A CBF divulgou vídeo institucional que começa com um ato falho impressionante para quem usa estratégia de comunicação: “Eu sei o que vocês estão sentindo”. Para quem pensou em criar conexão com a torcida, o pronome escolhido não poderia ser pior. A confederação poderia, pelo menos, incluir-se no sentimento geral da nação.
O objetivo da peça publicitária, além de dar satisfação aos patrocinadores, foi anunciar que o próximo ciclo terá mais estabilidade e organização.
Já se tratou das razões da pior campanha do Brasil em Copas nos últimos 60 anos. Parte do roteiro é a troca incessante de técnicos, cinco em quatro anos e meio, presidentes, três em cinco anos, e de jogadores, 95 depois da derrota para a Croácia no Qatar 2022.
Não é só isso.
Os desmandos podem até explicar, mas não justificam a semana que se seguiu à eliminação contra a Noruega.
Carlo Ancelotti foi para sua casa, em Vancouver, no Canadá, em vez de voltar com o grupo ao Rio de Janeiro, onde poderia conceder uma entrevista coletiva em que explicasse o fracasso e projetasse o sucesso nos próximos quatro anos.
Vinicius Junior alugou uma mansão em Ibiza.
Neymar foi para Las Vegas, para jogar pôquer e mostrar ao mundo seu compromisso com uma casa de apostas do baralho, da qual é embaixador cultural, seja lá o que signifique isso quando o assunto é fazer um royal straight flush.
Assim como Neymar, a CBF fez um gol contra. A metáfora é bem mais fácil de compreender do que se alguém dissesse que o ex-craque brasileiro fez um high card, o que quase só ele sabe o que significa, embaixador da nossa tristeza.
A campanha do novo ciclo, o da recuperação do futebol brasileiro, precisa começar pelo respeito ao nosso sentimento. Foi até surpreendente o envolvimento das grandes cidades do Brasil quando a Copa do Mundo se iniciou. Para quem passou a última década ouvindo que ninguém mais liga para a seleção, o país se vestiu de amarelo, e não foi por política, mas por paixão.
Ninguém, num país de 210 milhões de habitantes, é gente demais. Talvez essa frase feita, esse clichê que se criou, de que a seleção já não nos comove, seja verdade na Faria Lima, em São Paulo, ou na Dias Ferreira, no Leblon, mas é difícil estender essa suposta ausência de sentimento e pensar que isso existe do Monte Roraima ao Chuí, norte a sul do Brasil.
A CBF já fez o diagnóstico de que muita gente está interessada na seleção. E, no entanto, comete o ato falho: “Eu sei o que vocês estão sentindo”. E você, querido dirigente, não está sentindo nada?
Voltar a ser campeão mundial passa por recuperar a identidade de jogo. A coincidência da data, 5 de julho, da eliminação para a Noruega e da queda no Sarriá, em 1982, poderia nos fazer pensar em por que a seleção não se apresenta ao mundo como Brasil, mas como um time qualquer, que poderia vestir qualquer camisa. O estilo apresentado na Copa poderia ser o da Croácia, do Peru, do Paraguai, da Noruega até.
No dia 5 de julho começa o novo ciclo para sermos “ainda mais fortes”, diz a CBF. Ainda mais do que quando? Do que fomos em 1970 ou em 2002? A data poderia ser apresentada como o Dia Mundial do Futebol Arte.
Isso, sim, ajudaria a redesenhar o ciclo para chegar a 2030 como Brasil. Todos nós.
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