Voltar da Copa do Mundo para o Brasileirão foi como embarcar numa viagem ao passado


O futebol brasileiro, se fosse um carro, seria daqueles que só vêm com a versão completa — não dá para escolher os opcionais. Foram só três rodadas do campeonato nacional desde a volta da Copa do Mundo, uma delas com asteriscos por causa da participação de quatro clubes nos playoffs da Sul-Americana, e todos os itens já foram ticados: bolinhos em torno do árbitro (que tinham começado no amistoso entre Fluminense e Bahia, depois de um pênalti mal marcado), reclamações contra decisões da arbitragem (que agora já envolvem também o impedimento semiautomático), demonstrações generalizadas de macheza (que não precisam de uma justificativa maior do que um lateral invertido), gramados ruins (com novidades, como o da Neoquímica Arena, que já foi o melhor do país). Fora o nível técnico das partidas, bem mais baixo do que já foi dentro da própria competição.

A comparação com a Copa é tentadora, mas injusta. Um evento mundial e quadrienal bancado pelos milhões da Fifa — tantos que mexeram com a ambição do presidente Gianni Infantino, autor de uma frustrada tentativa de privatizá-lo — terá necessariamente mais estrutura e qualidade do que o Brasileirão nosso de cada ano. Dizer que o futebol brasileiro não evoluiu em nada também seria uma generalização oportunista. Hoje há mais público nos estádios, mais estrutura, mais dinheiro para contratar bons jogadores, embora dividido e administrado desigualmente. A pergunta mais adequada a se fazer seria: onde estamos querendo chegar?

Se o objetivo é a defesa do futebol raiz (termo que me confunde porque não há consenso sobre a profundidade desse enraizamento: é para voltar aos folclóricos anos 90, aos românticos 70 ou direto até a era do amadorismo?), enfim, parece que estamos no caminho certo. Podemos fazer nossa própria versão daquele anúncio de TV do Campeonato Uruguaio, que entre outras imagens para mostrar como lá as coisas são feitas do jeito deles mostrava uma vaca dentro de campo, em meio a uma celebração de torcedores.

Um dos problemas é que esse reencontro com o passado pretende também trazer de volta questões que não são só do futebol, mas de toda a sociedade, como a violência — não apenas física, nos confrontos entre torcidas organizadas, mas moral. O comportamento em campo, um dos pontos que mais chamaram atenção no retorno do Brasileirão, não pode mais ser dissociado da linguagem agressiva das redes sociais, onde esse tipo de atitude não só é incentivado, mas cobrado, e campeiam as ofensas e ameaças aos jogadores e suas famílias.

O mundo virtual dos torcedores também abre suas portas para quem ainda acha que há espaço, na vida real, para racismo e xenofobia — a menos de um ano da realização da Copa feminina no Brasil, ainda há quem ache engraçado postar que mulheres deveriam voltar a ser proibidas de jogar bola.

Outro desafio é querer que desse modelo saiam clubes e uma seleção capazes de competir com os melhores do mundo. A Argentina de Messi — e por causa de Messi — foi a exceção que confirmou a regra, e seu encanto já passou. Se nossa opção for pelo passado, é lá que nossas conquistas vão ficar também.



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