Carlos Frederico Barcellos Guazzelli (*)
Transcorridas poucas semanas do encerramento daquela que foi batizada como “a maior de todas as Copas” – e serenados os ânimos, decantados os efeitos das polêmicas suscitadas ou despertadas durante as partidas finais – parece oportuno refletir mais detidamente acerca deste acontecimento marcante, em seus múltiplos aspectos. Convém, desde logo, lembrar que, ao longo das últimas décadas, a Copa do Mundo transformou-se em um grande evento, não apenas esportivo e midiático, mas também cultural, político e econômico.
Coincidência ou não, a primeira edição do torneio em território norte-americano – há trinta e dois anos – marcou a consolidação da integração do futebol ao capitalismo monopolista internacional, mediante a associação da FIFA, sua principal entidade, com os maiores consórcios fabricantes de material esportivo, bem como os grandes grupos de comunicação e, claro, das finanças globais.
Conduzido por seu então presidente, João Havelange, que o concebeu e organizou em todas as suas etapas, o processo culminou na Copa realizada nos EUA em 1994, em que o Brasil se consagrou tetracampeão mundial de futebol.
E, desde então, o chamado “esporte bretão”, tal como ocorreu com as Olimpíadas, tornou-se um dos mais lucrativos negócios, em todos os espaços que ocupa, no plano internacional ou interno, mobilizando pelas mais variadas mídias – as tradicionais e as novas, criadas pelos avanços da informática – multidões cada vez maiores de torcedores consumidores e, sobretudo, gerando lucros extraordinários aos já referidos conglomerados financeiros e do espetáculo.
Em consequência, a cada realização do evento – na verdade já antes, durante a escolha do local em que se realizará – são inevitáveis os reflexos, a um tempo sofridos e causados na conjuntura política internacional, mesmo com as medidas tomadas e as declarações feitas – não sem alguma dose de hipocrisia – de parte de seus organizadores, com vistas a evitar sua contaminação “ideológica”. Assim, por exemplo, nas duas edições anteriores à de que se trata aqui, em 2018 e 2022, a FIFA tratou por todos os meios – e com relativo êxito – de blindar os regimes russo e catari, respectivamente, das esperadas críticas de seus adversários, ou simplesmente de parcelas expressivas da opinião pública, contrárias à sua natureza autoritária. O mesmo, no entanto, não ocorreu agora.
Evidentemente, os governantes dos países-sede deste tipo de espetáculo sempre procuram tirar dividendos favoráveis – e não há novidade alguma em que o atual primeiro mandatário ianque o fizesse. O ineditismo, no particular, reside na forma como, bem ao seu estilo canhestro e escancarado, ele e seu governo o fizeram, até mesmo desde antes do início do torneio – desrespeitando liturgias, protocolos e normas legais. Isto tanto ao expulsar e proibir de atuar o árbitro escolhido como o melhor da África, apenas por ser cidadão da Somália, nação reputada pelo Império como terrorista; quanto ao impor constrangimentos absurdos para a delegação iraniana participar dos jogos, forçando-a a permanecer em território mexicano e autorizando-a a ficar em solo estadunidense em tempo exíguo, suficiente apenas para jogar e voltar ao México.
Sem falar no fiasco grotesco de compelir a presidência da FIFA a intervir no “caso Balogun”, anulando a punição de suspensão imposta de forma regulamentar a este jogador da seleção dos EUA, e permitindo sua utilização no jogo eliminatório contra a Bélgica – a quem os deuses do futebol incumbiram de reparar aquele erro estúpido, impondo uma derrota inapelável ao time beneficiado indevidamente pela iniciativa desastrada do homem-laranja. E culminando no comportamento lamentável deste personagem, ele mesmo deplorável, ao tentar ridiculamente surfar na vitória da equipe espanhola, comemorando com seus jogadores a entrega da taça – o que, felizmente, não ocorreu graças à discreta, mas eficiente postura dos mesmos, que só comemoraram após sua retirada.
A respeito desta cerimônia, não se pode deixar de registrar e manifestar repulsa por mais uma atitude desrespeitosa do presidente da FIFA, em sua ânsia compulsiva de adular o político que hoje (des)governa a nação estadunidense. Com efeito, a presidenta do México e o primeiro-ministro do Canadá – países que também foram anfitriões da Copa, sediando vários jogos em suas fases iniciais – embora chamados para o ato, permaneceram simplesmente perfilados, sem que se lhes desse a oportunidade de também entregar as medalhas aos jogadores e desportistas premiados, privilégio exclusivo da personalidade megalômana e psicopata a quem o atual dirigente da entidade promotora procurou agradar de maneira vil, o tempo todo. Em mais uma atitude indicativa da afetação pela atual situação geopolítica de parte de quem, a direção da FIFA, nas edições anteriores, portou-se de forma muito diferente.
De fato, nestas ocasiões a postura de seus dirigentes foi de regra impositiva e exigente, no que diz respeito ao escrupuloso cumprimento das condições impostas aos países que sediaram o evento – tal como ocorreu, exemplificativamente, no Brasil em 2014. Deve-se registrar, no entanto, que as tropelias inusitadas ocorridas desta feita e acima relatadas – devidas aos desvarios do autocrata que atualmente ocupa a Casa Branca – não conseguiram empanar o brilho da competição esportiva, que superou inclusive as expectativas pessimistas derivadas da elevação considerável do número de participantes. Além do congraçamento de milhares de visitantes, oriundos dos mais variados países envolvidos no certame – uma interessantíssima exposição da multidiversidade humana – os próprios aspectos peculiares do futebol, que o tornam o mais popular dos esportes, concorreram para, felizmente, senão obscurecer, ao menos atenuar os efeitos das perniciosas intromissões do líder ultradireitista.
É bem conhecida a função social e civilizatória das competições esportivas, em geral, como mecanismos de sublimação e canalização de nossos impulsos agressivos; e bem assim, como expressão cultural dos diferentes povos. E dentre suas inúmeras modalidades, nenhuma supera o futebol, o que decorre tanto de suas regras simples – que permitem que seja disputado nas mais variadas circunstâncias de modo e espaço – quanto da condição única de ensejar à equipe menor, ou mais fraca, a possibilidade de enfrentar e derrotar rivais eventualmente maiores ou mais fortes, hipótese que ocorre com frequência. Isto, e mais a beleza plástica de suas manobras – realizadas da maneira mais improvável: com os pés – tornaram-no o esporte mais globalizado. Ou até mesmo, como sustentava o grande Eduardo Galeano, a mais universal das manifestações culturais contemporâneas.
Daí que as performances épicas da equipe que representou um país muito pequeno e praticamente delas desconhecido – o arquipélago de Cabo Verde, formado por cerca de dez ilhas, habitadas por pouco mais de meio milhão de pessoas – tenha galvanizado a atenção e provocado um genuíno encantamento nas audiências multitudinárias da última Copa. O mesmo se diga das jornadas empolgantes da seleção argentina, que nos instantes finais de quatro partidas seguidas conseguiu vitórias quase impossíveis; ou da disputa pelo terceiro lugar, comumente insossa, que as equipes inglesa e francesa transformaram em um jogo belíssimo, com dez gols marcados.
Ao concluir este despretensioso panorama dos reflexos políticos sofridos e causados pela Copa do Mundo recém-finda, não se pode deixar de mencionar as apaixonadas discussões travadas a propósito da partida final, envolvendo os times da Espanha e da Argentina – em especial entre nós, brasileiros, dada a conhecida e antiga rivalidade futebolística com nossos vizinhos do Prata. Evidentemente, como foi preciso ser lembrado por dois dos mais lúcidos integrantes da crônica esportiva nacional – Juca Kfouri e Milly Lacombe – a cada um é garantido o direito de torcer para quem quiser; não seria necessário, portanto, para manifestar preferência pela “Fúria”, como é tradicionalmente designada a equipe espanhola, invocar os inadmissíveis atos racistas praticados ao longo da competição por parte da torcida argentina presente nas cidades norte-americanas.
Afinal, como o próprio técnico argentino, pessoa educada e equilibrada, declarou na véspera do jogo anterior, contra a Inglaterra – evitando recorrer aos rancores patrióticos decorrentes da guerra das Malvinas, ocorrida há mais de quarenta anos –, tratava-se, aquele, apenas de “un partido de fútbol, nada más”. O mesmo se diga, também, do encontro derradeiro do torneio – tratado por parte da dita opinião pública como a vingança do mundo civilizado, representado pela nação ibérica, contra um país bárbaro, habitado por racistas. Aliás, em matéria de racismo, os espanhóis não têm condições morais de apontar o dedo acusatório: que o diga o corajoso Vinícius Jr., a toda hora tendo de enfrentar as odiosas manifestações dos seus torcedores. E tampouco nossas classes dominantes e seus aliados nos extratos médios, cujo comportamento preconceituoso e discriminatório – não apenas contra a população negra, mas também contra indígenas, nordestinos e pobres em geral – é parte constitutiva de seu ethos.
O curioso é que, aproveitando-se do quiproquó, a patética figura que desgraçadamente hoje preside os destinos do país vizinho, atribuiu à esquerda – e também a Lula, pasme-se!! – a “campanha difamatória” encetada contra a Argentina… Como se vê, ao menos para a internacional ultradireitista, o simpático treinador da “scaloneta” – apelido carinhoso da seleção daquele país – está errado, pois o futebol não é apenas um jogo.
(*) Defensor Público aposentado e coordenador da Comissão Estadual da Verdade/RS (2012-2014).
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