UEFA boicote Copa do Mundo: como a FIFA quase privatizou o maior torneio do planeta


Uma Copa do Mundo sem Espanha, França, Inglaterra e Alemanha não seria a Copa do Mundo. A UEFA sabia disso — e usou esse argumento para fazer a FIFA recuar em menos de 24 horasFoto: Imagem gerada por IA/ND Mais

A Copa do Mundo de 2026 terminou há menos de duas semanas. A tinta das celebrações da Espanha ainda não secou.

E o futebol quase entrou na crise mais grave de sua história — causada não por um escândalo de arbitragem, não por doping, não por violência nas torcidas, mas por uma proposta financeira que revelou tudo sobre onde o esporte mais popular do planeta está indo.

O plano que quase privatizou a Copa do Mundo

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, propôs criar uma empresa chamada FIFA Forward Enterprise (FFE) que assumiria o controle de todas as operações comerciais e de eventos da entidade — incluindo a Copa do Mundo. A ideia era vender até 20% de participação minoritária nessa empresa a investidores privados, numa avaliação de US$ 20 bilhões, arrecadando US$ 4,2 bilhões.

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Em linguagem simples: Infantino queria pegar a Copa do Mundo — o maior evento esportivo do planeta, assistido por mais de 1,5 bilhão de pessoas — e vender um quinto dela para fundos de investimento.

FIFA Forward Enterprise e o irmão do genro de Trump

Aqui está o detalhe que os portais brasileiros não estão explorando. O investidor líder proposto seria a Thrive Eternal, empresa fundada por Joshua Kushner — irmão de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. Os banqueiros do JPMorgan trabalhariam com a FIFA para trazer investidores externos.

Infantino já havia visitado Trump na Casa Branca. O grupo de investidores proposto estava diretamente ligado à família do presidente americano. E a Copa do Mundo de 2026 havia sido realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, num acordo que Trump celebrou como uma vitória sua.

A coincidência de interesses era, no mínimo, notável.

US$ 20 milhões para cada federação: a oferta que tinha prazo

Para convencer as 211 federações membros da FIFA a aprovar o plano, Infantino ofereceu US$ 20 milhões a cada uma — com prazo até 19 de setembro para aceitar. Era, efetivamente, uma oferta de US$ 4,2 bilhões ao esporte mundial disfarçada de consulta democrática: cada federação receberia sua fatia se aprovasse a venda.

A estratégia funcionou em outras votações da FIFA. Federações menores, com orçamentos limitados, historicamente apoiam propostas que vêm acompanhadas de cheques. Infantino provavelmente calculou que teria os votos.

Calculou errado.

A Europa disse não — e disse em 55 vozes ao mesmo tempo

Na quinta-feira, a UEFA convocou uma reunião de emergência que durou pouco menos de duas horas.

Ao final, todos os 55 membros votaram unanimemente para boicotar todas as competições da FIFA — incluindo a Copa do Mundo — enquanto a proposta permanecesse ativa.

Unanimidade. Todos os 55. Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, Portugal, Itália, Holanda, Bélgica — todos os grandes do futebol europeu com um único recado para Infantino: não.

Uma Copa sem Espanha, França, Alemanha e Inglaterra?

Na Copa de 2026 que acabou de terminar, as seleções europeias fizeram 6 dos 8 times nas quartas de final, 3 dos 4 semifinalistas, e a campeã foi a Espanha. Uma Copa do Mundo sem os países europeus não seria a Copa do Mundo — seria um torneio regional glorificado.

O argumento da UEFA não era filosófico. Era numérico. E Infantino sabia disso.

A UEFA foi direta em seu comunicado: “A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados esportivos do futebol. Nenhuma parte dela deveria jamais ser entregue a investidores privados.”

CONCACAF e Ásia também disseram não

A CONCACAF — que representa América do Norte, Central e Caribe, incluindo os Estados Unidos e o México que acabaram de co-sediar a Copa — também rejeitou a proposta depois de sua própria reunião.

A Confederação Asiática de Futebol classificou a falta de consulta prévia como “totalmente inaceitável.” Três das seis confederações continentais da FIFA — representando a grande maioria do futebol de qualidade mundial — estavam contra o plano do presidente.

A FIFA recuou em menos de 24 horas

O que aconteceu a seguir foi tão rápido que pareceu roteiro de série. Carlos Cordeiro, assessor sênior de Infantino e assessor sênior da força-tarefa da Casa Branca para a Copa de 2026, renunciou — afirmando que a FIFA “já tem acesso a recursos financeiros extraordinários” e que o plano estava “hipotecando o futuro do futebol sem nenhuma justificativa convincente.”

Um dos homens mais próximos a Infantino, com ligação direta à Casa Branca americana, saindo publicamente. Era o sinal de que a proposta não tinha salvação política.

Na sexta-feira, a FIFA anunciou que não seguirá em frente com o plano polêmico. Menos de 24 horas depois do boicote europeu, Infantino recuou. A Copa do Mundo não será vendida. Por ora.

O que esse episódio diz sobre o futebol — e sobre o mundo

Há uma lição mais ampla neste episódio que vai além do futebol. Estamos num momento em que praticamente tudo tem sido tratado como um ativo financeiro: ligas esportivas, times históricos, competições centenárias.

O futebol europeu já viu times como o Manchester City e o PSG serem comprados por fundos soberanos. A Premier League negocia direitos de transmissão por bilhões. A Fórmula 1 foi comprada pela Liberty Media. Os próprios Jogos Olímpicos dependem cada vez mais de patrocinadores corporativos.

Infantino não inventou essa lógica. Apenas a aplicou à última fronteira — a Copa do Mundo em si.

E o Brasil? A Copa Feminina de 2027 quase virou vítima

Há um ângulo brasileiro que poucos perceberam. A primeira grande competição ameaçada pelo boicote da UEFA seria a Copa do Mundo Feminina de 2027 — que começa em 24 de junho no Brasil.

Se o boicote tivesse avançado, Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e todas as potências europeias do futebol feminino não viriam ao Brasil. O torneio que o país vai sediar no ano que vem quase nasceu mutilado — por uma briga entre o presidente da FIFA e os donos do futebol europeu sobre quem ganha mais dinheiro com a Copa do Mundo.

Infantino recuou. As europeias vêm ao Brasil em 2027. E o futebol feminino mundial foi salvo, desta vez, pela intransigência das federações que recusaram colocar preço no maior torneio do esporte.

Mas Infantino ainda está no cargo. E a Copa do Mundo de 2030 está chegando.





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