No dia seguinte os jogadores começam a perceber que não vão ter resposta e por isso reúnem-se na sala de refeições depois do jantar. Ficam sozinhos, discutem as posições que estão dispostos a assumir e votam de braço no ar. Os jornalistas, entre cigarros, aguardam largos minutos à porta. Sabem que algo de estranho se passa, não é habitual os jogadores estarem reunidos sozinhos já noite dentro. A reunião dura mais de hora e meia e no fim os futebolistas passam uma mensagem curta à imprensa. “Eles saíram e disseram só que amanhã não há treino. Percebemos que aquilo tinha chegado ao ponto de rutura”, conta ao Observador José Carlos Freitas, enviado do jornal O Jogo ao Mundial de 1986.
No Hotel La Torre há uma sala reservada para os jogadores portugueses, mas às 13h00 do dia 25 de Maio, um domingo, nessa sala estão também jornalistas de Portugal e de muitas outras partes do mundo. Tinham sido convocados pelos futebolistas com a informação de que seria lido um comunicado sobre as condições em que preparam o campeonato do mundo de futebol. Manuel Bento, guarda-redes do Benfica e capitão da seleção, senta-se em frente à imprensa e está rodeado por todos os colegas de equipa. Aos jornalistas apresenta as condições financeiras que estão a ser pagas aos jogadores portugueses e explica os problemas que encontraram na preparação para o Mundial. Exigem negociar, mas da Federação apenas encontram intransigência, por isso anunciam que vão faltar ao jogo treino agendado para essa mesma tarde, dali a 45 minutos, com as reservas do Monterrey.
Este momento dá início a uma revolta pública dos futebolistas portugueses a apenas nove dias do primeiro jogo de Portugal no Mundial . O comunicado dos atletas deixa em choque o país e é então que as principais figuras do Estado tomam posição sobre o assunto, com o Presidente da República a falar numa situação “lamentável”, “prejudicial à imagem de Portugal” e “um problema de prestígio internacional”. Num curto comunicado, Mário Soares, já Presidente da República, diz que segue com apreensão o agravamento das divergências entre a FPF e a seleção no México. O Governo toma uma posição mais dura e posiciona-se contra os futebolistas. João de Deus Pinheiro, o ministro com a tutela do Desporto, que fala pelo Governo, liderado por Cavaco Silva, afirma que “seja qual for o prisma sob que se analise a atitude reivindicativa dos jogadores, haverá, no mínimo, que a qualificar de antidesportiva, extemporânea e desprestigiante para o país que representam”. O ministro diz também que ainda há tempo de corrigir ou pelo menos atenuar os efeitos negativos deste caso e por isso pede aos jogadores que “assumam plenamente a condição de desportistas, de profissionais, e acima de tudo, de portugueses.”
Entre os jogadores que estiveram no México ouvidos pelo Observador, Augusto Inácio recorda a dor que sentiu quando foram apelidados de “mercenários” por estarem a tentar defender os direitos enquanto profissionais: “Claro que me custa ouvir isto, porque a maior honra que um jogador pode ter é envergar a camisola da seleção nacional. É a maior honra.”
Longe do rigor exigido numa alta competição, o quotidiano no deserto roçava o facilitismo absoluto. As refeições eram confeccionadas por Evaristo (fundador do Solar dos Presuntos), e a chegada tardia do bacalhau vindo de Portugal foi celebrada com um banquete em que foi permitido haver vinho à mesa, até para os jogadores. Noutras refeições, os copos de vinho eram partilhados em segredo e os atletas fintavam a vigilância do preparador-físico Monge da Silva com truques como esvaziar latas de Coca-Cola para as encher com álcool. O ambiente azedou quando o médico Camacho Vieira tentou proibir o álcool à mesa: o relatório da FPF detalha que Jaime Pacheco se levantou indignado, atirou o guardanapo ao chão e garantiu que não comia se não houvesse cerveja. À noite, entre copos de whisky e cigarros, “não havia grande disciplina”, confessa Rui Águas.
O desleixo estendia-se à segurança do Hotel La Torre. Se de dia os atletas descansavam e bronzeavam-se junto à piscina, as noites e os fins de semana traziam uma agitação ruidosa com a entrada livre de mulheres mexicanas nos corredores. O jornalista José Carlos Freitas, que esteve no México em reportagem para o jornal O Jogo, relata uma movimentação que parecia planeada: todas as sextas-feiras entrava no hotel um grupo de 22 mulheres perante o “consentimento tácito” dos dirigentes da FPF. A presença feminina era tão evidente que os repórteres fotográficos chegaram a captar uma claque nos treinos com um cartaz explícito: “Portugal, Las Chicas de Saltillo te apoyan”.
O episódio mais insólito, contudo, foi revelado anos mais tarde por Paulo Futre. Algumas mexicanas ricas apaixonaram-se por jogadores e começaram a oferecer-lhes valiosas joias de ouro, contou. Ele próprio teve uma namorada mexicana polícia, que o deixava conduzir o carro dela e por isso bastava-lhe mostrar a identificação policial para não parar nas operações stop. Como muito eram casados e temiam a reação das mulheres em Portugal, o balneário transformou-se numa autêntica feira de negociação clandestina, onde os casados tentavam revender o ouro aos solteiros. Futre aproveitou o negócio de ocasião e regressou a Portugal com um saco cheio de ouro que acabou por vender. Depois da participação no Mundial, alguns destes excessos e episódios de insubordinação vieram a público e ajudaram a denegrir a reputação dos futebolistas portugueses.











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