo e bastava isso para que esta guerra terminasse.
Milena Reis, muito obrigado por ter vindo a mais um “Gabinete de Guerra”. Um resto de um bom domingo. Bom dia.
Um bom domingo. Muito obrigada. Bom dia.











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