Do vexame ao caos: entenda crise que envolve a seleção italiana e a busca por um novo técnico


Muller: “O futebol brasileiro está caminhando para ter a identidade da Itália”

Tetracampeão Muller escolheria algum treinador brasileiro para comandar o Brasil. Crédito: Estadão

A seleção italiana vive uma das maiores crises de sua história. Depois de ficar de fora da Copa do Mundo de 2026 pela terceira edição consecutiva, a Azzurra passou por uma sequência de mudanças nos bastidores, que começou com a saída do técnico Gennaro Gattuso e do chefe de delegação Gianluigi Buffon, avançou para a renúncia do presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC) e chegou à reformulação do departamento técnico, com as contratações de Paolo Maldini e Leonardo.

Federação Italiana de Futebol (FIGC) está passando por crise. Foto: Divulgação/Federação Italiana de Futebol (FIGC)

Ambos, porém, deixaram os cargos apenas 16 dias depois de assumirem a missão de reconstruir a seleção. O rompimento ocorreu após a federação recuar de um acordo com Andrea Pirlo, escolhido por Maldini e Leonardo para comandar a equipe. O veto teria relação com o vínculo comercial do ex-jogador com uma casa de apostas russa, em uma reviravolta que ampliou a crise política na entidade.

A Federação Italiana ainda tenta contornar o cenário e manter Maldini e Leonardo nas funções. Giancarlo Abete, presidente da Liga Nacional Amadora do país, atualizou a situação dos dirigentes após uma reunião com a Federação.

“A reunião de hoje começou com negociações com Guardiola e, posteriormente, com a recomendação de Pirlo. Depois disso, surgiram os problemas que todos conhecem, atividades desconhecidas pela Federação quando tomou esse tipo de decisão. Em seguida, veio a rejeição de Maldini e Leonardo. Vamos chamar de renúncias, mas acho que ainda não foram formalizadas”, afirmou Giancarlo Abete.

“Recebemos a notícia quando estávamos saindo da sala do presidente. Até 45 minutos atrás, estávamos pensando nas alternativas propostas pelo diretor técnico e pelo assessor. Agora precisamos recomeçar com um projeto sério”, complementou Abete.

A seguir, entenda os principais capítulos que levaram a Itália do fracasso esportivo ao caos institucional.

O terceiro fracasso consecutivo em Copas do Mundo

A Itália não disputou a Copa do Mundo de 2026. A eliminação na repescagem das Eliminatórias Europeias ampliou uma sequência inédita de três Mundiais consecutivos sem a presença da seleção: 2018, 2022 e 2026.

O golpe definitivo aconteceu diante da Bósnia e Herzegovina. Fora de casa, a equipe italiana empatou no tempo regulamentar e acabou eliminada nos pênaltis. O resultado significou que o país ficará, no mínimo, 16 anos sem disputar uma edição da principal competição do futebol mundial.

O fracasso também teve impacto financeiro. A FIGC estima que a ausência no Mundial representou uma perda de até € 30 milhões (cerca de R$ 174,6 milhões), considerando receitas relacionadas a patrocínios, direitos e premiações da Fifa.

A crise esportiva é apontada por críticos como reflexo de problemas estruturais. Entre os fatores citados estão a dificuldade de renovação do elenco depois do título da Eurocopa de 2021, a presença crescente de jogadores estrangeiros nos principais clubes da Serie A e decisões consideradas equivocadas na condução da seleção.

Saídas de Gattuso e Buffon

A queda na repescagem também encerrou o trabalho de Gennaro Gattuso. O treinador havia assumido a seleção em junho de 2025, após a saída de Luciano Spalletti, mas não resistiu ao fracasso na tentativa de classificação para o Mundial.

Poucos dias depois da eliminação, a FIGC anunciou a rescisão do contrato em comum acordo. Gattuso ainda havia feito uma declaração antes do confronto decisivo, dizendo que iria “para bem longe” caso a Itália não conseguisse a vaga. A frase ganhou repercussão após o resultado negativo.

O treinador deixou o cargo em meio à pressão e afirmou, em sua despedida, que estava “com o coração pesado” e que a saída poderia facilitar o início de uma nova avaliação sobre os rumos da seleção.

A eliminação marcou ainda a saída de Gianluigi Buffon dos bastidores da Azzurra. O ex-goleiro ocupava o cargo de chefe de delegação desde 2023, após encerrar a carreira e assumir a função que havia sido exercida por Gianluca Vialli.

Buffon pediu demissão logo depois da eliminação para a Bósnia e Herzegovina. Sua saída representou o afastamento de uma das últimas grandes referências da geração campeã mundial em 2006.

O ex-goleiro entendia que era necessário abrir espaço para uma reformulação mais ampla da seleção, tanto na estrutura quanto na identidade do time.

Aposta em Maldini e Leonardo

Com a necessidade de reconstruir o departamento de futebol, a FIGC recorreu a dois nomes de peso da história do Milan.

Paolo Maldini foi anunciado em 11 de julho como diretor técnico e presidente do Club Italia. Ao seu lado, Leonardo chegou como consultor estratégico e assessor direto.

Leonardo e Maldini deixaram a seleção italiana. Foto: Divulgação/FIGC

A ideia era repetir a parceria que os dois tiveram no Milan e conceder autonomia à dupla para reorganizar a estrutura esportiva da seleção. A principal missão era encontrar um treinador capaz de liderar um novo ciclo e recolocar a Itália no caminho de uma futura Copa do Mundo.

Guardiola e Ancelotti entraram no radar

A primeira busca da nova direção foi por nomes de grande expressão internacional. Maldini revelou que Carlo Ancelotti foi procurado antes de Pep Guardiola.

O atual técnico da seleção brasileira, porém, decidiu seguir seu projeto no comando do Brasil. Guardiola também entrou no radar, mas as conversas esbarraram nas exigências financeiras do espanhol, que teria pedido valores considerados altos demais para a realidade da federação italiana.

Sem conseguir avançar com os dois principais alvos, Maldini e Leonardo passaram a analisar outras possibilidades para o cargo.

O acordo com Pirlo e o veto da federação

Foi nesse cenário que Andrea Pirlo apareceu como a escolha da dupla. O ex-meia, campeão mundial com a Itália em 2006, teria chegado a um acordo para assumir a seleção.

Prilo é descartado como treinador da Itália após ser apontado como favorito para o cargo. Foto: Luis Vieira/AP

A negociação, contudo, sofreu uma reviravolta. A cúpula da FIGC decidiu barrar o acerto após ganhar força a repercussão sobre o vínculo comercial de Pirlo com a Fon Fonbet, uma empresa de apostas russa da qual o ex-jogador era embaixador.

A decisão provocou uma crise interna. Maldini e Leonardo teriam entendido que a intervenção da presidência da federação representava uma quebra da autonomia prometida quando aceitaram os cargos.

Maldini e Leonardo deixam a FIGC

O impasse terminou com a saída dos dois dirigentes. Após uma reunião considerada tensa, Maldini e Leonardo colocaram os cargos à disposição e abandonaram o projeto apenas 16 dias depois do anúncio oficial.

A dupla teria ficado especialmente insatisfeita com o fato de uma decisão esportiva tomada por eles ter sido desautorizada pela direção da federação.

A saída abriu uma nova frente de incerteza na seleção, que perdeu justamente os responsáveis pela montagem do projeto de reconstrução e voltou a procurar um técnico em meio à instabilidade administrativa.

E agora?

Com as saídas de Maldini e Leonardo em meio à crise envolvendo a escolha do novo treinador, a FIGC passou a avaliar outros nomes para o comando da seleção. Thiago Motta ganhou força entre os cotados após as recusas de Carlo Ancelotti e Pep Guardiola e o veto à contratação de Andrea Pirlo. O ítalo-brasileiro está sem clube desde que deixou a Juventus, em março de 2025, e já havia se destacado pelo trabalho no Bologna.

Thiago Motta entra no radar da federação italiana. Foto: Reprodução/@juventusfc via X

Motta é visto como um nome que mantém algumas características do projeto pensado inicialmente pela direção esportiva, com preferência por um futebol ofensivo e de controle da posse de bola. Questionado sobre a possibilidade de o treinador assumir a Azzurra, o presidente da FIGC, Giovanni Malagò, evitou confirmar ou descartar a candidatura.

“Agora não posso dizer nem sim, nem não, a respeito de qualquer nome”. O dirigente afirmou ainda que a federação deve apresentar novidades sobre o novo técnico nesta terça-feira, 28.

Enquanto a FIGC tenta encontrar uma solução para a sucessão de Gennaro Gattuso, a seleção italiana segue sob o comando interino de Silvio Baldini. A equipe tem compromissos previstos para o fim de setembro, contra Bélgica e Turquia, pela Liga das Nações da Uefa, o que aumenta a pressão para que a entidade defina o novo treinador nas próximas semanas.

A federação também trabalha na recomposição de sua estrutura esportiva. Giorgio Chiellini, ex-zagueiro da seleção e atualmente ligado à Juventus, é apontado como um dos nomes avaliados para ocupar a função deixada por Maldini.

Assim, a Itália tenta reorganizar uma seleção que, em pouco tempo, passou da frustração de uma terceira ausência consecutiva em Copas para uma crise que atingiu também os bastidores da federação. A definição do novo técnico e da nova estrutura será o primeiro passo para tentar reconstruir a Azzurra.



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