«Vamos lá cambada… Deixem-se de tretas…»


Já me lembrei tantas vezes de Herman José durante o Mundial. Em especial cada vez que vi Portugal jogar e ouvi o selecionador Roberto Martínez. Não pelo sentido de humor – pelo contrário, tenho andado mais perto da urticária – mas pela interpretação de um eterno tema escrito numa parceria com o saudoso Carlos Paião, lançado em 1986 pelo personagem Zé Estebes no contexto da participação da Seleção no Mundial do México e do caso Saltillo:

«Vamos lá cambada

Todos à molhada

Que isto é futebol total.

Deixem-se de tretas

Força nas canetas

Que o maior é Portugal»

Não foi esta canção que mudou o destino de Portugal no Mundial do México – foi eliminado na fase de grupos – mas pelo menos sempre nos divertiu.

Já me lembrei tantas vezes do Padre Pio e de outros santos proclamados pela Igreja Católica sempre que ouvi Roberto Martínez falar dos jogos de Portugal. Santo a quem foi atribuído o dom da bilocação, ou seja, a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo. No caso de Martínez, as imagens de televisão confirmam: esteve no banco a comandar o jogo que todos nós vimos; mas depois fala-nos de um jogo onde só ele esteve. E eu acho isso puro egoísmo, já que, infelizmente, nenhum adepto teve oportunidade de assistir a esse encontro. Que por sinal foi bem mais interessante… Santos por Santos, preferia o Fernando. Esse ao menos conseguiu o milagre Europeu.

Ironias à parte, que Roberto Martínez reflita com o ensaísta e jornalista britânico George Orwell, o autor, entre outras obras, do Triunfo dos Porcos: «Ver o que está diante dos nossos olhos exige um esforço constante.» A preguiça mental ou a dificuldade em encarar a realidade é que se alimenta da imaginação e de mundos paralelos que ninguém mais vê. Mais tarde ou mais cedo, o exercício de vermos o que está em frente aos nossos olhos poderá não alterar o desfecho, mas ao menos permite-nos seguir em frente com a cabeça erguida e a verdadeira aprendizagem feita. A realidade tem uma característica em comum com o clima: é muito teimosa e está mesmo a borrifar-se para a opinião que temos dela…

Estaremos a ser injustos? Não há injustiça em dizermos, de boa fé, o que estamos a ver. Poderá Portugal ganhar o Mundial e obrigar os críticos a pedir desculpa? Assim ganhe o Mundial, que alegria seria, mas não há desculpas a pedir. A crítica avalia o que está a ver no momento, não no futuro. Como defendia o economista britânico John Maynard Keynes, «quando os factos mudam, eu mudo de opinião». Não é incoerência, é mudança de factos que sustentam a análise e a opinião. Não é falta de patriotismo, é análise. Feliz o homem que percebe que uma crítica lhe é mais útil para o futuro do que dez elogios. Sábio o que conseguir separar as justas das injustas, as bem das mal intencionadas. Normalmente, quem tem um sentido apurado de autocrítica tem a sabedoria para detetar essas diferenças.

Onde Martínez deveras me irrita é quando pega em tudo o que não correu bem e identifica como um passo importante de aprendizagem, essencial para o futuro. Quase tenho pena que Portugal não tenha sido goleado pela Colômbia, porque a classificação seria a mesma e pelo menos teríamos aprendido mais e seríamos ainda melhores no futuro… Mas, chegando ao mata-mata, peço encarecido que esta Seleção encarne o espírito de Sérgio Conceição quando assumiu o comando do FC Porto: que venha para ensinar, não para aprender. É que por este andar vamos aprender mais uma valiosa lição com a Croácia e ainda trazemos trabalho de casa…

Também não entendo como se prepara um jogo com a Colômbia três messes antes, a mais de dois mil metros de altitude, no Azteca, frente ao México… Ou como se prepara a RD Congo num jogo com a Nigéria, deixando de fora do onze, no Mundial, precisamente os jogadores que tiveram melhor nota no ensaio. Curiosamente, o único jogo da fase de grupos que Portugal bem tentou mas não conseguiu preparar convenientemente foi com o… Uzbequistão. Graças a Deus…

Também embirro com um discurso que nos menoriza. Portugal não chegou para aprender, para ir atrás do que os outros querem fazer durante um jogo. Não chegou para acusar ansiedade. Para ter no seu guarda-redes o melhor em campo frente a seleções inferiores. Para ser olhado como deceção. Que falhe, mas então que falhe com estilo e a querer vestir o facto que é seu…

Nada mais mata a confiança do que sentirmos que nos tomam por tolinhos. Quererem convencer-nos de uma realidade que sabemos não existir. Querem a nossa ajuda? Reconheçam que estão em dificuldades, que não estão a conseguir, que bloquearam até. Eu aceito e ajudo à minha maneira, batendo palmas e gritando Portugal. Não me contem é histórias da carochinha. E só espero, de mãos juntas em oração, que jogadores de elite como os da Seleção não acreditem em quase nada do que Martínez tem dito sobre as exibições, a atitude e a aprendizagem. Porque se acreditarem no que o selecionador tem dito, estamos perdidos.

Hoje só peço que sejam os jogadores a pegar na Seleção. Que queiram vencer e assumam o controlo. Há um ano vencemos a Liga das Nações mais por vontade deles do que por mérito do selecionador. A horas do jogo com a Croácia, uma repetida vontade de gritar «deixem-se de tretas / força nas canetas / que o maior é Portugal».



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *