Lance! Tático: A França só precisa de cinco minutinhos


Marrocos foi competitivo, mas bastou um erro para a França mostrar por que é favorita

A Copa do Mundo costuma reforçar uma velha máxima: contra as grandes seleções, qualquer erro custa caro. Contra esta França, talvez ela nunca tenha feito tanto sentido. A equipe de Didier Deschamps não precisa dominar uma partida durante noventa minutos para vencer. Não precisa empilhar finalizações nem transformar posse de bola em pressão constante. Ela joga para controlar o jogo, tenta impor seu ritmo desde o início e, quando encontra dificuldades, mantém a tranquilidade porque sabe que basta uma pequena sequência de erros do adversário para decidir uma classificação.

Foi exatamente isso que aconteceu diante de Marrocos, nesta quinta-feira (9), em Boston. Durante boa parte do primeiro tempo, a seleção africana conseguiu fazer aquilo que poucas equipes haviam conseguido nesta Copa: limitar a criatividade francesa. Mbappé encontrava pouco espaço para acelerar, Michael Olise, principal organizador do setor ofensivo, recebia sempre pressionado entre as linhas e a circulação de bola da França era mais lenta do que o habitual. O favoritismo francês existia, mas não aparecia em forma de domínio absoluto — o Marrocos, aliás, teve mais posse de bola no primeiro tempo.

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Mesmo assim, havia uma sensação constante de perigo. A França não criava muito, mas parecia esperar apenas o primeiro erro do adversário. E ele quase apareceu ainda no primeiro tempo: um domínio errado de Hakimi originou a jogada que terminou no pênalti desperdiçado por Mbappé, aos 27 minutos. A cobrança não entrou, mas o lance serviu como aviso do que aconteceria pouco depois.

Marrocos deixou de ser o time que encantou a Copa

O aspecto mais interessante da partida talvez não tenha sido a atuação da França, mas a mudança de comportamento de Marrocos. Durante toda a Copa do Mundo, a equipe de Mohamed Ouahbi construiu sua campanha defendendo com muita organização, mas sem abrir mão de contra-atacar. Foi assim contra o Brasil. Foi assim contra a Holanda. Sempre que recuperava a bola, buscava velocidade pelos lados, aproveitava a força de Hakimi e encontrava profundidade para incomodar adversários teoricamente superiores.

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Contra a França, esse plano praticamente desapareceu.

A ausência de Ismael Saibari, um dos principais responsáveis por dar velocidade e profundidade ao ataque marroquino, pesou na estratégia. Sem essa referência e diante de um quarteto ofensivo formado por Mbappé, Dembélé, Doué e Olise, Marrocos preferiu proteger a própria área. As linhas ficaram ainda mais baixas, o número de jogadores atrás da linha da bola aumentou e os contra-ataques deixaram de ser prioridade.

A escolha fazia sentido. Afinal, oferecer espaço para uma equipe com esse nível de talento individual seria ainda mais perigoso.

O problema é que defender tão perto da própria área exige um jogo praticamente perfeito. Cada domínio precisa ser limpo. Cada cobertura precisa acontecer no tempo certo. Cada rebote precisa ser vencido. Quando você passa noventa minutos exposto a esse tipo de pressão, a margem de erro praticamente desaparece.

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E contra a França, um único erro costuma ser suficiente.

Olise comemora gol da França com Mbappé e Dembélé. Os três estão decidindo na Copa do Mundo (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

O 4-2-4 da França funciona porque o meio-campo sustenta o sistema tático

Muito se fala sobre o desenho ofensivo da França. Ver Mbappé, Dembélé, Doué e Olise ocupando os últimos metros do campo faz muita gente concluir que o segredo está simplesmente em atacar com quatro jogadores.

Não está.

O verdadeiro equilíbrio dessa equipe nasce alguns metros atrás.

Enquanto o quarteto ofensivo permanece preparado para acelerar qualquer transição, Manu Koné e Adrien Rabiot fazem um trabalho que quase nunca aparece nos melhores momentos. São eles que encurtam espaços, vencem disputas no meio-campo, dão cobertura aos laterais e permitem que Olise tenha liberdade para organizar as jogadas sem comprometer o equilíbrio defensivo.

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É justamente esse trabalho invisível que faz o 4-2-4 francês funcionar.

O problema nunca foi o sistema.

O problema sempre foi imaginar que bastava posicionar quatro atacantes para reproduzir o que a França faz. O desenho é apenas a consequência de um meio-campo extremamente disciplinado, capaz de sustentar uma equipe que concentra muito talento do meio para frente.

Eles só precisam de cinco minutinhos

Existe uma diferença que costuma separar boas seleções das verdadeiras candidatas ao título. As boas equipes precisam construir muitas oportunidades para vencer. A França, não.

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Ela precisa apenas esperar o momento em que o adversário deixa de ser perfeito.

Marrocos fez uma partida competitiva. Durante boa parte do jogo, conseguiu reduzir espaços, diminuir a velocidade dos ataques franceses e impedir que Mbappé encontrasse o campo aberto que tanto gosta. Mas, na etapa final, bastaram alguns minutos de desorganização: aos 15 do segundo tempo, Mbappé bateu colocado para abrir o placar. Cinco minutos depois, o próprio Mbappé serviu Dembélé, que ampliou para 2 a 0. Foi exatamente isso, cinco minutos, que separaram um jogo equilibrado de uma vaga tranquila na semifinal.

Talvez essa seja a principal qualidade da equipe de Didier Deschamps.

Ela não obriga o adversário a jogar mal durante toda a partida. Obriga o adversário a jogar perfeitamente durante noventa minutos.

Porque, quando a concentração diminui por apenas alguns instantes, a punição costuma ser imediata.
Marrocos se despede do Mundial como a primeira seleção africana a alcançar quartas de final em duas edições seguidas, um feito histórico que a derrota de hoje não apaga. E França segue, esperando ansiosamente por 5 minutos de descuido do adversário.

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