Um vídeo curto de Lionel Messi falando com os companheiros antes da final da Copa do Mundo transformou-se no ponto de partida para uma série de teorias da conspiração sobre a derrota da Argentina para a Espanha. As imagens são verdadeiras, mas não mostram a conversa completa nem oferecem indício de que a decisão tenha sido combinada. Grande parte do conteúdo compartilhado nas redes acrescenta ao corte interpretações sem comprovação e informações falsas ou distorcidas.
O trecho começa quando os jogadores já estão deixando o vestiário. Messi pede tranquilidade algumas vezes e, diante de parte do grupo, diz: “Esqueçamos tudo. Vamos apenas jogar. Pensemos apenas em jogar, gente”. Enzo Fernández aparece com os olhos vermelhos e aparentemente emocionado. Dibu Martínez e os demais escutam o capitão sem falar durante os poucos segundos divulgados. O vídeo não permite concluir que o goleiro tenha permanecido em silêncio durante toda a preparação, que Enzo estivesse chorando ou o motivo de sua emoção.
Na sequência, Messi inicia o caminho em direção ao campo, seguido por Dibu e Cuti Romero. Ao perceber a câmera da transmissão, vira-se e passa a andar de costas, enquanto continua falando com os companheiros. O gesto foi descrito em algumas publicações como uma tentativa de “esconder” o conteúdo da conversa. A imagem mostra somente o capitão protegendo do registro uma fala reservada. Não há áudio desse momento nem qualquer elemento que permita saber o que foi dito.
O recorte passou a ser comparado principalmente com a preleção de Messi antes da final da Copa América de 2021, contra o Brasil. Naquela ocasião, o argentino fez um discurso longo e terminou afirmando que a equipe levaria o troféu para casa. A comparação, porém, reúne materiais de naturezas diferentes: a fala de 2021 foi registrada integralmente dentro do vestiário para um documentário; a de 2026 é um fragmento captado quando os jogadores já se preparavam para entrar em campo. Não se sabe o que foi dito antes do início do vídeo.
A frase “esqueçamos tudo” foi tratada por perfis nas redes como uma referência a uma suposta ameaça recebida pelo elenco. Segundo essa teoria, os argentinos teriam sido avisados de que não poderiam conquistar o bicampeonato. Nenhuma publicação apresentou documento, áudio, testemunho identificado ou qualquer outro elemento que sustente a alegação. Pessoas ligadas à seleção rejeitaram a versão e afirmaram que a equipe perdeu “do seu jeito, deixando tudo”.
Outra versão difundida pelo jornalista argentino Pablo Carrozza afirma que Gianni Infantino teria acertado com a Uefa a conquista de uma seleção europeia em troca de apoio à sua permanência na presidência da Fifa. A acusação também foi apresentada sem provas ou indicação de fontes. O desgaste recente entre Uefa, Conmebol e AFA, agravado pela frustrada realização da Finalíssima, passou a ser utilizado como contexto para uma negociação cuja existência nunca foi demonstrada.
O árbitro esloveno Slavko Vincic também foi incluído nas teorias. Publicações afirmam que ele teria sido preso ou condenado por envolvimento com tráfico de pessoas e, por isso, estaria sujeito a chantagens. A informação é enganosa. Vincic estava em um local alvo de uma operação policial contra uma rede de prostituição, drogas e armas na Bósnia, em 2020. Foi levado para prestar depoimento como testemunha, liberado sem acusação e não respondeu a processo pelo caso.
Decisões de Lionel Scaloni e lances da partida completam a narrativa construída depois da derrota: a ausência de Lautaro Martínez, a utilização de jogadores com problemas físicos, as substituições, a expulsão de Enzo e uma desatenção de Giuliano Simeone no início da jogada do gol espanhol. São episódios reais e discutíveis do ponto de vista esportivo, mas nenhum deles comprova interferência externa. Também não há uma sequência de decisões de arbitragem capaz de demonstrar favorecimento deliberado à Espanha.
A atuação argentina, muito abaixo do que a equipe apresentara durante a Copa, ajudou a dar alcance às suspeitas. A seleção que chegou à final com 19 gols não finalizou durante os 90 minutos e sofreu 20 tentativas espanholas ao longo da partida. A diferença entre a expectativa e o desempenho abriu espaço para explicações externas, embora o próprio jogo ofereça uma mais direta: a Espanha controlou a bola, o campo e o ritmo, enquanto a Argentina não conseguiu levar Messi para as regiões em que ele havia decidido partidas anteriores.
Também há explicações possíveis para o pedido do capitão. Durante a semana, jogadores e integrantes da comissão técnica espanhola reclamaram da suposta permissividade dos árbitros com a Argentina. Depois da final, Otamendi acusou Rodri e Laporte de terem tentado condicionar a arbitragem. Messi poderia estar pedindo aos companheiros que esquecessem a discussão, a pressão pelo bicampeonato ou o peso emocional da decisão. O vídeo, isoladamente, não permite confirmar nenhuma dessas hipóteses.
Uma interpretação menos fantasiosa, compartilhada inclusive por jornalistas argentinos, é a de que Messi teria comunicado aos companheiros, ainda no vestiário, que aquela seria sua última partida em Copas do Mundo ou até sua despedida da seleção. A hipótese passou a ser associada ao tom contido do capitão, à aparente emoção de Enzo Fernández e ao ambiente silencioso registrado na saída para o campo.
Não há, porém, confirmação de que esse discurso tenha existido. Nenhum jogador ou integrante da comissão técnica relatou uma despedida antes da final, e o próprio Messi ainda não anunciou uma decisão sobre seu futuro na seleção. É possível que o grupo estivesse mobilizado pela perspectiva de disputar a provável última Copa do capitão, mas o vídeo não permite concluir que ele tenha feito qualquer anúncio no vestiário nem que a emoção dos jogadores estivesse relacionada a isso.
O que se pode afirmar é mais simples: Messi pediu calma e concentração em um trecho curto da saída do vestiário. Todo o restante foi acrescentado depois da derrota. Até agora, não surgiu qualquer prova de ameaça aos jogadores, acordo entre dirigentes, pressão sobre o árbitro ou resultado combinado. O corte ajuda a entender como nasceu a teoria da conspiração, mas não oferece evidência para sustentá-la.
A versão mais extravagante chegou à televisão argentina. No canal A24, o jornalista Eduardo Feinmann afirmou que circulava antes da final o rumor de que agentes do FBI estariam no estádio para prender o presidente da AFA, Claudio “Chiqui” Tapia, e poderiam entrar no vestiário da seleção. Não há confirmação da presença de agentes com esse objetivo, de uma ordem de prisão contra Tapia ou de qualquer relação entre o dirigente e a fala de Messi. O boato mistura investigações financeiras envolvendo a AFA com uma suposta operação durante a final para a qual nenhuma prova foi apresentada.
Outro vídeo incorporado à narrativa mostra Messi errando vários chutes de fora da área durante o aquecimento, mesmo com o gol vazio. As imagens passaram a ser apresentadas como sinal de que o capitão estava desconcentrado ou abalado por algo ocorrido antes da partida. O recorte é verdadeiro, mas registra somente alguns arremates de uma atividade mais longa. Não permite saber quantas tentativas Messi acertou fora do trecho selecionado nem relacionar os erros a uma despedida, ameaça ou acontecimento no vestiário.
A especulação ganhou até uma hashtag no X. Publicações com #AlgoPaso, em tradução livre “alguma coisa aconteceu”, passaram a reunir o discurso de Messi, as imagens do aquecimento, a emoção atribuída a Enzo, as escolhas de Scaloni e o rumor sobre Tapia. A expressão, porém, funciona como um guarda-chuva para versões diferentes e por vezes contraditórias, sem acrescentar provas a nenhuma delas. A repetição da hashtag ajuda a dar aparência de revelação coletiva a interpretações construídas retrospectivamente depois da derrota.











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