Enquanto LaLiga turbina receitas com tecnologia, Brasil tem desafio de fortalecer bases de dados


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  • LaLiga transformou-se com investimentos em tecnologia e inovação desde 2013, impulsionando receitas e modernizando operações.
  • Clube brasileiros estão adotando inteligência de dados para melhorar programas de sócio-torcedor, mas enfrentam altos índices de cancelamento com boleto bancário.
  • Experiências nos estádios aumentam retenção de sócios, mas o futebol brasileiro ainda sofre com baixa monetização das suas grandes torcidas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Nos últimos anos, a exemplo do que vem sendo observado em outras atividades, o futebol tem incorporado cada vez mais a inovação ao seu dia a dia.

As novas tecnologias deixaram de ser apenas ferramentas acessórias, para se converter em protagonistas de processos fundamentais, que ajudam a turbinar as receitas de equipes e organizações esportivas.

É o que mostra o relatório Tech Powerhouse 2026, elaborado pela LaLiga, lançado na última semana e que mapeia a transformação tecnológica e a inovação na indústria esportiva sob a perspectiva da organização responsável por organizar as principais divisões do futebol profissional da Espanha.

De acordo com o documento, o ponto de virada ocorreu na década passada. Até então, a LaLiga estava estruturada como uma associação de clubes de futebol que ocasionalmente investia em iniciativas tecnológicas relevantes. Porém, essas ações tinham caráter esporádico e fragmentado.

A partir de 2013, o presidente Javier Tebas lançou os pilares para modernizar a organização, que incluíam a implantação de um rigoroso sistema de controle financeiro, o lançamento de uma estratégia de internacionalização e a adoção do compromisso de avançar na tecnologia e na digitalização, dentro da LaLiga.

O modelo começou a ser implantado em 2015, com foco especial no combate à pirataria. No ano seguinte, a LaLiga firmaria acordo com a Microsoft, possibilitando o uso da plataforma Azure pela organização esportiva.

Em 2017, ela lançaria seu Escritório de Inteligência, atuando inicialmente com 70 profissionais, a partir de um investimento de € 200 milhões.

Viriam depois iniciativas como LaLiga Content Protection de combate à pirataria de conteúdo, em 2020, e LaLiga Tech, em 2021, o acordo com a Globant para o uso da tecnologia no marketing, em 2022, além da extensão da parceria com a Microsoft, que agora utiliza métricas para aprimorar a experiência dos fãs.

Na área audiovisual, isso possibilitou a implantação de melhorias como a utilização de pelo menos 30 câmeras por jogo, com resolução 4K, replay em 360 graus, gráficos 3D em tempo real, drones acrobáticos e câmera do árbitro, que foi uma das atrações também na Copa do Mundo de 2026.

Acordo com a CVC

O relatório não faz menção direta, mas todo esse investimento em inovação, que precisou ser feito também pelos clubes individualmente no decorrer desse período, foi possível graças LaLiga Impulso, resultado do acordo firmado com o fundo CVC Capital Partners, que adquiriu 8,2% dos direitos comerciais e de mídia da imensa maioria dos clubes da organização, pelo total de € 1,994 bilhão.

Entre os que disputavam a divisão de elite espanhola, ficaram de fora desse acordo o Real Madrid, o Barcelona e o Athletic Bilbao.

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Todos os demais aceitaram vender a participação minoritária, em troca da bolada em dinheiro oferecida pelo fundo norte-americano. Os recursos, porém, tinham destinação carimbada. Os times não podiam sair torrando tudo em contratações ou salários, como ocorreu no Brasil com as equipes do Futebol Forte União (FFU) que fecharam com a Sports Media Entertainment.

A LaLiga determinou que o 70% dinheiro fosse utilizado em infraestrutura, tecnologia, inovação e internacionalização, como reforma e modernização de estádios, que ganharam sistema de biometria e reconhecimento facial, redes 5G e realidade virtual ou aumentada, além de modernizarem seus sistemas digitais próprios.

Esse acordo, vale lembrar, não foi firmado individualmente por cada clube, mas sim pela LaLiga, com a adesão maciça das equipes.

Foi criada uma subsidiária denominada LaLiga Group International, que fechou com a CVC e ficou responsável por negociar e gerenciar os direitos de arena dos clubes que aderiram ao acordo, pelo prazo de 50 anos.

Como resultado dessa parceria, a LaLiga recebeu um investimento de € 100 milhões para acelerar o desenvolvimento de projetos nas áreas de Inteligência Artificial (IA) e internacionalização para mercados da Ásia.

Receitas

Segundo o relatório, os investimentos em tecnologia têm ajudado a reforçar o faturamento da LaLiga.

A estimativa é de que o Escritório de Inteligência, lançado em 2017, consiga recuperar a quantia anual de € 200 milhões, com as ações de combate à pirataria.

Esse montante era anteriormente perdido para transmissões ilegais e foi reavido por meio das ferramentas proprietárias de monitoramento e bloqueio em tempo real.

Graças à parceria firmada com a Globant, que resultou na joint venture Sportian, a LaLiga deixou de ser apenas consumidora para se tornar fornecedora de software B2B, comercializando soluções de inteligência e segurança para outras organizações esportivas globais, como a MotoGP e a Série A italiana.

O lançamento de Alex, considerado o primeiro influenciador virtual de uma liga de futebol, resultou em mais de 180 menções nos veículos de comunicação e alcançou um Valor de Mídia Estimado (EMV) superior a € 900.000 logo em sua fase inicial.

Já a automação de processos via IA, segundo o estudo, resultou numa uma economia de duas a quatro horas de trabalho semanais para um terço dos funcionários em tarefas reativas. Além disso, o uso de dessas tecnologias reduziu o ciclo de preparação de campanhas de marketing de 12 semanas.

O software Calendar Selector, atualmente em operação, avalia mais de 3 milhões de combinações de horários para maximizar as audiências televisivas globais e a presença de público nos estádios, cruzando dados climáticos e logísticos.

LaLiga Fantasy registrou 3,6 milhões de usuários ativos na temporada 2025/2026, crescimento de 82% em comparação ao período anterior. Já o aplicativo da LaLiga alcançou a marca de 36 milhões de downloads.

Desafio no Brasil

Um estudo da plataforma FutebolCard, especializada em gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor, mostra que cada vez mais os clubes do Brasil têm apostado na inteligência de dados buscando ampliar as receitas.

A análise identificou que a forma de pagamento impacta diretamente na evasão dos torcedores, e que boa parte das bases analisadas possuem algum grau de inatividade.

No caso da forma de pagamento, o estudo aponta que a escolha do método define o tempo de vida do torcedor no programa de sócios. O boleto bancário consolidou-se como o maior inimigo da retenção, com uma taxa de cancelamento, também conhecida como “churn”, que varia entre 75% e 98%.

Em contrapartida, com o cartão de crédito recorrente as taxas caem para algo entre 10% e 38%. Já o pix recorrente também surge como uma alternativa, superando o boleto tradicional na maioria dos cenários e empurrando o futebol para o modelo de assinatura contínua.

“Os programas de sócio estão entrando na lógica de assinatura contínua, semelhante ao mercado de streaming, SaaS e serviços digitais”, revela Robson Carlo, sócio-fundador da FutebolCard.

SaaS, sigla de Software as a Service, significa que o clube não desenvolve ou compra um sistema próprio do zero, mas assina e utiliza uma plataforma pronta, hospedada na nuvem, pagando uma mensalidade ou taxa de uso.

De acordo com os dados da FutebolCard, planos mensais sofrem com a volatilidade do desempenho do time em campo, registrando um índice de cancelamento entre 55% e 70%.

Por outro lado, os planos anuais ou vitalícios estabilizam a base de clientes, mantendo o “churn” controlado entre 20% e 30%.

Isso resulta em um movimento do mercado focado em incentivar a migração dos torcedores para compromissos de longo prazo, garantindo um fluxo de caixa previsível independentemente de resultados recentes do clube dentro de campo.

“Quanto maior o vínculo de longo prazo, menor o cancelamento, já que a previsibilidade das receitas passa a ser prioridade dos clubes, e a partir desse fator eles começam a incentivar upgrades para planos anuais”, diz o executivo.

Perfis inativos

As bases inativas aparecem como um verdadeiro ponto de vulnerabilidade trazido pelo estudo, já que entre 30% e 80% desses cadastros analisados contêm ex-sócios, pré-cadastros abandonados e perfis bloqueados por inadimplência, que poderiam ser recuperados.

De acordo com o relatório da FutebolCard, essas bases escondem alto potencial de monetização, e a reativação não pode ser descartada, pois teria o potencial de gerar crescimento, sem a necessidade de investimento em mídia

“Campanhas de win-back (reconquista) possuem um custo de conversão muito menor do que a aquisição de novos clientes. Reativar essas contas representa um crescimento imediato de receita sem a necessidade de investimentos robustos em mídia”, diz Robson Carlo.

Experiência dos fãs

O estudo mostra que a experiência feita com ativações dentro dos estádios continua impactando na retenção da base de sócios.

Segundo o documento, torcedores que frequentam regularmente o estádio registram uma retenção até três vezes superior em comparação aos fãs puramente digitais.

Na visão dos autores do relatório, “isso obriga os clubes a integrarem urgentemente seus sistemas de CRM, venda de ingressos (ticketing) e benefícios de vantagens para otimizar a experiência nos dias de jogo (matchday)”.

O estudo analisa também o impacto dos “superfãs”, torcedores bastante engajados e com alto potencial de aquisição orgânica, assim como influencers digitais, embaixadores (oficiais ou não) e até mesmo ex-atletas, que utilizam seus canais para atrair novos membros de maneira espontânea.

“O grande desafio atual, contudo, reside na baixa monetização média da torcida. Mesmo os times com bases massivas ainda pecam pela falta de produtos premium e escadas de valor progressivas”, explica Robson Carlo.

Segundo ele, o futebol brasileiro ainda monetiza muito pouco suas torcidas. “Embora os clubes nacionais arrastem multidões e ostentem bases de torcedores que figuram entre as maiores do mundo, a capacidade de reverter essa paixão em receita financeira ainda caminha a passos lentos”, afirma.



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