Final entre Espanha e Argentina opõe ascensão meteórica de Yamal e brilhantismo renovado de Messi


Na literatura e nas artes narrativas em geral, um dos mais famosos recursos de roteiro é o chamado “idade improvável”, quando um personagem muito jovem surpreende outros mais experientes pelo domínio em alguma função. Geralmente, representado por um diálogo clichê como “você não é muito novo para isso?”. O futebol e a Copa do Mundo, em especial, são terrenos férteis para grandes narrativas que poderiam ter saído de livros, e quando a Argentina de Lionel Messi e a Espanha de Lamine Yamal se enfrentarem hoje, na grande final do torneio, no MetLife Stadium (Nova Jersey), às 16h, Messi poderia, com toda a razão, perguntar: “você não é muito novo para ser um finalista de Copa do Mundo, Yamal?”.

Com toda a razão, pois, por mais que hoje o camisa 10 argentino busque seu segundo título mundial — que o cimentaria ainda mais no Olimpo do futebol —, esse cenário parecia completamente impensável ao longo de boa parte de sua carreira. Enquanto Yamal completou 19 anos na última segunda-feira, Messi, hoje com 39, só chegaria a uma decisão de Copa pela primeira vez aos 27. Levantar a taça, então, só ocorreu aos 35, quando já nem parecia mais possível.

Não que o argentino não tenha sido um dos melhores jogadores do mundo desde muito jovem. Na verdade, é nesse ponto que as histórias deles se confundem. A cidade e o clube Barcelona mudaram os seus caminhos. E o vencedor de hoje entortará novamente essa linha do destino.

Messi, o garoto de Rosário que lutou contra problemas de crescimento e só engrenou de vez quando foi à base do Barcelona, a famosa La Masia, jogou nos mesmos campos em que Yamal, filho de um casal de imigrantes de Marrocos e Guiné Equatorial, começou a mudar a vida de sua família. A história do argentino pelo clube é conhecida: 778 jogos, 672 gols e mais de 30 títulos, incluindo quatro Champions League. A seleção, porém, sempre foi o maior desafio.

Derrotas e eliminações dolorosas em Copas Américas e Mundiais ao longo das duas últimas décadas sempre o afastaram da idolatria e da identificação em seu país, ligado quase fisiologicamente a Diego Maradona. Em 2016, chegou a esboçar uma aposentadoria da seleção após um vice-campeonato da Copa América.

Os deuses do futebol — e o técnico Lionel Scaloni — tinham outros planos, e Messi, já mais velho, encontrou uma albiceleste à feição para que pudesse exercer suas melhores características no ciclo que terminou com títulos da Copa América de 2021, da Finalíssima de 2022 e da Copa de 2022. Em três anos, seu rosto já estava estampado em bandeirões ao lado do de Diego. Mais quatro anos e um inesperado segundo grande Mundial depois, as comparações, que podem crescer com o possível tetra argentino, já são com Pelé.

— Messi é um amante do jogo e vê-lo ficar emocionado a essa altura da carreira é espetacular — comentou Scaloni sobre o choro do camisa 10 após a vitória sobre a Suíça, nas quartas de final.

Esse é o poder da Copa do Mundo e a primeira grande oportunidade da carreira de Yamal. Mesmo que não esteja fazendo um grande torneio e às voltas com questões físicas, conquistar um título mundial pelo seu país tiraria, rapidamente, uma pedra que sempre entra no caminho dos gigantes do futebol que defendem grandes seleções.

Como Mbappé conseguiu na França, quando foi campeão do mundo aos 19 anos, em 2018, Lamine pode se tornar uma joia lapidada sob uma pressão bem menor, ainda que no mesmo gigante Barcelona que Messi ajudou a entranhar no imaginário coletivo do torcedor. Um privilégio que só a bola nas redes de Nova Jersey pode garantir.

— Messi é irrepetível, um exemplo para os jogadores mais jovens. Na idade dele, faz Copa do Mundo espetacular. Mas a melhor maneira de ajudarmos Lamine é apoiá-lo para que ele seja o Lamine que conhecemos, porque ele também tem um futuro espetacular — disse o técnico espanhol, Luis de La Fuente, ontem.

O caminho, até aqui, dá a entender que tudo é possível: aos 19 anos, Yamal já é campeão de Euro, tricampeão espanhol e postulante à Bola de Ouro. Fazer parte de um possível bicampeonato mundial da Fúria com esta idade abriria um caminho que nem Messi conseguiu. E com uma personalidade forte, aparentemente capaz de sustentar os altos e baixos do futebol. A tal pergunta clichê da literatura pode começar a parecer boba.



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *