Não sei se vocês da imprensa são todos assim, mas eu assisto à Copa do Mundo pensando em quais são as melhores histórias para contar. A primeira que me ocorre é sempre a mais óbvia: Brasil campeão. Porque aí, mesmo que não haja um grande roteiro, teremos sempre nossos próprios casos — onde estávamos na hora da final, como reagimos ao gol do título, qual foi o amuleto da sorte — para recordar. Como não tem sido assim, já me acostumei a procurar alternativas.
Antes de esta edição começar, nada me parecia mais interessante do que Cristiano Ronaldo ser campeão logo depois de Messi. A rivalidade entre os dois movimentou o futebol deste século. Talvez só o tênis tenha tido um embate maior, entre Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic. Ronaldo — que no começo da carreira eu chamei de presepeiro e achava graça ao vê-lo se olhando no telão — esteve sempre no papel de desafiante, e sua vaidade, em vez de atrapalhar, foi a grande motivação para seguir na caça do rival. Mas ficou para trás numa primeira fase em que os protagonistas brilharam, e Portugal não aconteceu. Agora é buscar o gol mil.
Duas seleções que chegaram mais longe, com o protagonismo de seus craques, teriam boas histórias para contar. Os ingleses esperam que a Copa volte para casa há 60 anos e escolheram um técnico alemão para mais uma tentativa. Em termos futebolísticos, seria como o Brasil ser comandado por um argentino; mas a rivalidade entre Inglaterra e Alemanha vai muito mais longe, com raízes históricas. Thomas Tuchel desafiou a opinião pública, deixou jogadores badalados fora da convocação, montou um time com seu estilo. E caiu na semifinal, culpando o DNA dos inventores do futebol.
A França tem Mbappé, o Capitão Copa. Ele é craque em tempo integral, mas se nos clubes sempre levanta alguma desconfiança — Luis Enrique não fez questão dele no PSG, a torcida do Real Madrid fez um abaixo-assinado para dizer que também não —, pela seleção, especialmente na maior competição de todas, parece chegar sempre no auge da motivação. Poderia igualar o Brasil de 1994 a 2002, com três finais e dois títulos. E, no caminho, se tornar o maior artilheiro de todas as edições — o que, pelo menos até hoje, conseguiu, numa disputa muito louca de terceiro lugar contra a Inglaterra.
Deixei Messi para o fim. Porque, na verdade, evitava pensar na incrível história que ele poderia contar nesta Copa. Avisou desde o primeiro jogo que estava disposto e foi pulverizando recordes. Levou a Argentina a igualar o Brasil de 58 a 70, com três finais em quatro edições, e vai disputar todas, superando Pelé (que se machucou no Chile). A comparação entre os dois já virou questão de preferência — eu ainda fico com o Rei, não só por ser brasileiro, mas pelo papel dele na formação do meu imaginário de torcedor.
E confesso que não tinha pensado em nada especial na Espanha. Até que a Argentina se classificou para enfrentá-la na final e reapareceu a foto de Messi com Yamal bebê. Não há passagem de bastão mais emblemática do que essa. Só falta combinar com os argentinos.











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