Era julho de 2010 e eu morava em Madri. Shakira, que começava seu namoro com Gerard Piqué, ganhava o mundo com seu “Waka Waka”, e o polvo Paul cravava a Espanha na final daquela Copa. Eu, que nunca havia trabalhado com Esporte na minha vida, fui escalada para reforçar a editoria, apenas por ser brasileira, claro. Sem muito repertório futebolístico, escrevi sobre como os brasileiros tinham a tradição de pintar as ruas por aqui e expliquei o meme “Cala a boca, Galvão”, a matéria mais viralizada no Twitter. Todos me respeitavam e não ousavam desejar uma final contra a seleção dos ídolos Robinho e Daniel Alves, craque do Barcelona, aliás. Os tempos eram outros. Na época, a memória de 2002 ainda estava fresquinha, e o Brasil era considerado um dos favoritos ao título. Até que nossa seleção caiu para a Holanda.
Os espanhóis gostam muito de futebol, como todo mundo sabe. Mas a seleção espanhola, que começou aquela Copa perdendo, nunca tinha chegado tão longe. 2010, no entanto, parecia ser diferente, como previa Paul. A Fúria, como era chamada antes, tinha enfim vencido a maldição das oitavas, derrotando Portugal, de Cristiano Ronaldo, então com 25 anos. Era agora a Roja, o time do tiki-taka, de Casillas, Piqué, Xabi Alonso, Iniesta, jogadores que, em sua maioria, brilhavam no Real Madrid ou no Barcelona. Eu comprei a camisa do David Villa. Não me sentia traindo o Brasil, nem de longe. A partir daquele dia, vesti a Roja com convicção.
No dia da final, eu estava de plantão. Era minha primeira vez trabalhando em uma final de Copa. O clima era tenso, mas de muita esperança: a certa altura, uma caixa de cerveja e muitas pizzas chegaram à redação. Lembro que comentei com um amigo que isso nunca aconteceria em um jornal do Brasil, ao que ele respondeu: “Vocês estão na final Copa sim, Copa não. Essa é nossa primeira vez”. Era verdade: eu tinha 29 anos e, desde 1994, tinha visto o Brasil chegar a três finais.
Não me lembro muito bem do gol do Iniesta. Eram aquelas coberturas em que a gente mal tem tempo para respirar, e em uma época em que a tecnologia ajudava muito pouco. Mas lembro de pessoas se abraçando efusivamente, dos blocos caindo no chão, de muitos telefones (fixos) tocando sem parar. Eu torcia pela Espanha, claro, mas não era a minha festa. Era como se eu observasse aquela euforia de fora, feliz, mas com um pouquinho de inveja. Saí da redação já de madrugada e fui tentar encontrar alguns amigos que ainda bebiam e celebravam. O clima na rua era de uma Quarta-Feira de Cinzas: copos e pessoas bêbadas jogados pelas calçadas.
No dia seguinte, de folga, fui para a Gran Vía, a principal avenida de Madri, esperar a seleção, que havia desembarcado horas antes no Aeroporto de Barajas. Tomada por aquela multidão, vivi enfim a festa, como tinha que ser. Torcedores subiam em guindastes, cantando a plenos pulmões: “Yo soy español, español, español”. Com minha camisa do Villa, eu não era, mas era um pouquinho.
Hoje, 16 anos depois, muita coisa mudou. O Brasil já não é mais a seleção que todos temiam. O hexa tão esperado nunca veio. A Roja, que parecia pronta para inaugurar uma dinastia após aquele título, também decepcionou nas Copas seguintes. Ainda assim, voltou a disputar uma final de Mundial. E antes de nós.
Marina Gonçalves é Editora-assistente de Mundo










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