Renan Tolentino, para a RFI em Paris
No total, 16 seleções, divididas em quatro chaves, jogaram a fase de grupos do torneio, que entra agora no mata-mata. Ao lado de Malawi, Cabo Verde disputa pela primeira vez a CAN. Para a atacante Silviane Gomes, um dos destaques do time, a chance inédita de jogar o torneio transcende o lado competitivo e merece ser valorizada.
“É um momento incrível. Falando francamente, é uma aventura humana. Eu nunca imaginei que um dia eu iria chegar até aqui, com a minha seleção, Cabo Verde. Então eu aproveito ao máximo”, celebrou Silviane.
Sentimento compartilhado por sua companheira no ataque dos Tubarões Azuis, Evy Pereira, que marcou o primeiro gol da seleção caboverdiana na história da Copa Africana feminina.
“Sim, é sempre bom entrar para a história. Estou muito feliz, mas eu estaria ainda mais feliz se o meu gol tivesse levado Cabo Verde à vitória (…) Mas eu estou contente mesmo assim e grata por essa oportunidade que me deram (…) Isso também faz parte do futebol”.
Uma equipe em construção
Única seleção de língua portuguesa na Copa Africana de Nações feminina, Cabo Verde não foi bem na fase de grupos e acabou não se classificando para o mata-mata. Mas a equipe conquistou o primeiro ponto de sua história no torneio ao empatar com Camarões, em 1 a 1, na última rodada.
Eleita a melhor campo contra as camaronesas, a defensora Eleia Vieira valoriza a experiência adquirida durante sua estreia na CAN com a seleção caboverdiana.
“Queremos corrigir o que precisa ser corrigido e, para a próxima competição, viremos com mais força. Vivi grandes experiências. É a primeira vez que piso neste palco. Levo uma experiência bem grande para o meu clube, para minha vida pessoal e momentos também que não vou esquecer jamais”, disse ela em entrevista ao repórter Marco Martins, enviado especial da RFI no Marrocos.
O jornalista português, que acompanhou de perto a seleção caboverdiana direto de Casablanca, avalia os desafios que a equipe precisou driblar para alcançar a classificação inédita para a CAN e o que fica de lição para o futuro.
“Antes de tudo, Cabo Verde tem que estar feliz pela participação. Como eu disse, essa seleção existe há apenas oito anos. A maior parte dessas jogadoras joga na segunda divisão portuguesa, mas não são profissionais em sua maioria. Outras jogam em Cabo Verde, onde também não há um campeonato profissional”, ressalta.
“Essa seleção caboverdiana está sendo construída, mas ainda falta uma experiência de alto nível, ainda falta uma estrela, como a Chawinga no Malawi, que também está na sua primeira participação. Ela está acostumada a ganhar títulos com o Lyon, está habituada a disputar jogos importantes na Liga dos Campeões da Europa, na liga francesa. Falta talvez essa referência do lado de Cabo Verde para também inspirar as jovens jogadoras. Este grupo já vai inspirar as jovens caboverdianas a praticarem futebol, mas uma estrela também é importante, como Vozinha no futebol masculino”, analisa Martins.
Domínio nigeriano
Enquanto Cabo Verde era uma das estreantes, outra seleção é figurinha carimbada não só no torneio, como também no álbum de campeãs. Atual vencedora, tendo conquistado em 2025, a Nigéria tem incríveis 10 títulos em 13 edições, demonstrando um domínio absoluto na competição.
Prova disso é que o país nunca perdeu uma final, tendo vencido todas desde que chegou à decisão pela primeira vez em 1998. Marco Martins aponta fatores extracampo que são determinantes para a Nigéria alcançar esse sucesso esportivo no continente.
“É algo cultural, talvez. Desde a primeira edição, temos essas equipes presentes: África do Sul, Nigéria, Gana… são seleções cujas federações rapidamente apostaram no futebol feminino. Há seleções que são muito recentes, como Cabo Verde, por exemplo, que só existe oficialmente há oito anos. Quando olhamos para a Nigéria, ela ganhou seu primeiro título em 1998, ou seja, já estavam adiantadas desde essa época”, detalha.
“Então, esse avanço que a Nigéria tem faz com que ela consiga continuar a vencer a CAN várias vezes. Quando se tem essa vantagem de quase 20 anos em relação a outras seleções, não há mistério, trabalha-se bem. Várias jogadoras nigerianas estão em grandes ligas, como dos Estados Unidos, França, Espanha e Inglaterra, em campeonatos competitivos”, explica o jornalista.
Além da equipe nigeriana, somente outras duas seleções levantaram o troféu da CAN feminina até hoje: África do Sul, em 2022; e Guiné Equatorial, em 2008 e 2012. Guiné não disputa esse ano.
Na primeira fase, a seleção nigeriana avançou em segundo lugar no grupo C, atrás de Malawi, que joga sua primeira Copa Africana. Os outros classificados foram: Marrocos e Argélia no grupo A; Costa do Marfim e África do Sul, no B; e Camarões e Gana, no D.
“As principais favoritas conseguiram se classificar. Além disso, tiveram outras seleções que fizeram um torneio interessante. Entre elas, a Argélia e o Malawi, que na sua primeira participação na CAN conseguiu avançar à próxima fase no grupo C, além de Costa do Marfim e Camarões”, sublinha Martins.
De olho na Copa de 2027 no Brasil
Este ano, a CAN tem uma importância para além do troféu de campeã africana. Isso porque esta 14ª edição também serve como eliminatórias para a Copa do Mundo de 2027, que será sediada no Brasil. As quatro equipes semifinalistas se classificam automaticamente para a competição mundial.
Enquanto as quatro eliminadas nas quartas de final disputam entre si um torneio à parte que dará duas vagas na repescagem para o campeonato da Fifa.
“Isso é muito importante para essas seleções. Porque ou conseguem vaga direta para a Copa do Mundo ou terão uma segunda oportunidade. Por isso, o mais importante para essas equipes era chegar às quartas de final, para poder ter essa oportunidade de ir ao Mundial no Brasil”.
“Ir para a Copa é o expoente máximo no futebol feminino (…)Para as jogadoras, o Mundial ainda é muito acima das outras competições”, destaca Marco Martins.
A final da Copa Africana de Nações feminina é no próximo domingo (16), às 16h (horário de Brasília), em Rabat, no Marrocos.











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