Uma falha de firmware que custou US$ 89 milhões
Carteiras hardware são consideradas o padrão-ouro de segurança para quem guarda Bitcoin. A premissa é simples: as chaves privadas nunca saem do dispositivo, tornando-as imunes a ataques remotos. Mas quando o próprio processo de geração das chaves é comprometido, a muralha vira porta aberta.
É exatamente isso que está acontecendo com endereços criados por uma versão específica do firmware da Coldcard, fabricante canadense de carteiras hardware. Segundo análise da Galaxy Research, um atacante (ou mais de um) já drenou 1.367 bitcoins, o equivalente a quase US$ 89 milhões, de 4.585 endereços distintos em três ondas de varredura desde 30 de julho.
O problema remonta a uma compilação de firmware de março de 2021 que redirecionou a geração de sementes (seeds) para um randomizador via software, em vez de utilizar o gerador de números aleatórios baseado em hardware do chip. O resultado: um universo limitado de chaves possíveis que qualquer pessoa com poder computacional suficiente e acesso à divulgação da falha consegue reproduzir offline, sem jamais tocar em um dispositivo físico.
Três ondas, táticas cada vez mais sofisticadas
A primeira onda, no dia 30 de julho, foi rápida e brutal. Em apenas 41 minutos, o atacante varreu 1.083 bitcoins de 1.196 endereços. A média por vítima ficou próxima de um bitcoin inteiro. O padrão era simples: uma transação por vítima, enviando os fundos para um punhado de endereços coletores compartilhados, fáceis de rastrear.
A segunda onda já mostrou evolução no método. Mas foi a terceira, detectada no início do domingo pela Galaxy Research, que trouxe mudanças táticas significativas. Cerca de 208 bitcoins foram drenados de 1.912 endereços entre a sexta-feira ao meio-dia e a manhã de sábado (horário UTC), pouco mais de um décimo de bitcoin por vítima.
A queda no valor médio por endereço revela algo importante: a “gordura” do espaço de chaves vulneráveis já foi consumida. Os endereços mais valiosos foram os primeiros a serem esvaziados. Agora o atacante vasculha carteiras que guardam poucos milhares de dólares cada.
As mudanças técnicas entre as ondas não são triviais. Na terceira, cada vítima tem seus fundos enviados para um endereço de destino exclusivo, em vez dos coletores compartilhados das ondas anteriores. Os fundos são depositados em outputs do tipo pay-to-witness-script-hash (P2WSH), um formato que pode carregar condições de multisig ou timelock, indicando planejamento para movimentação futura mais sofisticada. As transações também foram agrupadas: em média seis vítimas por varredura, contra uma por vez na primeira onda.
Um atacante ou dois? A blockchain não responde
Uma questão central permanece sem resposta definitiva. A Galaxy Research afirmou ter confiança de que cada onda individualmente pertence a um único operador, mas não vinculou as três entre si. É possível que seja o mesmo agente reconstruindo sua operação após ter sido mapeado publicamente, ou um segundo operador explorando o mesmo espaço de chaves vulneráveis de forma independente.
A blockchain, por natureza, não distingue entre esses cenários. Qualquer pessoa com capacidade computacional adequada pode reproduzir as chaves afetadas e varrer os endereços restantes. Isso transforma a situação em uma corrida: quem encontrar os endereços remanescentes primeiro leva os fundos.
Como explicamos em análises anteriores sobre segurança no mercado cripto, falhas em carteiras hardware são raras, mas quando ocorrem, tendem a ser catastróficas justamente porque os usuários confiam nelas para armazenamento de longo prazo. Muitos sequer monitoram os endereços com frequência.
O que isso significa para quem usa carteira hardware
O episódio desafia uma das narrativas mais consolidadas do ecossistema: a de que carteiras frias são intrinsecamente seguras. A verdade é mais nuançada. A segurança de uma carteira hardware depende de toda a cadeia de produção, do chip ao firmware, da entropia ao processo de derivação de chaves.
Usuários que geraram chaves usando a versão do firmware de março de 2021 da Coldcard estão em risco direto. Como já abordamos em nossa cobertura sobre custódia de Bitcoin, a recomendação padrão em cenários como este é transferir imediatamente os fundos para endereços gerados com um firmware atualizado ou, preferencialmente, com outro dispositivo cuja integridade tenha sido verificada.
O fato de a varredura continuar quase três dias depois da primeira detecção pública indica que ainda existem endereços vulneráveis com saldo. A tendência, porém, é de retornos decrescentes. Os valores por endereço já caíram de quase um bitcoin para pouco mais de 0,1 BTC na média.
Lições para o mercado de custódia
O caso Coldcard expõe um problema estrutural da indústria de carteiras hardware: a dificuldade de auditar firmware de forma independente e contínua. Quando uma falha passa despercebida por anos, como ocorreu aqui, o dano potencial é multiplicado pelo tempo de exposição.
Para o investidor institucional, o episódio reforça a tese de que soluções de custódia profissional com múltiplas camadas de verificação não são luxo, são necessidade. Para o investidor pessoa física, a lição é mais direta: manter firmware atualizado, diversificar dispositivos e nunca assumir que “cold storage” é sinônimo de invulnerabilidade.
A falha não é do conceito de carteira fria. É de uma implementação específica de um componente crítico: a geração de aleatoriedade. É a diferença entre uma fechadura robusta e uma fechadura robusta cuja chave foi cortada com um molde previsível. A porta é forte, mas a chave pode ser copiada.
Com 1.367 bitcoins drenados e o atacante ainda operando, o caso se consolida como um dos maiores incidentes de segurança envolvendo carteiras hardware na história do Bitcoin. E o pior: não há solução retroativa. Quem gerou chaves com o firmware comprometido precisa mover seus fundos antes que alguém o faça por eles.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.










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