Futebol italiano perde espaço na elite europeia em meio a crise financeira e estrutural – Times Brasil


A terceira ausência consecutiva da Itália em uma Copa do Mundo é o reflexo mais recente de um declínio que também se manifesta nas contas do futebol do país. Derrotada nas Eliminatórias para o Mundial de 2026, a seleção deixou de disputar as Copas de 2018, 2022 e 2026.

A ausência neste ano representa, de acordo com a Federação Italiana de Futebol (FIGC), uma perda de até € 30 milhões (R$ 175 milhões) em patrocínios, direitos e premiações.

O impacto é pequeno diante do tamanho da crise. Entre 2018 e 2026, o futebol italiano perdeu, em média, mais de € 730 milhões por ano, segundo a federação local.

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€ 3,9 bilhões em perdas na Serie A

A deterioração também aparece nos balanços dos clubes. Na temporada 2024/25, 13 dos 20 times da Serie A, ou 65%, registraram prejuízo. O déficit líquido agregado chegou a € 349 milhões (R$ 2,1 bilhões).

Desde 2016/17, as perdas acumuladas dos clubes da primeira divisão italiana somam aproximadamente € 3,9 bilhões (R$ 23,6 bilhões), com déficits recorrentes ao longo das temporadas.

O cenário é distante do período em que a Serie A era considerada a principal liga europeia. Entre as décadas de 1980 e 2000, o campeonato reunia grandes estrelas internacionais e jogadores italianos que estavam entre os principais nomes do futebol mundial.

A perda de competitividade esportiva veio acompanhada de menor crescimento comercial e de dificuldades para acompanhar a modernização de outros mercados.

Estádios antigos limitam receitas e ameaçam Euro 2032

A infraestrutura é um dos principais entraves para a recuperação financeira da Serie A. Grande parte das arenas italianas é antiga e oferece menos possibilidades de exploração comercial do que os equipamentos modernos de outros mercados europeus.

Os clubes italianos arrecadam cerca de 40% menos em dias de jogos do que os da Premier League, além de terem menor capacidade para gerar receitas com restaurantes, lojas, eventos, hospitalidade e espaços corporativos.

A situação chegou a ser criticada publicamente por Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, que em maio de 2025 classificou os estádios italianos como “uma vergonha” e afirmou que a Itália tinha, de longe, a pior infraestrutura esportiva da Europa, atrás inclusive de países como a Albânia.

O problema ganhou prazo para ser resolvido. A Itália sediará, ao lado da Turquia, a Eurocopa de 2032 e precisa modernizar sua estrutura para receber o torneio. Das dez cidades e estádios apresentados pelo país como possíveis sedes, apenas o Allianz Stadium, da Juventus, foi considerado adequado aos padrões exigidos no momento da avaliação.

A necessidade de investimentos ocorre justamente em um período de forte pressão financeira. Sem arenas capazes de gerar mais receita ao longo do ano, a Serie A encontra dificuldades para reduzir a distância econômica em relação às principais ligas europeias.

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Estrangeiros dominam minutos em campo

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A perda de protagonismo também aparece na utilização de jogadores italianos. Atletas estrangeiros foram responsáveis por 67,9% dos minutos disputados na Serie A, o sexto maior índice entre as principais ligas europeias.

Na Espanha, a participação é de 39,6%; na França, 48,3%.

O campeonato italiano também tem média de idade de aproximadamente 27 anos, enquanto o país enfrenta dificuldades para transformar jogadores formados localmente em protagonistas dos principais clubes.

A situação contrasta com o período em que os grandes times italianos tinham entre seus principais jogadores nomes que também eram referências da seleção.

A Eurocopa de 2021 interrompeu temporariamente a sequência de resultados ruins, mas não alterou esse cenário estrutural. Jorginho, um dos protagonistas daquela conquista e atualmente no Flamengo, nasceu no Brasil e foi naturalizado italiano. Nos últimos anos, outros naturalizados também tiveram papel relevante na seleção, como o argentino Mateo Retegui e os brasileiros Rafael Tolói e Emerson Palmieri.

Falências mostram fragilidade financeira

O desequilíbrio não se limita aos resultados anuais. Clubes tradicionais italianos passaram por falências, perda de registro profissional ou processos de refundação.

Desde a década de 1990, Bologna, Fiorentina, Napoli, Salernitana, Torino, Venezia e Verona, entre outros, enfrentaram processos dessa natureza. O Parma também entrou em falência em 2015.

O Catania teve a falência decretada após acumular uma dívida de aproximadamente € 56 milhões (R$ 360 milhões). O Chievo Verona, por sua vez, deixou o futebol profissional em 2021 por problemas fiscais.

Os episódios mostram que a fragilidade financeira atravessa diferentes níveis do futebol italiano e não está restrita às maiores equipes.

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Instabilidade na gestão da seleção

A crise esportiva foi acompanhada por turbulência na Federação Italiana de Futebol. Após a renúncia do presidente da entidade, o departamento técnico foi reformulado com as contratações de Paolo Maldini e Leonardo.

A dupla permaneceu apenas 16 dias nos cargos. O rompimento ocorreu após a federação recuar de um acordo para contratar Andrea Pirlo como treinador, em meio a um impasse relacionado ao vínculo comercial do ex-jogador com uma empresa de apostas russa.

Antes da contratação de Roberto Mancini, a FIGC também buscou nomes de maior peso internacional. Pep Guardiola esteve entre os treinadores avaliados e chegou a discutir possibilidades para a equipe italiana. O acordo não avançou. Além do desejo do espanhol de descansar após uma década no Manchester City, sua remuneração poderia superar o teto estabelecido pela federação.

A sequência de decisões e mudanças internas expôs a dificuldade da entidade em estabelecer uma estratégia de longo prazo para a seleção.

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