Aumento no tempo de bola rolando é alento no Brasileirão


É preciso respeitar o tempo, ter uma amostragem maior de jogos, mas é possível considerar alentadora a primeira rodada do Campeonato Brasileiro disputada sob a vigência do pacote de regras que busca ampliar o tempo de bola rolando nos campos do país. Dos nove jogos disputados entre sábado e domingo, seis superaram a média de jogo efetivo da competição, que até a criação das novas normas estava em 52 minutos e 54 segundos. E mais: cinco partidas tiveram mais de 55 minutos de jogo, ajudando a rodada a ter média de 55 minutos e meio de bola rolando, quase três minutos a mais de futebol em relação ao padrão do torneio.

Os 60 minutos de Athletico x Bragantino, e os 58 minutos de São Paulo x Coritiba, por exemplo, superam a média de todas as cinco principais ligas da Europa (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França e Itália), conforme dados da Opta coletados em estudo realizado pela CBF. Além disso, duas das partidas que ficaram abaixo da média o fizeram por margem mínima: nove segundos em Vitória x Botafogo, e 32 segundos em Fluminense x Palmeiras. Apenas Vasco x Santos foi um jogo “à moda antiga”, com os vícios habituais do país, encerrado após apenas 48 minutos e 58 segundos de bola em jogo.

Mas há outro aspecto a celebrar. Para atingir números melhores do que os habituais no atual Brasileirão, não foi preciso que nenhum jogo tivesse os 12 minutos e 41 segundos de acréscimo que são a média do atual torneio. Ou seja, houve um avanço na maior mazela do nosso jogo doméstico: as partidas picotadas, repletas de paralisações e com pouca sequência. Jogou-se mais futebol em menos tempo total. Oito partidas da rodada duraram entre 94 minutos e 30 segundos, caso de Mirassol x Flamengo, e os 99 minutos e meio de Vitória x Botafogo. Só Fluminense x Palmeiras superou a marca dos100 minutos, e o fez por 29 segundos.

E por que tal dado é tão importante quanto o tempo de jogo efetivo? Porque a essência do futebol é o ritmo. A rodada mostrou árbitros que evitaram ao máximo parar jogos por qualquer queda de um jogador em campo, por um simples choque de tornozelo ou uma alegada dor na coxa. A não ser em casos claros de riscos à saúde ou lesões importantes, o jogo não pode ser obrigado a resistir a seguidas quedas que permitem descanso a quem se vê contra as cordas. O momento de uma partida de futebol precisa ser respeitado: um time submetido a seguidos ataques não pode ganhar a chance de respirar de forma artificial, porque é difícil e cansativo defender uma investida após outra do rival. E uma paralisação indevida não pode beneficiar quem está sendo sufocado.

O fundamental é que as novas regras imponham uma mudança cultural. Na rodada, houve menos aglomerações em torno dos árbitros e manifestações desmedidas de bancos de reservas. Se será um padrão, o tempo dirá. A experiência de ver os jogos foi melhor.

Haverá algumas provas importantes a atravessar na caminhada. A primeira delas, quando chegarem os clássicos regionais, com suas tensões à flor da pele e uma tradição de mais rispidez e desavenças entre jogadores. Depois, a capacidade dos árbitros de lidar com tamanha carga de responsabilidade. Afinal, as novas regras ampliaram demais a quantidade de tarefas impostas a eles: regular jogos do Campeonato Brasileiro já não era fácil, mas agora o trabalho inclui contar tempo a cada falta, arremesso lateral, substituição ou lesão.

Um primeiro passo parece ter sido dado, mas o sucesso virá com a consistência na aplicação das novas medidas. E, principalmente, se isso convencer os profissionais de que o antijogo deixou de compensar.

O Flamengo que reencontrou o gosto pelo controle dos jogos goleou o Mirassol com ótimas exibições de Pedro e Carrascal. Eles foram os grandes articuladores do time: o centroavante como pivô, e o meia entre volantes e defensores do Mirassol. O jogo ilustra o que Leonardo Jardim pensa de Pedro, essencial em partidas nas quais o rubro-negro fica com mais posse contra defesas fechadas. Fla e Palmeiras vivem momentos opostos.

Há duas formas de olhar para a derrota do Vasco. Uma delas é notar que o placar não conta o jogo. Os vascaínos foram melhores até o Santos marcar. A outra é constatar a dificuldade de produzir resultados num time que se organizou melhor com o técnico Pedro Emanuel. O Vasco dominou, mas não tem grandes finalizadores: a falta de gols tem custado muito caro. Colidio não é artilheiro, mas pode acrescentar qualidade ao setor ofensivo.

Na grande virada sobre o Palmeiras, o Fluminense foi aguerrido e inteligente. O tricolor soube atacar em transições rápidas e nos momentos em que controlou mais a bola, evitando perdas que dessem contragolpes ao adversário. Ganso foi excelente ao ditar o ritmo, Martinelli foi vital na saída de bola e nos duelos de meio-campo. Hulk fez ótima partida como pivô. E, no fim, as entradas de Nonato e Serna reequilibraram um jogo que escapava.



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