A Galiza vive um momento que transcende o desporto: o regresso do Deportivo da Coruña à Primeira Divisão devolve à comunidade dois clubes na La Liga, algo que não acontecia há oito anos. Este feito não é apenas estatístico; é simbólico. Representa identidade, pertença e a afirmação de uma região que sempre viveu o futebol como expressão cultural e emocional.
Escrevo estas linhas com base nas observações que venho fazendo há mais de 30 anos sobre o futebol galego, resultado da minha atividade profissional — que me leva regularmente às principais cidades da Galiza, no âmbito das funções que desempenho na Associação Eixo Atlântico do Noroeste Peninsular, na área do desporto municipal — mas também da profunda ligação pessoal e da paixão que nutro pela região, nas suas múltiplas dimensões culturais, turísticas e desportivas, bem como das inúmeras amizades construídas ao longo destas três décadas de convivência.
Ao longo desse percurso, acompanhei de perto a evolução do futebol galego, não apenas como observador atento, mas também como adepto presente nos estádios sempre que a vida o permite, particularmente em Vigo, onde assisto com regularidade a jogos ao vivo. É verdade que, nos últimos anos, essa assiduidade diminuiu — a vida, por vezes, impõe os seus ritmos e as suas prioridades —, mas continuo a procurar não faltar aos jogos do Barcelona sempre que me é possível. E, nessas idas ao futebol, há sempre uma presença feita de saudade que me acompanha: a do meu amigo Dito, tão celtista e culé quanto eu, com quem partilhei inúmeras tardes e noites dedicadas à paixão pela bola, à conversa sem pressa e à vivência genuína do futebol.
As suas primas trabalhavam no R.C. Celta, circunstância que nos permitiu aproximar-nos ainda mais desse universo e experimentar o futebol de uma forma particularmente intensa, vivida para lá das bancadas e dos noventa minutos. Eram tempos de entusiasmo simples, de amizade e de uma relação com o futebol feita de proximidade humana, algo que, em muitos aspetos, define também a identidade do futebol galego. Essa memória — tão dis- creta quanto permanente — acompanha-me sempre que reflito sobre aquilo que o futebol galego representa para a sua gente: muito mais do que um jogo ou uma competição, uma expressão de pertença, de afetos e de identidade coletiva.
O regresso do Deportivo não surge por acaso. Depois da descida ao escalão secundário na época 2017/2018 — ano em que terminou no 18.º lugar — o clube esteve perto de regressar de imediato na época seguinte, mas acabou por falhar o objetivo na final do playoff de acesso frente ao Mallorca. A partir dessa campanha inglória, iniciou-se uma espiral negativa que culminou numa nova queda, desta vez para a terceira divisão, na época 2019/2020.
Por lá permaneceu quatro temporadas, até conseguir finalmente voltar à Liga Hypermotion (equivalente à nossa Liga 2) na época 2024/2025. Este percurso atribulado, cheio de frustrações e recomeços, só reforça o peso do momento atual.
E, ainda assim, o Deportivo nunca perdeu o apoio da sua cidade. Mesmo mergulhado nos escalões inferiores, o clube continuou a mobilizar massas como poucos na Europa. Em plena La Liga 2 e na Primera RFEF (equivalente à nossa Liga 3), o Estádio de Riazor apresentou, nas últimas três épocas, assistências que rondaram os 30 mil espectadores — números absolutamente extraordinários para divisões secundárias.
Este fenómeno não é comum. É, na verdade, a prova mais clara de que A Coruña não apoia apenas vitórias: apoia a sua história, a sua identidade e o seu lugar no mundo. O Deportivo é, para os corunheses, mais do que um clube; é um símbolo de pertença que resiste às classificações, às crises e às descidas.
Esse apoio quase militante tornou-se um símbolo da resistência corunhesa. Enquanto muitos clubes se esvaziam quando descem, o Deportivo encheu. Enquanto outros perdem alma, o Deportivo encontrou força. E é por isso que esta subida tem um sabor tão especial: é a recompensa de uma comunidade que nunca virou costas, apesar das convulsões diretivas que marcaram o pósAugusto César Lendoiro. Hoje, com a estabilização proporcionada pela entrada do empresário Juan Escotet através do grupo financeiro ABANCA, o clube reencontrou rumo, estrutura e ambição.
A dimensão deste regresso ficou evidente logo no primeiro gesto público vindo de Vigo: o técnico do Celta, Claudio Giráldez — também ele um galego de O Porriño — foi o primeiro a dar a “horabuena” ao Deportivo pela subida. Um gesto simples, mas carregado de significado. Mostra que, acima da rivalidade, existe uma consciência comum: a de que a Galiza ganha quando os seus clubes crescem.
A celebração que se viveu por toda a Galiza — sem excessos, sem provincianismos, mas com orgulho genuíno — mostra bem o que este regresso significa. Instituições, adeptos, forças desportivas e cidadãos comuns reconheceram que este momento devolve à região um peso desportivo que há muito merecia recuperar.
Com o Celta de Vigo e o Deportivo novamente juntos na elite, a Galiza volta a ter voz, presença e rivalidade saudável no principal palco do futebol espanhol. Mas mais do que isso: volta a ter esperança, ambição e projeção.
Porque, no fundo, este regresso não é apenas do Deportivo.
É da Galiza inteira.











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