Decidir para além do imediatismo


Há vitórias que o marcador nunca consegue traduzir. Permanecem muito depois do apito final, sobrevivem ao entusiasmo do momento e acabam por transformar-se em património coletivo. Foi isso que Cabo Verde alcançou na Copa do Mundo de 2026.

Na sua estreia na maior competição do futebol mundial, a seleção nacional enfrentou, sem baixar os olhos, três campeãs do mundo e uma poderosa Arábia Saudita. Fê-lo com a serenidade de quem conhece as próprias limitações, mas recusa fazer delas um destino. Mostrou que organização, talento e disciplina podem reduzir distâncias que, durante muito tempo, pareciam intransponíveis.

O ponto mais alto desta caminhada surgiu diante da Argentina, campeã do mundo. Durante cento e vinte minutos, Cabo Verde recusou o papel que muitos lhe haviam reservado antes do primeiro apito. Competiu de igual para igual, obrigando um dos gigantes do futebol mundial a disputar cada centímetro do terreno como se estivesse perante um velho rival. Bastaram escassos minutos para que o sonho das grandes penalidades escapasse, mas, curiosamente, foi nesse instante que o mundo percebeu que a pequena nação atlântica deixara definitivamente de ser pequena no futebol. Mais de 2,7 mil milhões de pessoas acompanharam esse encontro. O golo de Sidny Cabral (88,7%) foi escolhido pelos adeptos como o melhor dos 16 avos de final, superando, de longe, o de Messi (4,1%). Não foi apenas um prémio individual. Foi uma declaração silenciosa de que o talento não reconhece fronteiras geográficas, nem dimensões territoriais.

Hoje, Cabo Verde é pronunciado com maior familiaridade em estádios, ruas, comunicação social e academias desportivas espalhadas por todo o mundo. Não porque tenha conquistado um troféu, mas porque conquistou respeito. E, por vezes, esse é o título mais difícil de alcançar.

É, por isso, justo agradecer. Aos jogadores, pela coragem. Ao selecionador Bubista, pela liderança discreta, firme e consequente. À equipa técnica e ao staff, pelo trabalho invisível que antecede sempre os aplausos. Aos adeptos, dentro e fora das ilhas, cuja fé nunca conheceu fronteiras. Cada jogo foi superior ao anterior, como se a seleção tivesse decidido escrever uma história em capítulos, reservando sempre o melhor para a página seguinte.

Foi, talvez, movido pelo entusiasmo destes dias, que o Primeiro‑Ministro anunciou a intenção de instituir o dia 3 de julho como Dia dos Tubarões Azuis. A homenagem é merecida. Poucos discutirão isso. Mas as datas, tal como os símbolos, possuem uma delicada responsabilidade. Pois, não se trata somente de recordar acontecimentos, mas também de escolher a forma como uma nação deseja recordar‑se de si própria.

É legítimo perguntar, sem precipitação nem polémica, se o dia escolhido representa, de facto, aquilo que queremos perpetuar. Será que a memória coletiva deve fixar-se no momento em que terminou uma extraordinária campanha ou naquele em que ela começou a mudar definitivamente a forma como o mundo nos via? Há perguntas cuja resposta beneficia da ponderação antes da decisão.

Confesso uma pequena dificuldade pessoal. Sempre que penso no dia 3 de julho, recordo aqueles minutos finais diante da Argentina. Recordo que a história esteve a escassos instantes de seguir outro caminho. É inevitável que uma leve nostalgia acompanhe essa lembrança. E talvez seja por isso que hesito. Não gostaria que, quando tudo isso for história, os meus netos aprendessem primeiro o dia em que saímos da competição; preferiria que soubessem, antes de tudo, o dia em que Cabo Verde entrou para a história do futebol mundial.

Os símbolos nacionais não pertencem ao presente político. Pertencem ao tempo longo. Sobrevivem aos governos, às legislaturas e até às gerações que os criam. Talvez por isso mereçam nascer depois de amadurecerem um pouco, como os frutos que só revelam o seu verdadeiro sabor quando resistem à tentação da colheita precoce.

A governação, como o futebol, conhece momentos em que a rapidez decide partidas. Mas conhece outros em que a virtude está precisamente em esperar o segundo seguinte. Nem sempre a primeira decisão é a melhor decisão; muitas vezes é apenas a mais rápida.

O Governo acaba de iniciar funções e beneficia da confiança do eleitorado. Dispõe de tempo, de legitimidade e, sobretudo, de uma rara oportunidade para construir consensos duradouros. Não há necessidade de disputar com o relógio aquilo que a história nunca exigiu que fosse decidido com pressa. Entretanto, importa não perder de vista uma questão. Como foi possível que um país com pouco mais de meio milhão de habitantes chegasse a competir desta forma diante das maiores potências do futebol mundial?

Mas talvez a pergunta decisiva seja outra. Os grandes resultados aparecem subitamente apenas para quem observa o último capítulo. Para quem acompanha o livro inteiro, percebe-se que nenhum deles nasce por mero acaso. O acaso pode explicar um jogo; dificilmente explica um projeto.

E é aí que reside a maior lição deixada pelos Tubarões Azuis. Venceram porque alguém, muitos anos antes, decidiu pensar para além do imediatismo. Talvez seja essa a vitória que mais importa preservar. Não só no futebol. Também na forma como escolhemos construir o futuro de Cabo Verde.

É com este propósito que leio o Programa do Governo de Cabo Verde que se encontra em debate no Parlamento. As opções de política pública que ali se apresentam resultam de um mandato democrático e traduzem uma determinada visão sobre o caminho que o país pode percorrer.

Governação é, em larga medida, a arte de decidir. Há decisões que chegam tarde e perdem o seu valor; outras chegam cedo de mais e acabam por transportar consigo o custo da insuficiente reflexão. A virtude, como quase sempre acontece na vida pública, encontra-se nesse estreito intervalo onde a ponderação consegue acompanhar a urgência sem se deixar dominar por ela.

Formular políticas públicas talvez seja um dos exercícios mais exigentes do Estado. Cada decisão abre possibilidades, mas fecha outras tantas; cada prioridade transporta inevitavelmente uma renúncia. Não existem soluções perfeitas, apenas escolhas que procuram produzir o maior benefício coletivo possível num contexto de recursos escassos, expetativas elevadas e uma realidade que muda mais depressa do que os próprios planos conseguem acompanhar.

É por isso que um Programa de Governo não deve ser confundido com um catálogo de intenções, nem com um repositório de promessas destinadas a sobreviver apenas ao entusiasmo do debate parlamentar. Deve ser entendido como um compromisso de longo alcance, suficientemente firme para indicar um rumo e suficientemente inteligente para admitir correções sempre que a realidade aconselhar prudência. A rigidez raramente é sinal de convicção; muitas vezes é apenas dificuldade em aprender. Os países que prosperam não são necessariamente aqueles que nunca erram, mas aqueles que conseguem distinguir o momento de continuar a analisar do momento de agir.

Talvez seja esse um dos maiores desafios da governação contemporânea: resistir simultaneamente à tentação da precipitação e ao conforto da indecisão. Entre uma e outra existe um espaço estreito, quase invisível, onde se encontram as decisões que verdadeiramente transformam os países. É nesse espaço que se mede a qualidade da liderança, não pela velocidade com que anuncia, mas pela capacidade de fazer com que as suas decisões permaneçam úteis muito depois de deixarem de ser notícia.

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1286 de 22 de Julho de 2026.



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