Ex-Inter relembra conquista da Libertadores, a maior dor na carreira e por que não voltou ao clube: “Fiquei triste”


Mauro Vieira / Agencia RBS
Sandro foi formado na base do Inter e conquistou títulos pelo clube em três temporadas.

Foram apenas três temporadas no time principal do Inter, mas o suficiente para deixar Porto Alegre com o pescoço cheio de medalhas. Aos 37 anos, o ex-volante Sandro não esquece o período dourado que viveu no Beira-Rio, entre 2008 e 2010 e conta por que não retornou ao clube em 2020. 

Muito do que aprendeu na época, ele tenta passar aos jogadores do São João de Ver, time da terceira divisão de Portugal que é treinado pelo ex-jogador.

Sandro pendurou as chuteiras em 2022, quando defendia o Belenenses, de Portugal. A mudança para o país foi estratégica, pensando na construção da carreira como treinador.

— Eu queria ficar na Europa, porque eu sei que no Brasil não tem um projeto. Aqui se respeita mais o projeto. Eu preciso de tempo para trabalhar e propor a minha ideia de jogo, que é justamente ter a bola e fazer os jogadores se sentirem felizes em campo — comentou Sandro.

O estilo de jogo lembra um pouco o do jovem volante que encantou o torcedor colorado e que, rapidamente, foi vendido ao Tottenham, da Inglaterra, após a conquista da Libertadores de 2010.

Eu amo o Inter e isso vai estar sempre no meu meu coração. A torcida do Inter, aquela primeira torcida que me abraçou. Quando vou para Porto Alegre, eu sinto isso nas ruas e fico super feliz ainda de ser lembrado — comentou.

Em entrevista exclusiva a Zero Hora, Sandro relembra a relação com o Inter, a passagem pela Inglaterra e o que o motivou para virar treinador.

Vencedor no Inter

Ver Descrição / Agencia RBS
Foi sob o comando de Tite que Sandro recebeu as primeiras oportunidades.

Formado na base colorada, Sandro recebeu as primeiras oportunidades no time principal em 2008, no Gauchão. Sob o comando de Tite, ele disputou jogos do Brasileirão e da Copa Sul-Americana, torneio em que o Inter foi campeão naquele ano.

Em 2009 o volante não saiu mais do time e foi titular em quase todos os jogos do Inter no ano. Sandro foi campeão gaúcho invicto, marcou um gol e fez parte dos vice-campeonatos da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro.

No ano seguinte, a venda do atleta ao futebol europeu era inevitável. Tanto que o Tottenham firmou o acordo com o Inter ainda em março, mas com a condição de Sandro ir para o novo clube após a Libertadores. O torcedor ganhou mais algumas partidas com a promessa do meio de campo, que foi peça fundamental no título da Libertadores.

— Era um grupo de vencedores. Grupo forte, unido. Se você pegar a diferença do Inter de 2006 para 2010, saíram peças. Mas ficaram Índio, Bolívar, Clemer. Até nós, que éramos da base, conhecíamos o clube e nos entregávamos, porque aquilo era o nosso clube. A gente vivia aquilo — relembra Sandro.

O ex-jogador destacou como o grupo entendia e transmitia a cultura do clube para os novos atletas.

— Taison era colorado desde pequeno, Alex também viveu 2006. A gente perdeu jogadores, mas mantinha a base. Aí trouxeram o D’Alessandro, que foi entendendo a cultura do clube e aprendendo com os outros. Edinho saiu, mas passou tudo para D’Alessandro, para Guiñazu — afirma.

Durante a passagem pelo Colorado, Sandro foi convocado por Dunga para os jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo. Ele não esteve na convocação final para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul mas ficou na lista dos sete suplentes. 

Dois anos depois, Sandro esteve em campo com a Seleção Brasileira sob o comando de Mano Menezes e foi titular na campanha da medalha de prata da Olimpíada de Londres. A derrota para o México na final é a maior dor de sua carreira:

— Aquilo dói até hoje.

Quase retorno ao Inter

Goiás / Divulgação
Sandro voltou ao futebol brasileiro para jogar no Goiás.

Depois de defender Tottenham, Queens Park Rangers e West Bromwich na Inglaterra, Sandro passou pelo Antalyaspor, da Turquia. Depois, rumou pelos italianos Benevento, Genoa e Udinese antes de voltar ao Brasil, em 2020. 

Após rescindir o contrato, o então jogador se colocou à disposição de retornar ao Inter, mas ouviu um não da direção na época por não ter “bons números” na última temporada.

— Eu tinha 31 anos, estava rescindindo o contrato, os caras me afastando. Você quer que eu tenha “números”? Isso machuca, porque eu me sentia pronto para voltar e para ajudar. Aí eles vão lá na Argentina, pegam um jogador mais velho do que eu (Damián Musto), sem entender nada do clube, e eu vou para o Goiás, porque não tive oportunidade — contou o treinador do São João de Ver.

Apesar de não retornar ao Inter, a situação não fez Sandro perder a admiração pelo clube. Segundo ele, o desgaste foi apenas com a direção e não com a torcida.

— Eu sei diferenciar isso muito bem. Sempre vou amar o Inter e passo isso aos meus filhos. Eu tenho muita vontade de levar meus filhos a primeira vez no estádio. Mas não vou mentir, fiquei triste com a direção — explicou.

O caminho para ser treinador

Próximo do fim da carreira de jogador, Sandro entendeu que o caminho para seguir era na casamata. O jogador trabalhou como scout do Brighton, da Premier League, onde estagiou com o italiano Roberto de Zerbi, atual treinador do Tottenham, e decidiu ser treinador, algo que não pensava no começo da carreira.

Ao amadurecer como atleta, passou a analisar o jogo de forma mais estratégica. A convivência com diferentes culturas nos clubes pelo qual passou ajudou a criar maior experiência no contato com os jogadores.

— Virou a chave quando eu saí do Tottenham para o QPR. Eu estava acostumado a jogar só com a elite, lutar para ir para a Champions, e no QPR estava lutando para não cair de divisão. Então, eu fiquei mais preocupado e comecei a estudar mais o jogo. Comecei a questionar mais os treinadores, refletir sobre o time que íamos enfrentar — contou Sandro.

Agora como técnico, ele projeta um time que goste de ter a bola e que jogue de forma mais propositiva e sem perder a intensidade:

— Eu estou rouco (risos). Eu sou muito intenso e me entrego muito a tudo aquilo que faço. Se não for pra se entregar 100%, eu nem vou. Isso foi o Sandro jogador também, cada bola era uma final de Copa do Mundo para mim. Eu ia para matar. E como treinador é isso. É entrega, ir ajustando, gritar e falar com a equipe.

Sandro sabe que terá um longo caminho na carreira de treinador. Isso não será um problema para alguém que viveu as tantas experiências que o futebol pode proporcionar

Um dos sonhos é voltar a Porto Alegre para levar os filhos ao Beira-Rio pela primeira vez. Quem sabe o retorno não reserve um espaço na casamata.

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