247 – O jornalista Breno Altman afirmou, em entrevista ao Bom Dia 247, que a eliminação do Brasil na Copa do Mundo não pode ser explicada por erros individuais de jogadores ou por decisões isoladas do técnico Carlo Ancelotti. Para ele, a derrota expõe uma crise mais profunda: a perda de identidade, intensidade e capacidade de formação do futebol brasileiro.
“O Brasil simplesmente não está mais nas primeiras prateleiras do futebol mundial”, disse Altman. Segundo ele, a seleção “decaiu estruturalmente”, deixou de produzir craques em grande quantidade e perdeu aquilo que durante décadas foi reconhecido como um padrão brasileiro de jogo.
Altman criticou a baixa intensidade da equipe contra a Noruega. Para ele, o Brasil entrou em campo sem pressão, sem agressividade na marcação e sem capacidade de disputar o controle da partida. “O Brasil parecia que estava treinando contra a Noruega”, afirmou. Ele lembrou que a seleção teve apenas cerca de 35% de posse de bola, um dado que, em sua avaliação, simboliza a perda de protagonismo.
O jornalista também rejeitou a ideia de que Ancelotti seja o único responsável pelo resultado. “Claro que ele tem responsabilidade. O que eu estou querendo dizer é que a gente não pode olhar para o jogo e dizer que, se fosse outro treinador, estaria resolvido”, afirmou. Para Altman, o técnico italiano deu sequência a um processo antigo de europeização do futebol brasileiro, marcado pela valorização da força física, da velocidade e da transição direta em detrimento da criatividade no meio-campo.
Na avaliação de Breno, o Brasil deixou de formar jogadores capazes de organizar o jogo e decidir partidas pela criatividade. “Há quanto tempo o Brasil não tem um meio-campo decente?”, questionou. Ele lembrou que as grandes seleções brasileiras tinham jogadores com capacidade de armar, driblar, servir e chegar ao ataque. “O maior artilheiro da história do Brasil não era um centroavante. Pelé era um meia ofensivo”, destacou.
Altman também apontou a saída precoce de jovens atletas para o exterior como um fator decisivo para a perda de vínculo entre os jogadores e a torcida. “Eles saem do Brasil muito jovens, sem vínculos com a torcida brasileira, sem se sentir responsáveis pela camisa amarela”, afirmou.
Como medida radical, o jornalista defendeu que a seleção passe a convocar apenas jogadores que atuem no futebol brasileiro por determinado período. Ele reconheceu que a proposta teria efeitos negativos no curto prazo, com queda de qualidade, mas argumentou que poderia reconstruir, a médio e longo prazo, a relação dos atletas com o país. “A torcida vai conhecer os jogadores, esses jogadores vão estar vestindo a camisa de um certo time. Isso vai gerando outra cultura”, disse.
Altman também comentou a entrada de Neymar e Endrick durante a partida. Para ele, Ancelotti fez “populismo futebolístico” ao colocar em campo os dois nomes mais cobrados pela torcida, mesmo sem encaixe tático adequado. “Ele botou no campo os dois jogadores que a torcida exigia”, afirmou. Segundo Breno, a combinação desorganizou ainda mais a equipe.
Apesar das críticas, o jornalista evitou responsabilizar Neymar pela eliminação. Para ele, o atacante já não está em suas melhores condições físicas, mas segue sendo o maior nome produzido pelo futebol brasileiro desde a geração de Romário, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho. “O povo gosta do Neymar porque sabe que ele é o melhor jogador que o Brasil tem desde o fim da carreira dos três Rs”, afirmou.
Para Breno Altman, a crise da seleção deve ser entendida como parte de um processo de longo prazo. O problema, disse ele, não está apenas na escalação, nas substituições ou em um jogo específico, mas no modelo de formação, na lógica de mercado e na perda da identidade nacional do futebol brasileiro.
“O futebol brasileiro tem que ser reconstruído”, resumiu.
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