Entre o tango e a maresia: um sul-americano sem pátria na Copa do Mundo


Que admirável, que trágica, que assustadora amnésia histórica. Em que sótão escuro os juízes do Twitter esconderam os seus livros de história escolar? O que foram os lordes e generais do Império Britânico senão os maiores e mais eficientes arquitetos do tráfico transatlântico de escravizados no planeta? O que foram os ingleses senão os saqueadores sistemáticos da Índia, da África e do Oriente Médio; os financiadores e articuladores da carnificina da Guerra do Paraguai — que dizimou a população masculina daquele povo irmão — e os manipuladores das dívidas soberanas da própria economia brasileira durante todo o século XIX?

Para exercitar o ódio infantil ao irmão da pampa, com quem dividimos a água dos mesmos rios e a dor da mesma exploração, o brasileiro não hesitou em vestir a peruca do imperador colonizador europeu. Esqueceram que, diante dos velhos impérios que nos saquearam, deveríamos ser uma só voz: América do Sul, pátria de sangue retinto, ouro roubado, matéria-prima pilhada e memória ferida. Mais uma vez, a bola, o suor, a alma e Messi nos trouxe dignidade. Resultado final: Argentina 2, Inglaterra 1. Dois gols germinados dos pés de Lionel Messi — por Malvinas, por Diego Maradona, pela dignidade ferida do futebol sul-americano.

O Brasil, incrédulo e humilhado na sua torcida imperial, dobrou a aposta no veneno: “Time corrupto”, “bandidos”, “Copa comprada”.

Toda a raça, a recusa em baixar a cabeça e o amor à camisa que o torcedor brasileiro desesperadamente sonhava em reencontrar no seu próprio país foram reduzidos a crime quando executados pelo vizinho.

E o circo da incoerência atingiu o seu ponto culminante na final contra a Espanha. OS mesmos brasileiros que ergueram a bandeira do antirracismo para apedrejar o povo argentino torceram entusiasticamente e vestiram a camisa da Espanha — a mesma Espanha cujas arquibancadas de estádios de futebol chamavam o brasileiro Vinícius Júnior e tantos outros de macaco e atiravam bananas no gramado; a mesma Espanha dos navios negreiros, das encomiendas e do genocídio dos povos originários de toda a América Latina.

Onde estava a coerência? Onde estava a sobriedade? Onde estava a dignidade antirracista? Não havia causa moral, nunca houve. Havia apenas ressentimento puro, cego e desordenado, pronto para abraçar qualquer colonizador de estimação, desde que ele derrotasse o irmão de continente.





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