Um clube localizado no norte da África sonha em disputar a LaLiga, primeira divisão do futebol espanhol. Por mais inusitado que isso possa parecer, a história é, sim, possível para o AD Ceuta FC.
Sediado em Ceuta, cidade autônoma espanhola encravada no norte do território de Marrocos, o clube retornou ao segundo escalão do esporte nacional na temporada 2024/25. Após quase seis décadas de ausência, surpreendeu em seu primeiro ano de volta e terminou em 11º lugar.
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Agora, o Ceuta inicia 2026/27 neste sábado (15), enfrentando o FC Andorra, com o objetivo de repetir o feito e, quem sabe, sonhar com o acesso à LaLiga.
A peculiaridade geográfica do clube, porém, vai muito além de uma curiosidade no mapa. Para entender como um time situado na África disputa o futebol espanhol, é preciso primeiro analisar a história do enclave.
Nome: Agrupación Deportiva Ceuta Fútbol Club
Fundação: 9 de julho de 1956
Estádio: Alfonso Murube
Posição em 2025/26: 11º
Como Ceuta virou espanhola?
Em 1415, Portugal conquistou Ceuta em uma expedição liderada pelo rei D. João I. Depois de 165 anos, uma crise sucessória levou o rei espanhol Filipe II ao trono português, dando início à União Ibérica, período em que os dois países passaram a ter o mesmo monarca.
Quase um século depois, os lusitanos recuperaram sua independência, mas Ceuta decidiu permanecer ligada à Espanha. Em 1668, os dois países assinaram um tratado que reconheceu formalmente a soberania espanhola sobre a cidade.
A situação mudou novamente em 1956, quando Marrocos conquistou sua independência e passou a reivindicar Ceuta e Melilla como parte de seu território. Em 1995, ambas ganharam o status de cidades autônomas espanholas.
A ascensão esportiva
O clube foi fundado em 9 de julho de 1956, inicialmente com o nome de Club Atlético de Ceuta, a partir da fusão entre a Sociedad Deportiva Ceuta e o Atlético Tetuán. Este último, inclusive, era sediado em Tetuão, no então Marrocos espanhol, e chegou a disputar a primeira divisão espanhola – sendo, até hoje, o único time africano a jogar LaLiga.
O Atlético Ceuta assumiu o lugar do Tetuán na segunda divisão e disputou a competição já na temporada 1956/57. Depois de alternar entre o segundo e o terceiro escalões, caiu para as categorias inferiores do futebol espanhol e passou décadas distante do cenário profissional.
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A trajetória foi acompanhada por dificuldades financeiras, que contribuíram para prolongar o período de instabilidade. A reconstrução ganhou força em 2013, quando o clube foi refundado como Agrupación Deportiva Ceuta Fútbol Club.
Três anos depois, Luhay Hamido assumiu a presidência e passou a cuidar da gestão financeira, enquanto o ex-meia do Tottenham Nayim ficou responsável pela parte esportiva. Nascidos em Ceuta, os dois ajudaram a conduzir um processo de reestruturação financeira, esportiva e estrutural.
Na temporada 2021/22, o clube conquistou o acesso à terceira divisão. Em 2024/25, foi campeão da competição e subiu para a segunda divisão, onde surpreendeu.
A diretoria projetava uma campanha voltada à permanência, mas a equipe terminou em 11º lugar, a 11 pontos da zona de playoffs de promoção para La Liga.
O que significa jogar na Espanha estando na África?
Geograficamente, o AD Ceuta está na África. Esportivamente, porém, é um clube espanhol: está filiado à Real Federación Española de Fútbol (RFEF) e disputa normalmente as competições nacionais. A diferença aparece principalmente quando chega a hora de viajar.
A principal dificuldade está na logística. Ceuta não possui aeroporto, então a delegação precisa atravessar o mar para chegar à Espanha continental e, de lá, seguir viagem para os compromissos fora de casa.
Em 2023, o Barcelona foi até Ceuta para enfrentar o clube pela Copa do Rei. A delegação voou primeiro para Málaga, na costa sul da Espanha, e depois seguiu de helicóptero até a cidade.

Na temporada 2024/25, o Sporting Gijón fez o trajeto de ônibus até a cidade portuária de Algeciras, onde embarcou em uma balsa para o enclave.
A rotina é parecida para o próprio Ceuta. Em entrevista ao “The Athletic”, José Juan Romero resumiu as dificuldades enfrentadas pelo clube.
“Nossas viagens podem ser uma odisseia. Para chegar a Castellón (cidade no leste da Espanha) em setembro, pegamos o barco (para Algeciras) às 6h da manhã, fomos de ônibus para Sevilha, pegamos um avião para Valência e depois outro ônibus para Castellón.
As viagens podem levar 14 horas. Na volta, se perdermos o último barco, temos que passar a noite fora novamente. Isso é difícil e cansativo”, disse o técnico.
Uma cidade entre dois mundos
A cidade de Ceuta possui uma população de cerca de 85 mil habitantes e fica na margem sul do Estreito de Gibraltar, fazendo fronteira terrestre com Marrocos.
O enclave também é uma raridade dentro da Espanha pela composição de sua população: cristãos e muçulmanos representam parcelas semelhantes dos habitantes, enquanto também existem comunidades judaica e hindu.
Por lá, o espanhol é o idioma oficial, mas o darija, variedade do árabe marroquino, também é amplamente falado.

Além disso, ao lado de Melilla, Ceuta é uma das duas fronteiras terrestres da União Europeia com o continente africano. Essa posição transforma a cidade em uma das rotas utilizadas por migrantes que tentam chegar ao território europeu.
Fronteira colocou Ceuta no centro da crise migratória
A posição de Ceuta colocou a cidade no centro de crises migratórias em duas ocasiões recentes. Em 2021, cerca de oito mil pessoas entraram na cidade em poucos dias, provocando uma crise diplomática entre Espanha e Marrocos.
A situação, porém, ganhou uma dimensão sem precedentes em julho deste ano, quando mais de 70 mil pessoas atravessaram de Marrocos para Ceuta. Segundo o governo espanhol, a grande maioria já deixou o local. Pelo menos 100 pessoas morreram ao tentar fazer a travessia.
A dimensão do fluxo pressionou a estrutura de uma cidade com cerca de 85 mil habitantes. Centros de acolhimento e serviços públicos locais ficaram lotados diante da chegada de milhares de pessoas.

Quando a crise chega ao futebol
A crise também chegou ao futebol. Na última quinta-feira (13), o técnico José Juan Romero declarou que, se dependesse dele, o Ceuta não jogaria contra o Andorra, neste sábado (15), pela estreia da segunda divisão, por considerar que o futebol fica em segundo plano diante da situação vivida pela cidade.
O treinador ainda afirmou que o esporte precisa servir como uma plataforma para chamar a atenção do mundo para o que está acontecendo no enclave.
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“Sinto-me um pouco envergonhado e constrangido por falar de futebol, ou por dar uma conferência de imprensa para um jogo de futebol, com o que estamos a viver na cidade. E acho que o futebol, como plataforma, precisa de ser usado para exigir respostas sobre o que está a acontecer aqui. É muito sério”, disse Romero.
Romero também criticou a falta de atenção dada ao episódio fora de Ceuta e disse estar “devastado” com a situação. “Parece que, para além das nossas fronteiras, pouca atenção está a ser dada ao assunto”, afirmou.
Além disso, o treinador revelou que alguns jogadores precisaram voltar para casa para ficar com seus familiares e que a crise dificultou a chegada de novos reforços.
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