Exclusivo com Rubén Pardo: “Não é por acaso que Oyarzábal é uma referência”


Rubén Pardo, médio espanhol de 33 anos, falou ao Flashscore no início da sua nova aventura em Chipre, depois de um ano parado, em que aguardou a sua oportunidade com máxima esperança.

Rubén Pardo (33 anos) é um daqueles futebolistas e pessoas irrepreensíveis formados na cantera da Real Sociedad, que contribuiu para o bom momento atual do clube donostiarra. No entanto, há já várias épocas que procurou oportunidades noutros destinos, até chegar ao Krasava, do Chipre.

Apesar de esperar propostas de Espanha, um telefonema de Dmitro Chihrinski, o seu atual treinador e antigo pupilo de Pep Guardiola no Barcelona, levou-o a decidir voltar a fazer as malas após uma boa passagem pelo Aris de Salónica, na Grécia.

Desde o seu quarto de hotel – em breve terá casa própria – o médio de Logronho falou ao Flashscore, mostrando-se muito motivado com o desafio que tem pela frente e encarando-o como uma oportunidade para provar que não perdeu o toque durante o ano em que esteve parado.

Os números de Rubén Pardo
Os números de Rubén PardoFlashscore

Desde a sua etapa como txuri-urdin, até à sua passagem discreta pelo Bordéus, passando pelo Leganés e pelo papel sensacional do seu amigo Mikel Oyarzábal no Mundial… Assim decorreu a conversa que mantivemos com Rubén Pardo:

Um novo começo

– Como têm sido estes primeiros dias em Chipre? Disseram-me que ainda anda de hotel em hotel, sem casa definitiva?

Bem, já sabes, quando começas uma nova aventura, os primeiros dias são de adaptação, de procurar apartamento, casa, conhecer um pouco a cidade e é isso que me está a acontecer agora: de hotel em hotel e espero que nos próximos dias já me entreguem a minha nova casa.

– Assinou pelo Krasava, como surgiu esta oportunidade?

Bem, estava em La Rioja a treinar… Já levo um ano sem jogar e com a esperança de encontrar um projeto onde me sentisse parte, com vontade de desfrutar do futebol. E o Krasava ligou-me, o Chihrinski ligou-me, que é o nosso treinador. Apresentou-me o projeto e disse-me que ficaria muito feliz se eu fizesse parte dele e, sinceramente, tudo fazia sentido para mim, peguei nas malas, não pensei duas vezes e vim para cá.

Rubén Pardo assinou pelo Krasava
Rubén Pardo assinou pelo KrasavaIAM Sport Solutions

– Chihrinski jogou no Barcelona… Falaram em espanhol?

Quando ele me ligou, é verdade que percebo muita coisa em inglês, mas custa-me um pouco falar e tudo o resto, mas ele disse-me: ‘tranquilo Rubén, eu tento com o meu castelhano’. A verdade é que foi uma conversa muito fluida. Ele fala muito bem, claro que lhe escapa alguma palavra, mas foi uma conversa em que nos entendemos, explicou-me tudo o que queria e como é a equipa e tudo mais… Correu tudo muito bem e convenceu-me.

– Já conseguiu treinar com a equipa?

Sim, já estou aqui há praticamente duas semanas e estou muito contente com o que vejo. É uma equipa muito jovem, que só existe há cinco anos. O ano passado manteve-se pela primeira vez na primeira divisão e tem a ambição de fazer as coisas bem, de ir crescendo pouco a pouco e é isso que vejo. Há jogadores experientes que tentaremos transmitir o que sabemos e as experiências que vivemos durante a nossa carreira e, juntos, vamos tentar ajudar o clube a crescer.

A influência de Guardiola em Chihrinski

– Que sensações lhe transmitiu Chihrinski nestas primeiras semanas? Como o vê como treinador?

Sinceramente, uma sensação muito boa. Já te disse: explica tudo de forma clara. Acho que é um treinador muito próximo, com quem se pode falar. Acho que está a ensinar-nos as suas principais ideias sobre o que quer da equipa. Nestes poucos dias que estou aqui, tenho uma sensação muito positiva.

Chihrinski, novo treinador de Rubén Pardo, ao lado de Laporta na sua apresentação no Barça em 2009
Chihrinski, novo treinador de Rubén Pardo, ao lado de Laporta na sua apresentação no Barça em 2009LLUIS GENE / AFP

Ele era um central de toque, com gosto pela bola, e foi uma das contratações mais sonantes de Guardiola. Nota-se a influência de Pep no seu estilo?

Sim, quando falei com ele explicou-me logo que queria que eu fizesse parte do jogo desde o primeiro momento com bola e, como te digo, nos 10-15 treinos que já tive com ele, estamos a fazer exercícios, jogos… Jogamos desde trás, a querer ter a bola. E, no fundo, é como dizes: é um jogador que cresceu com isso, que gosta de ter bola desde o início e, no fim, eu também quero transmitir isso aos meus colegas, aquilo que sei e aquilo em que sou bom.

Uma mudança repentina de ares

– Fez a maior parte da carreira em Espanha e de repente decidiu ir para a Grécia. Como surgiu essa ideia?

Bem, terminei os meus três anos no Leganés e estivemos no verão com várias propostas de Espanha e tudo mais… Num momento do verão, há três anos, chegou-me a proposta do Aris de Salónica e, juntamente com a minha mulher e família, achei que era o momento certo para dar esse passo, embarcar numa nova aventura num país muito semelhante a Espanha em termos de estilo de vida e acho que foi uma experiência muito enriquecedora tanto para mim como para a minha família e acho que tomámos a decisão certa.

– Diz que a Grécia se parece com Espanha, como foi o primeiro contacto com Chipre?

Diria que é um país muito parecido com a Grécia em termos de vida. É verdade que estou cá há poucos dias e ontem deram-me o carro e nem imaginas o que é conduzir do outro lado, meu Deus (risos). Mas, no fundo, é como tudo, requer um período de adaptação, mas acho que vamos sentir-nos muito bem aqui, tanto eu como a minha família.

Um campeão da Taça ausente

– Voltemos aos tempos na Real Sociedad… 2020, um ano estranho em que ganhou a Taça do Rei sem estar no plantel. Como recorda isso?

Lembro-me perfeitamente que até aos quartos de final ainda estava na equipa, mas, entretanto, surgiu no Natal a possibilidade de ir para o Girondins de Bordéus. Era o meu último ano na Real Sociedad e, com um acordo entre o clube e eu, decidimos pôr fim à minha etapa na Real Sociedad e fui para Bordéus. Estive lá no Girondins de Bordéus, depois veio a pandemia, tudo o que aconteceu: a Liga Francesa foi suspensa, a única que não foi retomada… O treinador disse-me para procurar outro rumo, por assim dizer. Surgiu a hipótese do Leganés e, estando no Leganés durante o ano, disputaram-se as meias-finais e a final da Taça do Rei e vivi tudo à distância. Lembro-me, acho que foi em Albacete que vi a final e celebrei como se estivesse em campo.

– Deram-lhe a medalha de campeão ou enviaram-lhe algo da Real Sociedad?

Não me enviaram nada. Apenas muitos colegas e pessoas do clube disseram-me que aquilo também era meu e é verdade que é uma situação um pouco estranha porque, na verdade, joguei os dois primeiros jogos da competição. Mas, como disse, depois já pertencia a outro clube e foi uma situação estranha. No entanto, sinto-me parte porque nessa edição joguei pela Real Sociedad, sinceramente.

– Chegou a ser capitão num jogo…

Sim, no primeiro jogo em Becerril fui capitão, é verdade.

O drama do Bordéus

– O Bordéus chamou-o, agora está numa situação económica e institucional péssima. Esteve quase a desaparecer… Já se percebia na altura o que podia acontecer?

Sim, já se percebia. Quando cheguei, é verdade que não se falava nada, mas à medida que os dias passavam, via-se coisas estranhas dentro do clube, com as viagens, com o centro de treinos, os adeptos faziam manifestações contra os dirigentes da altura… Não sei, no fundo eu não percebia, mas via muitas coisas estranhas e, pouco a pouco, viu-se que o clube estava a afundar-se e agora está na terceira ou quarta divisão, nem sei exatamente a que corresponde isso em Espanha.

– Considera que foi melhor ter tido a oportunidade de sair para o Leganés do que ter continuado em Bordéus?

Sim, porque quando o Leganés me ligou fiquei muito entusiasmado, era uma equipa recém-despromovida, mas já estava há quatro ou cinco anos na elite, há muitos anos que perguntavam por mim e tudo mais. E como te disse: o Bordéus era uma equipa de topo, mas via-se que em um, dois, três, não sei quantos anos, algo estranho ia acontecer e, no fim, viu-se que dois anos depois de eu sair de Bordéus a equipa desceu até à quarta divisão.

Mikel Oyarzábal, “um irmão” que é símbolo da Real Sociedad e de Espanha

– Voltemos à Real Sociedad… o que tem de diferente em relação às outras equipas? Como foram os seus anos lá?

Já disse muitas vezes, no fundo é um clube que sabe tratar o jogador. É verdade que estive 10 épocas na equipa principal, mas não fico só com isso. Fui para San Sebastián com 11 anos e desde o momento em que pisei Zubieta trataram-me como um filho. Era um momento complicado para mim, sair de casa com 11 anos. Todos os dias estavam atentos a todos os jogadores que estávamos na residência, no dia a dia. Ao fim de semana preocupavam-se muito para que estivéssemos entretidos e, no fundo, é isso que faz a diferença em relação a outros clubes, saber tratar a cantera. Por isso é que tantos jogadores da casa chegam à equipa principal, porque é um clube especial que sabe tratar muito bem o jogador.

– Lá coincidiu com Oyarzábal, campeão do mundo e melhor marcador de Espanha no Mundial. Que relação tinha ou tem com o Mikel?

Com o Mikel, é um amigo, um irmão, é como se fosse da minha família… Falo praticamente todos os dias com ele e nem imaginas a alegria que me dá vê-lo tão feliz, a ganhar e tudo. Está num momento espetacular da sua vida, tanto a nível desportivo como familiar e, como te digo, a relação que tenho com ele é incrível porque, desde que ele subiu à equipa principal, estive sempre muito atento a ele, ajudei-o muito também. A família dele acolheu-me como um filho nos meus momentos difíceis, ele também veio muitas vezes à minha terra com a mulher, com o filho… Por isso, como te digo, é para mim como um irmão, um amigo, tudo.

– O Mikel consegue algo muito difícil, que é agradar a toda a gente. Normalmente os futebolistas recebem críticas de algum lado, mas o Mikel agrada a todos… Como é isso?

Porque, no fundo, é um rapaz muito tranquilo, muito ligado aos seus e sabe gerir muito bem tudo o que o rodeia. É um jovem que já está há muitos anos na elite e a fazer as coisas muito bem. Nota-se que tem a cabeça muito bem assente, também tudo o que o rodeia na família é muito bom, ajudam-no sempre e, no fim, não é por acaso que seja o capitão da Real Sociedad, não é por acaso que seja o capitão da seleção e que seja uma referência para tanta gente.

Rubén Pardo fala da sua grande relação com Mikel Oyarzábal

Flashscore

– A Real Sociedad tem tido um núcleo de jogadores formados lá muito importante no Mundial… O que significa para o clube ser relevante num momento tão importante do futebol espanhol?

É um clube que trabalha muito bem desde a cantera até à equipa principal. Não é por acaso que haja tantos jogadores que passaram pela Real ou que continuam a jogar na seleção, porque tanto na Liga como nas competições europeias estão a fazer um excelente trabalho. No fim, quando fazes um bom trabalho, a tua recompensa é, provavelmente, ir à seleção e por isso a Real está a dar tantos frutos à seleção.

Um desafio exigente

– No Krasava, à partida, o objetivo é lutar pelo acesso à Europa, pelo menos nas pré-eliminatórias. Vê uma equipa preparada para isso nestes primeiros dias?

É uma equipa muito jovem, com poucos anos de existência, que o ano passado já garantiu a manutenção e, pelo que sei, está a praticar bom futebol e este ano, com as contratações que estão a fazer e o que querem trazer, acho que pode ser uma época muito interessante. Não sei se será suficiente para entrar na Europa ou em competições, mas penso que o clube deve ir crescendo gradualmente. Tem a ambição de fazer as coisas bem, o que é muito importante, com organização, e sim, pode ser um ano entusiasmante e vamos passo a passo.

– Como se sente a nível pessoal depois de um ano sem jogar?

Foi um período complicado, com momentos difíceis. Já sabes que quando não exerces a tua profissão, surgem muitos momentos complicados depois de tanto tempo a treinar, a jogar, e chega um ano de paragem. É verdade que tive algumas propostas, mas nenhuma me seduziu e houve momentos em que pensei em deixar, em procurar outra coisa, mas continuei a treinar graças, sobretudo, aos treinadores com quem estive, que fizeram muita força para que me mantivesse motivado e com esperança no dia a dia e, no fim, este verão chegou-me esta proposta que considero muito boa. Era o que procurava, um sítio atrativo onde me sentisse motivado e, sinceramente, estou muito entusiasmado para este ano, assinei por uma época e espero jogar o máximo de minutos possível e depois logo se verá o que o futuro reserva.

– Que opções tinha?

Bem, é verdade que eu valorizava e queria uma opção assim, num país onde realmente apostassem em mim, onde me conhecessem como o treinador me conhecia. Estava à espera, é verdade, em Espanha, para ver se algum clube me ligava. É verdade que, estando um ano parado, é complicado, mas tinha esperança de continuar a jogar. Se me ligassem de Espanha ia ponderar muitas coisas e, pronto, estava em La Rioja, em minha casa, e clubes como o Logroñés ou até algum da Segunda Divisão, da primeira RFEF, nem sequer me contactaram para conversar. E, então, surgiu esta oportunidade, aqui na primeira divisão do Chipre. Já te disse que me explicaram tudo de forma muito clara, que queriam que viesse e estou feliz por estar aqui e por poder fazer uma época entusiasmante.

Encantado por descobrir o mundo

– E quando não está a pensar em futebol, a treinar, o que gosta de fazer?

Sobretudo agora que estou numa cidade nova e muito bonita como Limassol, quero descobrir coisas, quero conhecer os pontos importantes deste país, não só Limassol. Falaram-me muito bem de Nicósia, de Pafos, de Larnaca e quero aproveitar este ano que vou estar aqui para conhecer um pouco o país, as culturas… Agora, quando a minha família vier para cá, quero mostrar-lhes tudo isto.

– O que pode dizer aos seus novos adeptos sobre o que esperar de Rubén Pardo?

Nada, apenas que estejam connosco, que nos apoiem nos bons e maus momentos e que esperem de mim que vou dar tudo para deixar o clube na melhor posição possível na tabela e que vou dar tudo de mim.

 



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