‘O estranho caso do jogo que estava 1 a 0 sem ter começado’: colunistas do GLOBO analisam classificação da Inglaterra para semifinal 


A Inglaterra precisou de uma virada e da prorrogação para derrotar a Noruega por 2 a 1 e avançar à semifinal da Copa do Mundo. Num confronto marcado pela aversão ao risco, pela lentidão das duas equipes e pela pouca presença ofensiva inglesa, a seleção de Thomas Tuchel saiu atrás, empatou ainda no primeiro tempo e encontrou no oportunismo de Jude Bellingham o gol da classificação. Durante a partida, colunistas do GLOBO e o repórter Vitor Seta analisaram o plano conservador dos ingleses, as escolhas norueguesas e as inevitáveis comparações com a eliminação do Brasil.

Carlos Eduardo Mansur destacou antes do início da partida a mudança feita pela Noruega no lado esquerdo do ataque. Schjelderup entrou no lugar de Nusa, numa alteração que poderia oferecer mais trabalho defensivo justamente no setor em que a Inglaterra escalou um zagueiro improvisado na lateral direita. A principal dúvida, porém, era sobre quem assumiria a iniciativa.

— A grande expectativa é se os ingleses permitirão que os noruegueses fiquem com a bola para tentar os contragolpes — observou Mansur.

Melhores momentos Noruega x Inglaterra

A resposta apareceu nos primeiros minutos. A Inglaterra ficou com a posse, mas de maneira predominantemente defensiva, acumulando jogadores na saída de bola e avançando apenas quando encontrava uma opção considerada totalmente segura. A tentativa de O’Reilly, aos 23 minutos, foi a primeira interrupção de um longo período sem ações ofensivas relevantes.

— A forma encontrada pela Inglaterra de Tuchel para se proteger dos lançamentos para Haaland é oposta à brasileira: ela fica com a bola. Mas é uma posse defensiva, com cinco homens participando da construção, dos primeiros passes, e pouquíssimos jogadores dentro do bloco defensivo norueguês. A ideia é conservar a bola até encontrar uma linha de passe absolutamente segura, minimizando riscos. Há espaço para jogar com inversões, especialmente para o lado esquerdo, onde Sorloth não faz tão bem a ajuda defensiva ao lateral Ryerson — analisou Mansur.

Vitor Seta relacionou a dificuldade da Inglaterra com uma escolha feita por Carlo Ancelotti na derrota brasileira para a mesma Noruega. Para o repórter, a presença de jogadores capazes de dar amplitude pelos dois lados permitiu aos ingleses ao menos encontrar caminhos que desapareceram para o Brasil depois da substituição de Rayan.

— Retroativamente, o jogo mostra que a saída de Rayan foi um dos maiores erros de Ancelotti na fatídica eliminação do Brasil. A Inglaterra só consegue encontrar vida no jogo porque tem dois pulmões em dia para gerar amplitude simultaneamente dos dois lados. Se Madueke não vem sendo um primor técnico, O’Reilly consegue encontrar os espaços na última linha e impedir a Noruega de cancelar o jogo no próprio terço — afirmou Seta.

O gol de Schjelderup, depois de um desarme em Harry Kane, surgiu justamente quando nenhuma das equipes parecia disposta a abandonar a cautela. Para Mansur, o placar foi inaugurado antes que a partida propriamente começasse.

— É o estranho caso do jogo que está 1 a 0 sem ter começado. O gol da Noruega sai de uma jogada totalmente contra o roteiro da partida. Ninguém se dispunha a pressionar, ninguém arriscava, as posses eram lentas e cuidadosas. Até que um desarme em Harry Kane resultou no chute de Schjelderup para o gol da Noruega após 35 minutos esquecíveis desta quarta de final — escreveu.

A Inglaterra respondeu pouco depois. Curiosamente, o empate nasceu de um tiro de meta longo da Noruega, num momento em que a equipe inglesa começava a correr riscos maiores e já havia permitido um contra-ataque perigoso.

— Um tiro de meta norueguês com um chute longo originou o empate em momento importantíssimo para a Inglaterra. Afinal, a primeira tentativa inglesa de efetivamente pressionar terminou num contra-ataque quase fatal. O jogo ameaçava fugir ao controle — avaliou Mansur.

Na prorrogação, a classificação inglesa passou pelas mãos — e pelo erro — de Nyland. O goleiro que havia se destacado contra o Brasil rebateu para o centro da área uma finalização de Morgan Rogers, e Bellingham aproveitou a sobra. Marcelo Barreto ressaltou que a atuação inglesa não eliminou a impressão de que a seleção brasileira poderia ter avançado mais no Mundial.

— Difícil escapar da sensação de que o Brasil poderia ter ido mais longe na Copa. A seleção pressionou mais a Noruega do que a Inglaterra fez hoje. Mas, como se diz no futebol, o “se” não entra em campo. E, logo no começo da prorrogação, Nyland, que virou Neuer contra o ataque brasileiro, bateu roupa para Bellingham desempatar — analisou Barreto.

Gustavo Poli também destacou a ironia do lance. Instantes antes da falha, Nyland havia feito uma boa defesa. Na sequência, entregou a bola justamente ao jogador que cresce como um dos grandes nomes da Copa.

— Futebol é cruel. Nyland tinha acabado de fazer uma ótima defesa. Bateu roupa no chute de longe de Morgan Rogers, e a bola sobrou para ele, Jude Bellingham, que se candidata cada vez mais ao posto de craque do torneio — afirmou Poli.

Mansur concluiu que a forma do gol combinou com o cenário de uma partida em que os dois times procuraram, acima de tudo, reduzir os riscos. O colunista também fez uma ressalva a uma possível comparação favorável à Inglaterra em relação ao Brasil.

— Uma bola parada, um rebote, num jogo entre dois times decididos a reduzir riscos: natural que o gol que pode classificar a Inglaterra saísse assim. Se a classificação for confirmada, provavelmente surgirá a narrativa de que os ingleses enfrentaram a Noruega melhor do que o Brasil. Não foi o que aconteceu — concluiu.



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