Nico Williams dá medalha à mãe que cruzou o Saara – 21/07/2026 – Joanna Moura


A Copa do Mundo de 2026 me trouxe mais raiva do que alegrias. Não sou particularmente ligada ao futebol e confesso não entender muito bem o fervor com que algumas pessoas torcem para um ou outro time, se apegam a um escudo, a uma camisa.

A final entre Espanha e Argentina foi particularmente cruel para o meu nível de cortisol. Ver os jogadores argentinos distribuírem empurrões, puxões e carrinhos maldosos contando com a complacência do árbitro fez meu sangue subir.

Me vi gritando xingamentos em frente ao aparelho de televisão e torcendo fervorosamente para a seleção espanhola, gritando com entusiasmo nomes de jogadores que, imediatamente antes do jogo, eu não sabia que existiam.

A Espanha ganhou e eu celebrei a vitória do bem sobre o mal com a ingenuidade que só a superficialidade desses momentos é capaz de proporcionar. Mas fui arrancada do meu êxtase justiceiro ao ver aquele time que jogou tão bonito, que não cedeu às provocações do adversário, receber a medalha e em seguida ser congratulado por nada mais nada menos do que Donald Trump, talvez um dos “jogadores” mais sujos, mais inescrupulosos, mais arrogantes que o mundo já viu.

O sangue, que havia finalmente voltado à temperatura normal no apito final do juiz, voltou a subir ao ver aquele homem asqueroso clamar para si o protagonismo daquela vitória. Me contentei em buscar atentamente qualquer sinal de desprezo no rosto de cada jogador que recebia os cumprimentos do presidente dos EUA.

Até que chegou a vez de Nico Williams, um dos nomes que até 120 minutos antes eu desconhecia. Nico recebeu a medalha de forma polida, mas o que fez em seguida ficará marcado para mim como a cena mais bonita e simbólica desta Copa.

Com o ouro no peito, Nico, campeão do mundo, deixou a comemoração com os colegas e andou em direção à arquibancada. Ao avistar sua mãe, encostada na grade que a separava do campo, entregou a medalha a ela. E foi assim que uma nova personagem me foi apresentada nesta Copa do Mundo: María Comfort Arthuer.

Quase 30 anos antes, ela e o marido deixaram Gana em direção à Espanha em busca de uma vida melhor. Cruzaram cerca de quatro mil quilômetros a pé pelo deserto do Saara, o maior deserto quente do mundo.

María caminhou descalça, enfrentou a fome, a sede e traficantes de pessoas, viu companheiros morrerem pelo caminho e ainda precisou escalar a cerca que separa o Marrocos de Melilla, enclave espanhol no norte da África. Ao chegar, foi detida e quase deportada. Só depois descobriu que estava grávida de Iñaki, irmão mais velho de Nico e, hoje, também jogador de futebol.

Como não amar, portanto, a ironia daquela sequência de imagens? Poucos minutos antes, Donald Trump, o misógino anti-imigração, participava da entrega das medalhas. Agora, uma delas estava no peito de uma mulher negra, africana e imigrante, que atravessou um deserto e pulou uma cerca para chegar à Europa, tudo isso trazendo no ventre um bebê que nasceu já em outro país.

Só de lembrar, a cena me leva às lágrimas. Mais do que o atleta que superou todos os outros, Nico Williams venceu à probabilidade de seu destino. E, mais bonito do que a vitória em si, recusou o papel do homem que venceu sozinho, dividindo o protagonismo e reconhecendo a mulher com quem aquela vitória havia realmente começado.


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