Técnico Imortal – Arsène Wenger


Última atualização em 30 de junho de 2026 às 18:37

Nascimento: 22 de Outubro de 1949, em Estrasburgo, França.

Equipes que treinou: Nancy-FRA (1984-1987), Monaco-MO (1987-1994), Nagoya Grampus Eight-JAP (1995-1996) e Arsenal-ING (1996-2018).

Principais títulos por clubes: 

  • 1 Campeonato Francês (1987-1988) e 1 Copa da França (1990-1991) pelo Monaco.
  • 1 Copa do Imperador (1995) e 1 Supercopa do Japão (1996) pelo Nagoya Grampus.
  • 3 Campeonatos Ingleses (1997-1998, 2001-2002 e 2003-2004-Invicto), 7 Copas da Inglaterra (1997–1998, 2001–2002, 2002–2003, 2004–2005, 2013–2014, 2014–2015 e 2016–2017) e 7 Supercopas da Inglaterra (1998, 1999, 2002, 2004, 2014, 2015 e 2017) pelo Arsenal.

Principais títulos individuais:

  • Técnico do Ano Onze d’Or: 2000, 2002, 2003 e 2004
  • Técnico do Ano do Campeonato Inglês: 1997-1998, 2001-2002 e 2003-2004
  • Técnico do Ano da LMA: 2001-2002 e 2003-2004
  • Personalidade do Ano da BBC – Melhor Técnico: 2002 e 2004
  • Técnico do Ano pela World Soccer: 1998
  • Técnico do Ano do Campeonato Japonês: 1995
  • FWA Tribute Award: 2005
  • Eleito para o Hall da Fama do Futebol Inglês: 2006
  • Eleito para o Hall da Fama do Campeonato Inglês: 2023
  • Técnico do Ano pela France Football: 2008
  • Técnico da Década pela IFFHS: 2001-2010
  • 32º Melhor Técnico de todos os tempos pela France Football: 2019
  • 36º Melhor Técnico de todos os tempos pela World Soccer: 2013
  • Prêmio Laureus do Esporte Mundial pela carreira: 2019 

 

“Le Professeur”

Por Guilherme Diniz

Depois de alguns anos marcantes, títulos históricos e uma inédita Recopa da UEFA em 1993-1994, o Arsenal precisava de um novo rumo após a saída conturbada do treinador George Graham. Por isso, em 1996, trouxe um então desconhecido técnico francês que teria a missão de ser o “operador de milagres” de Highbury. Bem, ele fez muito mais do que isso. Fez uma revolução. Transformou um time que antes jogava um futebol chato por uma equipe que sabia o que fazer com a bola e tinha não só força física, mas também técnica. Mudou a mentalidade dos atletas, a dieta, a preparação antes dos jogos. Desenvolveu jovens e valorizou promessas. Em menos de dois anos, levantou os primeiros títulos. E, ano após ano, fez do Arsenal um dos maiores esquadrões do planeta e o primeiro a levantar a Premier League de maneira invicta. 

Highbury ficou pequeno demais para um time tão grande. E um novo estádio começou a ser construído. Isso custou muito ao Arsenal, que viu o dinheiro minguar e os reforços desaparecerem. Pois aquele técnico continuou ali, operando milagres e classificando o time ano após ano à Liga dos Campeões da UEFA, fonte de renda essencial para o pagamento dos “boletos” do Emirates Stadium. Além das vagas europeias, ele também conquistou alguns títulos e se tornou o técnico que mais tempo permaneceu em um só clube na história do torneio inglês. 

Se Herbert Chapman foi o homem que colocou o Arsenal no mapa, Arsène Charles Ernest Wenger, ou simplesmente Arsène Wenger, foi o técnico que recolocou o clube no mais alto patamar do futebol inglês e, por um tempo, da Europa. Wenger criou conceitos, deu ideias e foi o exemplo a ser seguido por vários outros clubes ao longo dos anos. Foi uma extensão do Arsenal, dentro e fora de campo, quase com o clube no próprio nome. E deixou um legado único no esporte. É hora de relembrar a carreira do Le Professeur.

Do meio de campo às pranchetas 

Mais novo dos três filhos de Alphonse e Louise Wenger, Arsène nasceu em Estrasburgo, no leste da França e na fronteira com a Alemanha. O jovem acabou passando boa parte da infância em Duttlenheim, a 20 km do sudoeste de sua cidade natal. Enquanto seu pai tinha uma loja de autopeças, sua mãe comandava um bistrô chamado La Croix d’Or, onde Arsène cresceu vendo as mais diversas pessoas bebendo, comendo e causando confusões, o que despertou no jovem o desejo de entender melhor a psicologia humana, algo que sempre o fascinou. Por trabalharem demais, os pais de Wenger não conseguiam cuidar de maneira adequada dos seus filhos, mas Duttlenheim era uma vila onde todos cuidavam de todos e Wenger teve o aporte necessário para não se perder. E foi no esporte que o garoto começou a se encontrar. Com apenas seis anos, passou a ver futebol tanto em Estrasburgo quanto na Alemanha, onde acompanhava jogos do Borussia Mönchengladbach, primeiro clube que despertou sua admiração.

Arsène Wenger
Wenger, nos tempos de jogador.

 

Já na adolescência, tentou a sorte no FC Duttlenheim, mas não teve oportunidades antes dos 12 anos. Aos 16, conseguiu espaço e, com a “esticada” que deu em altura, começou a se notabilizar pela liderança e por ter controle de bola no meio de campo. Mesmo sem ser o capitão do time, era ele quem dava os comandos e conselhos para os companheiros. Em 1969, se transferiu para o Mutzig-FRA, também da região de Alsace, pelo qual venceu a Copa de Alsace de 1971 e onde conheceu Max Hild, técnico que seria seu mentor anos depois.

Em 1973, Wenger foi jogar no Mulhouse, da segunda divisão francesa, e viveu sua melhor fase até ser contratado pelo Vauban de Estrasburgo, onde jogou por três temporadas. Em seguida, vestiu a camisa do tradicional Estrasburgo, pelo qual foi campeão do Campeonato Francês de 1978-1979, o maior título de sua carreira como jogador, embora não tenha disputado muitos jogos pelo fato de já focar mais no treinamento das equipes juvenis e do time reserva do próprio Estrasburgo.

wengerC3CoT4ZWEAo1ejo

Enquanto jogava profissionalmente, Wenger ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de Estrasburgo para estudar Política e Economia, após uma breve passagem pela Medicina. Wenger concluiu a graduação em Economia, além de visitar vários países pela seleção francesa de estudantes, pela qual acabou não jogando por estar lesionado, mas assumiu o papel de auxiliar técnico do time e de humorista da equipe, já demonstrando seu lado brincalhão e amigo que sempre o acompanhou.

Nos anos 1980, Wenger queria se aposentar e começou a pensar na carreira de treinador. Se aperfeiçoando cada vez mais, aprendeu inglês em um curso intensivo na Universidade de Cambridge e tirou sua licença de treinador no Centre de ressources, d’expertise et de performance sportives (CREPS) de Estrasburgo, concluída em 1981.

De auxiliar a treinador principal

Muito inteligente e bem conhecido em Alsace, Wenger ganhou rapidamente sua primeira chance efetiva como auxiliar técnico no Cannes, da segunda divisão, em 1983, onde ele foi responsável por coletar informações sobre os times adversários e incutir disciplina nos jogadores por meio de sessões de treinamento. Wenger passou a ver muitos vídeos dos adversários e do próprio Cannes, pondo em prática seu hábito “respirar” futebol a todo momento, a todo instante. Se o acesso à Ligue 1 não veio, o Cannes conseguiu um bom papel na Copa da França e alcançou as quartas de final, quando acabou eliminado pelo Monaco de Ettori, Amoros, Daniel Bravo e Genghini.

cannes 83 84
Wenger (o primeiro de vermelho na fila do meio, à esquerda), no Cannes de 1983-1984.

 

O trabalho de Wenger foi muito elogiado e, em 1984, o francês recebeu sua primeira oportunidade como técnico no Nancy, que disputava a elite francesa, mas não tinha tanto poder financeiro para contratar bons jogadores. A meta de Wenger era manter o clube na primeira divisão, por isso, ele recebeu da diretoria do clube carta branca para pôr em prática o trabalho que quisesse, desde que não envolvesse muitos pedidos por jogadores. Com isso, o técnico teve a chance de colocar em prática tudo o que lia e aprendia. Sua primeira meta foi ensinar ao elenco os beneficios da boa alimentação e da dieta no meio esportivo. Isso era algo quase inexistente no cotidiano futebolístico na época e uma enorme surpresa para todos quando um técnico passou a falar sobre comida e os benefícios de se evitar petiscos e alimentos gordurosos antes das partidas.

O francês ganhou o elenco e a comissão técnica, mas ainda precisava controlar suas emoções. Em determinadas partidas, Wenger ficava muito nervoso e, quando seu time perdia, não escondia o descontentamento e ficava “remoendo por dentro” – certa vez, teve que pedir para o motorista do ônibus do clube parar para que ele pudesse vomitar no acostamento de tão nervoso que estava. Wenger levava o jogo muito à sério e se cobrava muito. Tanto empenho fez o Nancy terminar em um honroso 12º lugar o Campeonato Francês de 1984-1985, à frente de clubes como PSG, Lille, Estrasburgo e Olympique de Marselha, por exemplo. 

wenger at nancy v0 wakhk20pye361

Foi no Nancy, também, que Wenger começou a melhorar jogadores mudando-os de posição. Éric Bertrand, por exemplo, contratado das divisões inferiores como atacante, virou lateral sob as mãos de Wenger, e Éric Di Meco, lateral-esquerdo, passou a jogar também como ponta-esquerda dos Chardons. Na temporada seguinte, Wenger teve ainda menos dinheiro e opções, pois a diretoria vendeu boa parte dos melhores atletas para pagar dívidas. Ainda sim, ele conseguiu manter o clube na elite, mas os milagres acabaram em 1986-1987, quando o penúltimo lugar rebaixou o Nancy para a Ligue 2.

Glórias no Principado

No verão de 1986, Wenger foi contatado pela primeira vez pelo Monaco, que pensava no treinador para um sólido projeto naquele final de anos 1980. Gérard Rousselot, mandatário do Nancy, rejeitou a proposta de encerrar o contrato de Wenger na época e só em 1987, com a queda do Nancy, que Wenger conseguiu a liberação por consenso mútuo e assinou com o clube monegasco. Antes mesmo de chegar ao Principado, Wenger tinha em mente as peças que queria para montar um time competitivo, afinal, no Monaco ele teria verba para contratar bons jogadores. Mas, no início, ele conseguiu os primeiros nomes sem gastar nada! O meio-campista inglês Glenn Hoddle, de saída do Tottenham, e o defensor francês Patrick Battiston, também de saída do Bordeaux, vieram sem custos graças ao fim de seus contratos já em 1987-1988.

Wenger Monaco
Arsène Wenger (ao centro) com os novos reforços Mark Hateley (à esquerda) e Glenn Hoddle (à direita), logo após sua chegada como técnico do Monaco em 1987. Foto: Getty Images.

 

Na sequência, o atacante inglês Mark Hateley, sem espaço no Milan de Sacchi, também foi contratado e ganhou a garantia de que seu compatriota Hoddle jogaria ao seu lado no Monaco. Com eles e nomes como Jean-Luc Ettori, Manuel Amoros, Luc Sonor e Youssouf Falickou Fofana, o Monaco fez um campeonato marcante, liderou desde a segunda rodada e levantou o título da Ligue 1 de 1987-1988 com seis pontos de vantagem sobre o Bordeaux. Foram 38 jogos, 20 vitórias, 12 empates e apenas seis derrotas em 38 jogos, com 53 gols marcados e 29 gols sofridos. Mark Hateley, com 14 gols, foi o artilheiro do time e o 3º na lista dos goleadores da competição, atrás apenas de Jean-Pierre Papin (19 gols, do Olympique de Marselha) e Patrice Garande (17 gols, do Saint-Étienne).

Na temporada 1988-1989, Wenger foi buscar um atacante de muito talento no futebol africano: o liberiano George Weah, que se tornaria o Melhor Jogador do Mundo de 1995. Após receber a recomendação de Weah de Claude Le Roy, então técnico da seleção camaronesa e que acompanhava o campeonato nacional e o Tonnerre Yaoundé, clube de Weah, Wenger viajou até Camarões para ver o atacante em ação e gostou muito do que viu. A chegada de Weah deu ainda mais força ofensiva ao Monaco e o técnico foi muito importante para a adaptação do liberiano no futebol francês.

“Os jogadores liberianos eram desconhecidos; os agentes não vinham à Libéria. É um país muito pequeno. Não é um país de futebol. Costumávamos jogar basquetebol, mas depois da Revolução começamos a promover desportos como o futebol. Disse ao Wenger que tinha muitos amigos, que eram bons jogadores, e perguntei se era possível ajudar a trazê-los para a Europa. O Arsène disse: ‘Sem problema. Traga-os um de cada vez. Se forem bons, nós os manteremos. Se não, voltam.’ Trouxe sete jogadores, como o Christopher Wreh. Wenger foi como um pai para mim. Ele me transformou não apenas no jogador que fui, mas no homem que sou”.George Weah, em entrevista ao The Telegraph (UK), 22 de janeiro de 2000.

Weah marcou 14 gols no Campeonato Francês de 1988-1989 e fez uma parceria marcante com Glenn Hoddle, artilheiro do time naquela época com 18 gols. Mesmo com o melhor ataque, o Monaco acabou na terceira posição e viu o Olympique de Marselha ficar com a taça de campeão francês. O Monaco ainda disputou a final da Copa da França e o algoz foi, também, os marselheses: 4 a 3, com show do atacante Papin, autor de três gols para o time azul e branco.

13589 Monaco first title
Com Arsène Wenger (erguendo o troféu da Copa da França de 1991 na foto), Monaco viveu grandes momentos.

 

No começo da década de 1990, o Monaco não conseguiu quebrar a hegemonia marselhesa na Ligue 1, mas fincou pé como um dos mais fortes times da França. E isso ficou refletido na temporada 1990-1991, quando o esquadrão de Wenger derrotou o próprio Marselha na final da Copa da França por 1 a 0 (gol de Gérald Passi, aos 90’) e celebrou o título nacional. Na temporada seguinte, a equipe fez uma brilhante campanha na Recopa da UEFA ao despachar Swansea City-WAL (10 a 1 no agregado), Norrköping-SUE (3 a 0 no agregado), Roma-ITA (1 a 0 no agregado) e Feyenoord-HOL (3 a 3 no agregado, com a vaga garantida graças ao gol qualificado) e chegou à decisão.

A força da equipe de Wenger começava no gol, com Jean-Luc Ettori, antigo arqueiro da seleção e símbolo dos monegascos. A zaga tinha Roger Mendy, figura importante da seleção senegalesa, ao lado do jovem Emmanuel Petit, aos 21 anos e que seria um dos mais polivalentes jogadores franceses de seu tempo graças à Wenger, que soube explorar a inteligência tática e fôlego acima da média do jogador. Luc Sonor e Patrick Valéry ocupavam as laterais. O meio tinha sua maior dose de talento com Rui Barros, astro português trazido da Juventus. Jérôme Gnako, Marcel Dib e Gérald Passi completavam o setor, todos com passagens pela seleção. Já na frente, o marfinense Youssouf Fofana vinha do título na Copa Africana de 1992 e tinha a companhia de George Weah, já reconhecido entre os melhores atacantes do mundo. O banco tinha o luxo de contar com promessas do calibre de Lilian Thuram e Youri Djorkaeff, ambos futuros campeões do mundo com a França, assim como o já citado Petit.

monaco 88
weah monaco 444
Weah, pelo Monaco

 

monaco 1992 tactic
O Monaco vice-campeão da Recopa: 4-4-2 já era o esquema clássico de Wenger.

 

Na final, o Monaco teve pela frente o forte Werder Bremen-ALE de Otto Rehhagel, que acabou derrotando os monegascos por 2 a 0 no Estádio da Luz e ficou com o título. Era a primeira das muitas deceções continentais de Wenger, que teria em torneios europeus seu “calcanhar de Aquiles” ao longo da carreira. Dois anos depois, em 1994, Wenger levou o Monaco a uma semifinal de Liga dos Campeões da UEFA pela primeira vez na história do clube. 

Os monegascos conseguiram a vaga após o escândalo de manipulação de resultados que baniu o Olympique de Marselha do torneio na época – o meia Jean-Jacques Eydelie e o diretor Jean-Pierre Bernès subornaram três jogadores do Valenciennes no intervalo de um jogo contra o OM para que o time não machucasse ninguém do Olympique, pelo fato de dias depois o OM ter a final da Liga dos Campeões da UEFA pela frente. O OM acabou vencendo por 1 a 0 o Valenciennes e também a final da Liga dos Campeões, mas um dos jogadores subornados, Jacques Glassmann, denunciou o esquema e o OM perdeu o título francês, a vaga na Liga dos Campeões da UEFA em 1993-1994 e a vaga no Mundial Interclubes de 1993. Tapie e Bernès foram condenados a 2 anos de prisão por suborno e corrupção, enquanto Eydelie ficou apenas 17 dias preso e suspenso do futebol por 18 meses. Em 1995, Jacques Glassmann recebeu o Prêmio Fair Play da FIFA por sua recusa em participar do escândalo.

arsene wenger26BAFA7200000578 2998614 image a 26 1426590016995
Wenger priorizava muito o condicionamento físico dos atletas, como visto nessa foto de 1992.

 

Como o PSG, vice-campeão, declinou da vaga na Liga dos Campeões e preferiu disputar a Recopa da UEFA como campeão da Copa da França, o Monaco, terceiro colocado na Ligue 1 de 1992-1993, ficou com a vaga da França na competição. Após superar AEK Atenas-GRE e Steaua Bucareste-ROM nas fases preliminares, o Monaco terminou na segunda colocação o Grupo A, atrás apenas do Barcelona-ESP de Cruyff e se garantiu na semifinal, onde não resistiu ao fortíssimo Milan-ITA de Capello, que venceu por 3 a 0 no San Siro (os italianos jogaram em casa por terem melhor campanha) e foi para a decisão, na qual aplicou um 4 a 0 no Barcelona e ficou com o título.

Falando em manipulação de resultados, o caso que cassou o título francês do Olympique de 1993 e manchou profundamente o futebol do país foi a razão pela qual Arsène Wenger quis deixar o país a partir de 1995 e tentar outros rumos para a carreira.

“Uma das razões que me fizeram deixar a França foi aquele caso de manipulação de resultados. Todos sabiam que eles faziam aquilo várias vezes. Fomos vice-campeões ou terceiro colocados depois deles todo ano praticamente. Nossa credibilidade depende de um futebol honesto. Sabíamos o que acontecia na França, apesar de eu nunca ter sido abordado para entregar um jogo. Eu estou no futebol porque eu amo o futebol. Fico feliz de ver os jogadores ganharem dinheiro por seu trabalho porque foi por isso que lutamos. Mas algumas pessoas não se importam com o jogo, apenas com o dinheiro”, disse Arsène Wenger no livro The Professor: Arsène Wenger, de Myles Palmer, em 2005.

Wenger chegou a ser procurado pelo Bayern em 1994, mas a diretoria do Monaco não quis liberá-lo. Até que, em setembro de 1994, um início ruim de temporada fez com que o clube monegasco encerrasse a passagem de Wenger no Principado. Entre 1987 e 1994, ele comandou o clube em 350 jogos, com 166 vitórias, 110 empates e 74 derrotas.

Mais estudos e passagem vitoriosa pelo Japão

Sem compromissos, Wenger viajou até os Emirados Árabes Unidos para uma série de conferências da FIFA, que serviu para estreitar ainda mais as relações do treinador com a entidade máxima do futebol e entender mais o esporte de um outro campo de visão. Wenger se tornou membro do comitê técnico da entidade e foi responsável por analisar a Copa do Mundo de 1994, além de realizar uma apresentação para treinadores de nações emergentes no futebol. E o discurso do treinador encantou os japoneses, que haviam acabado de reestruturar sua liga nacional de futebol. Entre eles estavam representantes do Nagoya Grampus Eight, que tentou convencer Wenger a dirigir o time amarelo e vermelho. As conversas duraram pelo menos dois meses até o francês aceitar o desafio e ser anunciado em dezembro de 1994. 

wenger japan

O início do trabalho do francês não foi fácil e, após uma série de derrotas consecutivas na J-League, o treinador mudou seu estilo e começou a cobrar mais desempenho dos atletas, deixando de lado o jeito amigável de tratar os jogadores. Na pausa da temporada, levou os atletas até Versalhes (FRA), onde impôs um duro (e peculiar) regime de treinamento. Em alguns treinos, ele fazia com que os próprios atletas tomassem as decisões em campo, com Wenger apenas observando. Quando alguém tentava alguma explicação e se dirigia a ele, ele dizia, aos berros: 

“Está olhando para mim por quê? Decida você mesmo! Por que você não pensa?” e também “Não olhe para mim e me pergunte o que fazer com a bola!”. 

Essas atitudes fizeram muito bem para o Nagoya e para jogadores específicos, entre eles o sérvio Dragan Stojkovic, que virou o grande nome do meio de campo do time japonês na reta final da temporada. Antes na parte de baixo da tabela, o time venceu 17 dos 27 jogos seguintes e terminou no 3º lugar o Campeonato Japonês de 1995, com Wenger recebendo o prêmio de melhor técnico do ano. O Nagoya ainda brilhou na Copa do Imperador, quando despachou os rivais pelo caminho e, na final, derrotou o Sanfrecce Hiroshima por 3 a 0 e ficou com o título no Estádio Nacional de Tóquio. Meses depois, os comandados de Wenger levantaram a Supercopa do Japão, com vitória por 2 a 0 sobre o Yokohama Marinos.

O sucesso rápido, assim como aconteceu no Monaco, fez Wenger virar ídolo da torcida do Nagoya e uma celebridade no Japão. O treinador ganhou os holofotes da mídia e voltou a ser notícia em seu país. O Estrasburgo chegou a entrar em contato com o treinador em meados de 1996 e tentou repatriar o francês. No entanto, Wenger já tinha olhos para outro destino: Londres, mais precisamente as bandas de Highbury…

O “desconhecido” 

Depois de tantas glórias, o Arsenal viu o fim de uma era na temporada 1994-1995. Em fevereiro de 1995, o técnico George Graham acabou demitido após ser descoberto o pagamento ilegal de  425 mil libras ao treinador feito pelo agente Rune Hauge durante as transações dos jogadores John Jansen e Pal Lydersen, em 1992. Graham ganhou a quantia por ele intermediar e indicar jogadores representados por Rune Hauge. Mesmo tendo devolvido o dinheiro, que ele alegou ser um “presente não-solicitado”, Graham foi banido do futebol inglês por 12 meses pela FA e só voltaria em 1996, para treinar o Leeds United. Sem Graham, o Arsenal foi comandado por Stewart Houston (assistente de Graham) e fez uma péssima temporada, terminando apenas na 12ª colocação da Premier League. Por outro lado, o time voltou a disputar uma final da Recopa da UEFA, mas caiu diante do Real Zaragoza, que venceu os ingleses por 2 a 1 com um gol na prorrogação.

wenger arsenal debut

Precisando de uma reviravolta, o clube de Londres entrou em contato com Arsène Wenger ainda em 1995, mas apenas em 1996 que as conversas fluíram melhor. Wenger permaneceu no Nagoya até o final de agosto de 1996 antes de fechar contrato com o Arsenal. Apesar do pouco tempo na Ásia, Wenger guardou bons momentos e disse que o país o ajudou a redescobrir a paixão pelo futebol, que ficou abalada após o escândalo de resultados de 1993, além de melhorar seu temperamento e jeito de ser. 

“A experiência no Japão, onde fui treinador do Grampus Eight, me ajudou muito. Lá, todos são controlados. Eles riem de você se você demonstrar emoção. Às vezes fico bravo no vestiário, mas não demonstro minha raiva em público. Demonstro o mesmo comportamento com os jogadores que demonstro em público.”Arsène Wenger, em entrevista ao The People (ING), novembro de 1997.

O responsável por levar Wenger ao Arsenal foi o vice-presidente do clube na época, David Dein, que sempre acreditou que a ida do francês a Highbury foi mística e definida pelo destino, como ele contou à BBC em 21 de março de 2014. 

“Sempre tive interesse pelo futebol mundial. Eu conhecia o nome dele, mas nunca o havia encontrado até 1989, quando ele apareceu, de forma bastante surpreendente, em Highbury, para assistir a um jogo. Minha esposa, Barbara, estava no lounge de coquetéis. Ela havia conseguido escapar do que na época era a Sala das Damas — que, eufemisticamente, as pessoas costumavam chamar de ‘Armário da Vassoura’ — e começou uma conversa com Arsène. Eu estava na sala da diretoria naquele momento, e ela me perguntou se eu sabia que Arsène Wenger, técnico do Monaco, estava no lounge.

Então fui até lá no intervalo, me apresentei a Arsène e perguntei: ‘O que você está fazendo aqui?’. Ele respondeu: ‘Acabei de vir da Turquia’. Era a pausa da temporada na França, e ele não voltaria a Monaco por alguns dias. Ele disse: ‘Estou apenas passando a noite aqui’. Então eu perguntei: ‘O que você vai fazer esta noite?’. Ele respondeu: ‘Nada’. Eu disse: ‘Bem, minha esposa e eu vamos jantar na casa de um amigo, gostaria de se juntar a nós?’. Ele respondeu: ‘Seria ótimo’.

Naquela noite, nós o levamos para jantar na casa do nosso amigo. Vindo de Estrasburgo, seus dois primeiros idiomas eram francês e alemão — e seu inglês não era dos melhores naquela época —, mas ele se sentiu bastante à vontade. Acontece que nosso amigo trabalhava no meio artístico e decidiram brincar de mímica no fim da noite. Eu perguntei a Arsène: ‘Quer jogar?’. Ele respondeu: ‘OK’, e cerca de dois minutos depois já estava encenando Sonho de uma Noite de Verão. Pensei: ‘Esse cara tem algo especial, é um pouco diferente’. Naquele instante, foi como um relâmpago, como se eu visse no céu: ‘Arsène para o Arsenal, é o destino, um dia ele será nosso treinador’.”

Arsene Wenger
Wenger em sua primeira coletiva, em Setembro de 1996. Foto: AP Photo/Photo/David Cheskin

 

Quando foi anunciado, Wenger despertou enorme curiosidade na mídia inglesa e muita gente nem sequer conhecia o técnico. David Dein chegou a conversar com Glenn Hoddle e pediu a opinião do jogador sobre seu ex-técnico, e ele disse: “Ele é um cara diferente”. Dein afirmou que em todos os lugares que ia, as pessoas diziam a mesma coisa: “Ele é um cara de classe”. 

“As manchetes eram: ‘Arsène quem?’. Lembro de ir ao centro de treinamento para contar aos jogadores antes que fosse anunciado publicamente. Eu disse aos rapazes: ‘Temos um novo treinador começando hoje, é Arsène Wenger’, e uma voz lá do fundo respondeu: ‘Quem diabos é esse?’. Qualquer contratação de treinador sempre envolve risco, mas essas coisas são riscos calculados. Eu sempre sigo o lema da tartaruga: você nunca chegará a lugar algum se não colocar o pescoço para fora.

Pense em tudo o que Arsène mudou, não apenas no Arsenal, mas no futebol inglês em geral: métodos de treinamento, controle alimentar, táticas, estilo de jogo. Nos anos 1980 e início dos anos 1990, havia uma forte cultura da bebida no futebol inglês, de forma geral e certamente no Arsenal. Nós tínhamos um time de Premier League de bebedores. Arsène precisou acabar com tudo isso. Ele fez os rapazes entenderem seus corpos, respeitá-los, fazer a coisa certa, treinar adequadamente, chegar no horário. Foi uma revolução”. David Dein, em entrevista à BBC, março de 2014.

O estranhamento não foi apenas na imprensa, mas também no elenco do Arsenal da época. O capitão Tony Adams, por exemplo, chegou a dizer, ao The Telegraph: “A princípio, pensei: ‘O que esse francês sabe de futebol? Ele usa óculos e parece mais um professor. Não vai ser tão bom quanto o George [Graham]. Será que ele sequer fala inglês direito?’”. Além disso, Wenger teria que quebrar uma escrita de que jamais na história do Campeonato Inglês um técnico que não fosse inglês ou escocês havia vencido o torneio nacional. Seria necessário um milagre. Pois Wenger iria fazer muito mais do que isso.

A revolução

Como disse David Dein, uma das primeiras ações de Wenger no Arsenal foi reformular completamente a dieta dos atletas e acabar com vícios (em especial a bebida), alimentos gordurosos e doces. Ele assegurou aos jogadores experientes que eles tinham futuro no clube, mas observou que o elenco estava “um pouco enxuto” e precisava de competição por vagas. Por isso, chegaram nomes como Patrick Vieira – que seria um dos principais jogadores de Wenger e viraria uma estrela do futebol mundial -, Nikolas Anelka, Rémi Garde, John Lukic e Valur Gíslason. 

O técnico adotou uma abordagem prática nos treinos, energizou o elenco e tomou medidas para mudar a cultura de consumo de álcool que afetava o grupo. Embora inicialmente ele permitisse que os jogadores tomassem uma cerveja, eles foram proibidos de beber nos dias de folga e no lounge dos jogadores. Wenger focou muito sua atenção ao capitão Tony Adams, que estava nos estágios iniciais de sua recuperação do alcoolismo. Nunca muito disposto a falar sobre si mesmo, Wenger levou cerca de dois anos para se abrir com Tony Adams e compartilhar suas memórias sobre o abuso de álcool que, para o bem ou para o mal, ajudou a engordar os cofres da família. 

“Foi mais tarde que ele realmente teve compaixão por isso. Ele compartilhou coisas comigo, falou sobre ter crescido em um pub em Estrasburgo e observado como o álcool mudava as pessoas, o efeito que a bebida tinha sobre elas”, comentou Adams, ao The Guardian (ING), em agosto de 2003. 

wenger coventry 1996
Foto: Acervo / Arsenal

 

O jeito mais contido (mas de parceiro) de Wenger foi um divisor de águas no Arsenal e nos jogadores, tão acostumados a treinadores que faziam com que copos e garrafas voassem pelo vestiário e proferissem berros ensurdecedores. Wenger era totalmente diferente. Sabia conversar, explicar. Ainda sobre a dieta, fez com que os atletas comessem junto com a comissão técnica, trocou a carne vermelha por frango e aboliu qualquer guloseima, o que rendeu uma anedota curiosa.

“Houve um choque cultural. Eu estava no ônibus do time voltando de Aston Villa. Depois da refeição, de repente surgiu um coro de todos os jogadores dizendo: ‘Queremos nossas barras de Mars de volta! Queremos nossas barras de Mars de volta!’. Ele se virou, balançando o dedo, e disse: ‘Ah, não’. Foi um momento bem-humorado, mas eles perceberam que as coisas precisavam mudar para melhor.”David Dein, em entrevista à BBC, março de 2014.

Essas atitudes mudaram completamente o desempenho dos atletas, que ficaram mais em forma e com o fôlego revigorado. No dia a dia, o clima melhorou bastante, e os jogadores ingleses frequentemente pregavam peças em Wenger para aliviar a hostilidade e o apelidaram de “Inspetor Clouseau” – o policial francês fictício dos filmes da série “A Pantera Cor-de-Rosa” -, devido ao seu jeito desajeitado. Tony Adams dizia que seu senso de humor ajudava a construir o espírito de equipe que o Arsenal precisava. “Wenger não só adora dar boas risadas, como também consegue rir de si mesmo. Ele é esse sábio desengonçado.

arsene wenger tony adams premier league trophy 1998
Wenger com seu primeiro troféu da Premier League, em 1998, ao lado do capitão Tony Adams. Foto: Darren Walsh / Action Images / Acervo Premier League

 

A estreia do técnico foi um triunfo por 2 a 0 sobre o Blackburn Rovers, em 12 de outubro de 1996, fora de casa, com dois gols de Ian Wright. Naquele dia, o Arsenal jogou num 3-5-2, uma das muitas variações táticas que ele usaria no time. Aliás, Wenger jamais teria um padrão de jogo definido. Mudaria o time conforme a necessidade e o adversário, sempre em prol do bom jogo e da vitória. Na primeira temporada, Wenger conduziu o Arsenal ao 3º lugar da Premier League com 68 pontos, sete atrás do campeão Manchester United, a principal força do torneio na época. Mesmo assim, o time de Wenger teve a melhor defesa da competição – 32 gols sofridos em 38 jogos – e o vice-artilheiro do torneio, o goleador Ian Wright, autor de 23 gols, dois a menos do que Alan Shearer. 

O primeiro Double

O elenco do Arsenal para a temporada 1997-1998 já era bom, mas ficou ainda melhor com as chegadas do defensor Grimandi, conhecido de Wenger dos tempos de Monaco, Marc Overmars, ótimo ponta-esquerda revelado pelo Ajax, e Emmanuel Petit, outro desejo de Wenger, ex-Monaco. Com isso, a equipe de Londres pôde brigar de igual para igual com Manchester United e Newcastle, os dois mais poderosos times da época, e fez uma campanha consistente na Premier League. Nos primeiros 12 jogos, os Gunners não perderam e permaneceram na liderança por cinco rodadas seguidas até caírem para a vice-liderança após derrota por 3 a 0 para o Derby County.

double 1998

A volta por cima veio na rodada 14, quando a equipe enfrentou o Manchester United de Ferguson e, jogando em Highbury, conseguiu a vitória por 3 a 2, com gols de Anelka, Vieira e Platt. Apesar da vitória, o Arsenal voltou a tropeçar nas rodadas seguintes e chegou a cair para o sexto lugar no final do primeiro turno. Com duas derrotas em casa nesse meio tempo – 1 a 0 para o Liverpool e 3 a 1 para o Blackburn Rovers – Wenger convocou uma reunião urgente com os jogadores no final de 1997, na qual todos perceberam que o time precisava de uma reviravolta. A conversa foi bastante transparente, com verdades inconvenientes ditas, dedos apontados, aquelas coisas típicas do futebol e que fazem a diferença para motivar os jogadores – ou estragar de vez o ambiente. Wenger deixou o elenco ditar o rumo da conversa e os zagueiros mais experientes deixaram claro que queriam que Vieira e Petit, que jogavam muito mais à frente na época, dessem cobertura para a zaga não ficar tão desprotegida.

A chacoalhada deu certo. E, a partir da vitória sobre o Leicester City de 26 de dezembro de 1997, o Arsenal permaneceria 18 jogos sem perder, com uma sequência de 10 vitórias seguidas justamente na reta final do torneio. O ponto alto dessa jornada foi a vitória sobre o Manchester United em pleno Old Trafford por 1 a 0, gol de Overmars, na 28ª rodada, triunfo que provou de vez que os Gunners estavam na briga pelo título. Na 33ª rodada, a goleada por 5 a 0 sobre o Wimbledon recolocou a equipe de Wenger na liderança, de onde não saiu mais. O título foi confirmado na antepenúltima rodada, com triunfo por 4 a 0 sobre o Everton em casa, com dois gols de Overmars, um de Tony Adams e um contra de Bilic. Nas duas rodadas finais, os comandados de Wenger tiraram o pé já se preparando para a final da Copa da Inglaterra e perderam as partidas derradeiras, mas quando já podiam perder.

Em 38 jogos, foram 23 vitórias, nove empates e seis derrotas, com 68 gols marcados e 33 gols sofridos. Dennis Bergkamp, com 16 gols, foi o artilheiro do time na competição e o vice-artilheiro geral. O craque holandês ganhou ainda o prêmio de melhor jogador da temporada e Wenger o prêmio de melhor técnico. Alem disso, Wenger se tornou o primeiro técnico não-britânico a vencer a Premier League.

overmars 3072
Overmars e o gol que colocou os Gunners de vez na rota do título. Foto: Shaun Botterill/Getty Images

 

No dia 16 de maio de 1998, o Arsenal completou sua temporada fabulosa com o Double ao derrotar o Newcastle por 2 a 0 na final de Wembley, com gols de Overmars – vivendo grande fase – e Anelka. A taça veio mesmo sem Bergkamp, suspenso. A conquista fez de Wenger o primeiro técnico não-britânico a conquistar o Double (campeonato + copa) e coroou um trabalho fantástico e reconhecido por todos na Inglaterra. Wenger criou um time irrepreensível, cujos talentos individuais formaram uma equipe que sabia defender, atacar e jogar com autoridade e beleza. Ryan Giggs, meio-campista do Manchester United na época, comentou tempo depois ao The Guardian que aquele time de 1997-1998 foi um dos mais difíceis que ele enfrentou no futebol inglês.

“Para mim, pessoalmente, o time mais difícil do Arsenal foi o que conquistou a dobradinha em 1997-98. Eles tinham um pouco de tudo. Qualidade com [Dennis] Bergkamp, ​​velocidade com [Nicolas] Anelka e [Marc] Overmars, a experiência da linha defensiva e a garra de [Patrick] Vieira e [Emmanuel] Petit no meio-campo.”

Wenger conseguia aliar força física, passes rápidos, técnica e inteligência tática com gana pela vitória. Tudo o que vários outros times do Arsenal não tiveram no passado. Era isso que o torcedor tanto desejou. E que faria do clube um dos mais vitoriosos do país dali em diante.

A contratação de Henry

Na temporada 1998-1999, o Arsenal manteve boa parte de seus jogadores e só deu adeus ao ídolo Ian Wright, que se transferiu para o West Ham. No mercado de transferências, destaque para as compras do meio-campista Ljungberg e do atacante nigeriano Kanu. Mais uma vez, o time de Wenger travou batalhas marcantes contra o Manchester United de Ferguson, que entrou na ponta dos cascos naquela época. No início, tudo parecia conspirar a favor dos Gunners, que venceram a Supercopa da Inglaterra com uma vitória por 3 a 0 sobre o United. Tempo depois, apesar de colecionar empates no começo do torneio – quatro seguidos – o Arsenal venceu de maneira categórica os Red Devils na rodada 6, em Highbury, por 3 a 0, com gols de Adams, Anelka e Ljungberg. O problema é que a consistência não continuou e a equipe oscilou muito entre novembro e dezembro, com três empates e duas derrotas que afastaram o time de Wenger do pelotão de frente. Na época, ele chegou a proferir uma anedota que entrou para a história:

“Talvez tenhamos dado demais aos nossos torcedores ao conquistarmos o Double. Depois de comer caviar, é difícil voltar a comer salsichas.”

Henry Wenger
O momento que mudou para sempre a história do Arsenal: a chegada de Henry, em 1999.

 

O torcedor do Arsenal achava que o time iria seguir no modo automático em 1998-1999. Mas não foi bem assim. Os Gunners se recuperaram a partir da 18ª rodada e emendaram 19 partidas sem perder, mas o United ficou com o título com a diferença mínima de um ponto: 79 a 78. O Arsenal perdeu um jogo a mais que o United – 4 derrotas contra 3 dos Red Devils – e isso custou o caneco, além, claro, dos tropeços no começo do torneio e da derrota na penúltima rodada diante do Leeds United por 1 a 0. 

Um fato em destaque é que o time londrino levou apenas 17 gols em 38 jogos, enquanto o United sofreu 37 tentos. No ataque, a equipe de Wenger marcou apenas 59 gols, já os Red Devils anotaram 80 gols. Na Liga dos Campeões da UEFA, o Arsenal acabou eliminado ainda na fase de grupos e, nas copas nacionais, caiu diante do Chelsea na Copa da Liga (na 4ª fase) e do United na Copa da Inglaterra (na semifinal, com gol de Giggs na reta final da prorrogação do segundo jogo). Os Red Devils levantaram o histórico Treble naquela temporada.

Na temporada 1999-2000, Wenger ficou sem Anelka, negociado junto ao Real Madrid por mais de 23,5 milhões de libras, e precisava de um companheiro ideal para Bergkamp no ataque. Wenger conseguiu Davor Suker, croata que brilhou na Copa do Mundo de 1998. Mas o desejo ainda era alguém jovem. E esse alguém já era campeão do mundo com a seleção da França, havia passado pelo Monaco e poderia ser devidamente lapidado por Wenger. Um tal de Thierry Henry, de 22 anos…

henry monaco
Um novato Thierry Henry (ainda de dreads!) pelo Monaco.

 

Wenger conhecia o jovem desde os tempos de Monaco e sabia que Henry gostaria de trabalhar com ele um dia. Antes do negócio ser fechado, o atacante se encontrou com Wenger durante um voo. Em um bate-papo, ele afirmou que gostaria de defender o Arsenal – onde Wenger estava trabalhando. O treinador ficou pensando naquelas palavras. E, no momento certo, Henry foi contratado por mais de 11 milhões de libras em negociação com a Juventus. Por mais que Anelka tivesse algumas qualidades, Henry era obviamente um craque muito melhor. E Wenger sabia disso. 

“Thierry Henry é uma adição valiosa ao nosso elenco. Ele é um jovem atacante internacional que será um grande trunfo para o Arsenal. Ele tem boa experiência tanto em clubes quanto na seleção e fortalecerá consideravelmente nosso poder de ataque. […] Thierry é muito mais extrovertido do que Nicolas era. Ele é um jogador de equipe que se esforça ao máximo pelo time. Ele tem um bom espírito e uma boa mentalidade para um jogador jovem e já adquiriu muita experiência em nível internacional. Ele pode jogar aberto ou no centro e faz tudo ser possível quando está com a bola. Tem velocidade, força e um ótimo drible. Eu gostaria de colocá-lo no centro, seja como segundo atacante ou como centroavante principal.”Arsène Wenger, em entrevista à BBC, 03 de agosto de 1999.

BuatMDNCYAAAJKAdebute henry 1999 leicester
Henry no seu debute pelo Arsenal, em 06 de agosto de 1999, contra o Leicester City.

 

De fato, Henry jogava como ponta na Juventus. E Wenger via no atacante a oportunidade de transformá-lo em centroavante ou mesmo segundo atacante. E aquilo realmente aconteceu, com paciência e treinamento. Nos Gunners, uma mudança tática produzida por Wenger mudou a forma de Henry jogar, potencializando suas virtudes e transformando o atacante francês em uma máquina de fazer gols. Ele passou da ponta esquerda para virar centroavante, tornando-se muito mais letal. 

No Arsenal, Henry marcou tudo quanto foi tipo de gol: de cabeça, de direita, de esquerda, de dentro e de fora da área. No primeiro ano com o novo clube, houve desconfiança pelo fato do atacante não ter marcado nas oito primeiras partidas. Isso seria deixado para trás conforme ele fosse se adaptando ao estilo de jogo inglês, certamente mais físico comparado ao que ele estava acostumado. E o Arsenal, enfim, deslanchou.

Vice na Premier League e nova decepção europeia

Assim como na temporada anterior, o Arsenal começou levantando a Supercopa da Inglaterra diante do United, em Wembley, com triunfo por 2 a 1 na decisão – gols de Kanu e Ray Parlour. Na Premier League, o título foi um sonho distante, pois o United abriu uma vantagem enorme, nadou de braçadas e venceu com enormes 18 pontos de vantagem, perdendo apenas três jogos. O Arsenal foi vice-campeão, mas viu seu ataque funcionar com Henry, Bergkamp e Kanu, que ajudaram os Gunners a chegarem aos 73 gols em 38 jogos, com Henry sendo o artilheiro da equipe com 17 gols, seguido de Kanu, com 12. Nas copas nacionais, o Arsenal não foi bem e, na Liga dos Campeões, terminou na terceira colocação o Grupo B, o que lhe deu uma vaga na Copa da UEFA.

E foi no torneio continental que Wenger concentrou as forças da equipe em busca de uma glória inédita para o time de Londres. Os Gunners superaram Nantes-FRA (3 a 0 e 3 a 3), Deportivo La Coruña-ESP (goleada por 5 a 1 e derrota por 2 a 1), Werder Bremen-ALE (2 a 0 e 4 a 2 fora de casa, com três gols de Ray Parlour) e Lens-FRA (1 a 0 e 2 a 1) até a vaga na final ser consolidada. O adversário foi o Galatasaray-TUR de Taffarel, Gheorghe Popescu, Korkmaz, Hagi e Sukur, simplesmente o maior esquadrão da história do futebol turco e que serviu como base da seleção da Turquia que alcançou o 3º lugar na Copa do Mundo de 2002.

Arsenal 1990s2000s
O Arsenal do final dos anos 1990, já com Henry: time começava a ter a espinha dorsal dos Invencíveis.

 

galt
Campeão da Copa da UEFA de 2000, o Galatasaray derrotou o Arsenal de Wenger e serviu como base da melhor Turquia de todos os tempos.

 

A final foi equilibrada e com muitos chutes a gol, mas o placar permaneceu 0 a 0 tanto no tempo regulamentar quanto na prorrogação, mesmo após Hagi ser expulso. Nos pênaltis, os turcos venceram por 4 a 1 e celebraram o inédito título. Foi a segunda derrota de Wenger em uma decisão continental, que se somou ao revés da Recopa de 1992 pelo Monaco. 

“Não conseguimos aproveitar a vantagem (de ter um homem a mais a partir dos 4’ do primeiro tempo da prorrogação) porque, naquele momento, estávamos com as pernas cansadas e não podíamos nos dar ao luxo de partir para o ataque com medo de sofrer um Gol de Ouro e o jogo acabar ali. Eu já havia tirado Dennis Bergkamp de campo antes do fim do tempo regulamentar e, com Marc Overmars sofrendo com uma lesão muscular na coxa, não tínhamos jogadores ofensivos suficientes. Melhoramos no segundo tempo, mas, na verdade, não conseguimos encontrar nosso verdadeiro jogo hoje. É muito decepcionante, porque esta é a terceira taça que perdemos nesta temporada por causa dos pênaltis.” Arsène Wenger, no pós-jogo.

Dos vices ao novo Double

Wenger precisou mexer em seu elenco mais uma vez na temporada 2000-2001. Sabia que não podia perder terreno, principalmente pelo fato de o Liverpool começar a crescer graças aos jovens Gerrard e Owen, estrelas que iriam direto para a seleção inglesa. Por isso, o clube vendeu alguns atletas para fazer caixa como Overmars e Petit, negociados ao Barcelona por 32 milhões de libras, Davor Suker, Christopher Wreh, entre outros. Por outro lado, chegaram nomes importantes para o elenco como o meio-campista francês Robert Pires, o meio-campista brasileiro Edu, o lateral-direito camaronês Lauren e o atacante francês Wiltord.

michael owen fa cup final 2001 080522 1

O clube mais uma vez foi competitivo e tentou tirar o United do topo da Premier League, mas os comandados de Ferguson eram implacáveis e venceram mais uma vez a competição, dessa vez com 10 pontos de vantagem. Para piorar, os Red Devils aplicaram uma sonora e histórica goleada de 6 a 1 (5 a 1 só no primeiro tempo!) sobre o Arsenal no returno, com show de Yorke, autor de três gols. Wenger foi categórico no pós-jogo:

“Ainda não chegamos em março e a temporada já acabou. Não posso me orgulhar disso. Isso dói.” 

A derrota, somada a uma de 4 a 0 para o Liverpool em dezembro de 2000, foram as mais dolorosas na trajetória do campeonato nacional daquela temporada. Falando em Liverpool, os Reds derrotaram o Arsenal na final da Copa da Inglaterra por 2 a 1, de virada, em show de Michael Owen, e os Gunners terminaram o ano sem troféus – na Champions, foram eliminados nas quartas de final pelo Valencia.

Mas tudo mudou na época 2001-2002. O clube foi às compras e trouxe o holandês Gio van Bronckhorst para o meio de campo, o goleiro Richard Wright, o defensor Kolo Touré, jogador polivalente, que poderia atuar na lateral direita, no centro da defesa e no meio-campo, e o zagueiro Sol Campbell, uma das contratações mais polêmicas do futebol inglês na época pelo fato de ele ser capitão do Tottenham e sair do clube sem custo algum após o fim de seu contrato. O zagueiro foi acusado de traição pela torcida dos Spurs, mas foi convencido por Wenger a embarcar no projeto dos Gunners, que disputavam a Liga dos Campeões com frequência e poderiam manter o defensor no radar da seleção inglesa de Sven-Göran Eriksson.

Campbell arsenal debut
Campbell, enorme reforço do Arsenal na época.

 

“Para mim, ele é o melhor. Eu sentia que não conseguiríamos competir nas bases financeiras, mas conseguimos lhe dar um desafio futebolístico”, comentou Wenger na época.

De fato, Campbell iria se transformar em uma rocha inabalável do sistema defensivo dos Gunners e um dos mais queridos e importantes zagueiros do clube ao longo de cinco anos. Além dessas contratações, o Arsenal “ganhou” um enorme reforço com a entrada do jovem Ashley Cole na equipe principal, garoto das bases lapidado por Wenger e que foi subindo aos poucos para o time profissional, sem hesitação nem pressa. Muito talentoso, Cole ganharia a vaga do brasileiro Sylvinho e seria outro emblema do setor defensivo a partir dali, que seria formado por Lauren, Campbell, Adams e Cole, com o veterano goleiro Seaman ainda na condição de titular. 

Novos canecos e a preparação da obra-prima

Com aquele elenco e Henry ainda mais goleador, Wenger sabia que a hora da volta por cima havia chegado. Se na Liga dos Campeões e na Copa da Liga o time caiu precocemente, na Premier League e na Copa da Inglaterra a história foi diferente. Desde o início, os londrinos brigaram pelo topo com o Manchester United e também Liverpool, em grande fase na época. E o grande diferencial foi exatamente não perder para os grandes rivais, além de construir vitórias marcantes e séries invictas. No turno, a campanha foi oscilante, mas teve vitória por 3 a 1 sobre o United, em casa, com dois gols de Henry, e vitória por 2 a 1 sobre o Liverpool em pleno Anfield Road, com gols de Henry e Ljungberg. 

bergkamp henry
Bergkamp e Henry: maior dupla de ataque da história do Arsenal.

 

No returno, show: nenhuma derrota e 13 vitórias seguidas a partir da 26ª rodada. O ápice veio na penúltima rodada, com triunfo por 1 a 0 sobre o United em Old Trafford, em gol de Wiltord, resultado que garantiu a conquista dos londrinos com uma rodada de antecipação. O caneco do Inglês veio quatro dias depois da conquista da Copa da Inglaterra, levantada em Wembley após vitória por 2 a 0 sobre o Chelsea, com gols de Ray Parlour e Ljungberg – extremamente decisivo naquela temporada. O Arsenal assegurou um novo Double em 2001-2002 e Henry foi o artilheiro da Premier League com 24 gols, além de ter anotado 32 gols no total. 

Na campanha vencedora do campeonato, o Arsenal venceu 26 jogos, empatou nove e perdeu apenas três, curiosamente todos em casa, permanecendo invicto fora de Highbury. Os Gunners marcaram 79 gols e sofreram 36. Foram 87 pontos conquistados, sete a mais do que o vice-campeão Liverpool e 10 a mais do que o terceiro colocado, o Manchester United. A temporada terminou com muita festa e apenas a tristeza com a aposentadoria do capitão Tony Adams, lenda do clube que pendurou as chuteiras em maio de 2002. 

arsenal 2002 title
Henry, Pires e Campbell com o troféu da Premier League de 2002.

 

Wenger seguiu reforçando o time e contratou o brasileiro Gilberto Silva, que dizia que o meio-campista “fazia o simples e podia jogar em todo lugar no meio-campo”, com o adendo de que “a posição de volante, bem à frente da defesa, é o que ele faz de melhor”. Com ele em campo, o Arsenal ganhou ainda mais qualidade, além de poder contar com o zagueiro Touré com mais frequência, após o mesmo se recuperar de lesão. No começo da temporada, a Supercopa da Inglaterra foi conquistada com vitória por 1 a 0 sobre o Liverpool, com gol de Gilberto Silva.

Na Premier League, a briga foi de novo contra o Manchester United, mas os comandados de Ferguson acabaram com o título, somando 83 pontos contra 78 do Arsenal, vice. Nos confrontos diretos, vitória do United em Old Trafford – 2 a 0 – e empate em 2 a 2 no Highbury. Henry marcou mais 24 gols para sua coleção e ficou apenas um gol atrás do artilheiro, Ruud van Nistelrooy, do United.

Mas os londrinos conseguiram o bicampeonato consecutivo da Copa da Inglaterra, na qual eliminaram pelo caminho o Manchester United e o Chelsea e derrotaram o Southampton na decisão por 1 a 0, gol de Robert Pires. Após o caneco, Wenger começou a construção de sua obra-prima. A derrota por 3 a 2 para o Leeds United, em 04 de maio de 2003, seria a última do clube no Campeonato Inglês até outubro de 2004. A partir dali, começaria a lenda de um esquadrão único e até hoje inigualável na era moderna do futebol inglês.

Os Invencíveis

O Arsenal perdeu seu ídolo David Seaman na temporada 2003-2004, mas trouxe o goleiro Lehmann, ex-Borussia Dortmund. “Ele tem experiência, está acostumado a jogar sob pressão, é inteligente, fala inglês e tem uma boa personalidade”, comentou Wenger sobre o camisa 1 na época. O alemão seria titular absoluto de um time pronto. Apesar das contratações dos jovens Cesc Fàbregas e do atacante Robin van Persie, além de Reyes e Senderos, o time-base do Arsenal estava na cabeça de Wenger. E ele sabia que tinha em mãos um timaço, modelado por ele, construído ano após ano, com contratações certeiras e adaptações. A confiança do francês era tanta que ele já dizia que poderia permanecer uma temporada sem perder. Bem, isso ele já mentalizava um ano antes, ainda na época 2002-2003.

thierry henry celebrates goal v liverpool 2004 264505

“Sabemos o que queremos alcançar e estou convencido de que podemos fazê-lo. Por que eu deveria achar que é impossível? Se as pessoas me disserem: ‘Você parece arrogante’, eu diria: ‘Não, eu só acho estranho um técnico entrar em uma competição pensando que não pode vencê-la’. Não é impossível (ser campeão invicto), já que o Milan conseguiu uma vez, mas não vejo por que é tão chocante dizer isso. 

Vocês acham que Manchester United, Liverpool ou Chelsea não sonham com isso também? Eles são exatamente iguais. Eles simplesmente não dizem porque têm medo de parecer ridículos, mas ninguém é ridículo neste trabalho, pois sabemos que tudo pode acontecer.” Arsène Wenger, em entrevista à Sports Illustrated, setembro de 2002.

wenger 2004 arsenal 2932
Wenger faz a festa: temporada de 2003-2004 foi mágica para o treinador. Foto: Stuart MacFarlane/Arsenal FC via Getty Images

 

Após a perda do título em 2002-2003, Martin Keown chegou a dizer que o Arsenal perdeu as chances de conquista por causa da fala de Wenger, que “se gabou que poderia vencer o torneio sem perder”. O treinador, porém, retrucou na época dizendo: “Olha, eu disse isso porque acho que você consegue. Mas você precisa realmente querer isso”. Com um time que aliava técnica, inteligência e força física, Wenger queria fazer história. E fez. O Arsenal competiu em todas as frentes, chegando às semifinais da Copa da Inglaterra, da Copa da Liga e ainda nas quartas de final da Liga dos Campeões. Mas a grande vedete foi a Premier League.

Nas quatro primeiras rodadas, quatro vitórias: 2 a 1 no Everton (em casa), 4 a 0 no Middlesbrough (fora), 2 a 0 no Aston Villa (em casa) e 2 a 1 no Manchester City (fora). Nas duas seguintes, empates contra Portsmouth (1 a 1, em casa) e Manchester United (0 a 0, fora). Na sequência, mais três vitórias enormes contra rivais complicados: 3 a 2 no Newcastle (em casa), 2 a 1 no Liverpool em Anfield e 2 a 1 no Chelsea, em casa.

vieira arsenal 2004
Vieira, expoente do meio de campo do Arsenal.

 

Após um empate em 1 a 1 com o Charlton Athletic, fora, os Gunners venceram Leeds (4 a 1, fora), Tottenham (2 a 1, em casa) e Birmingham City (3 a 0, fora). Na sequência, empates diante do Fulham (0 a 0, em casa) e Leicester City (1 a 1, fora), seguidos de vitória sobre o Blackburn (1 a 0, em casa), empate com o Bolton (1 a 1, fora), e vitória sobre Wolves (3 a 0, em casa) e Southampton (1 a 0, fora), com o Arsenal na vice-liderança ao fim do primeiro turno. Mas foi no segundo turno que a equipe embalou de vez. Após um empate em 1 a 1 com o Everton, fora, os Gunners emendaram 9 vitórias seguidas:

  • 4 a 1 no Middlesbrough, em casa;
  • 2 a 0 no Aston Villa, fora;
  • 2 a 1 no Manchester City, em casa;
  • 3 a 1 no Wolverhampton, fora;
  • 2 a 0 no Southampton, em casa;
  • 2 a 1 no Chelsea, fora;
  • 2 a 1 no Charlton, em casa;
  • 2 a 0 no Blackburn, fora;
  • 2 a 1 no Bolton, em casa.

Líder desde a 21ª rodada, a equipe não perdeu mais a liderança e seguiu em busca do título. Na 30ª rodada, empate em casa contra o Manchester United em 1 a 1. Depois, vitória sobre o Liverpool, também em casa, por 4 a 2, com três gols de Henry. Na rodada 32, empate sem gols com o Newcastle, seguido de triunfo por 5 a 0 contra o Leeds United, em casa. Os Gunners foram para o duelo contra o rival Tottenham, fora de casa, com a chance de serem campeões com quatro rodadas de antecedência. E, com o empate em 2 a 2, o título foi assegurado com louvor. Nos quatro jogos seguintes, a missão era uma só: manter-se invicto. E eles conseguiram: empataram com o Birmingham em 0 a 0, em casa, e com o Portsmouth (1 a 1, fora), e venceram o Fulham (1 a 0, fora) e o Leicester City por 2 a 1, em casa, e 2 a 1 no Leicester City, em casa. 

thierryhenryrobertpiresarsenal2004 2402462
Henry e Pires, em 2004.
GoldInvinciblesTrophy
O título invicto rendeu ao Arsenal uma taça especial, banhada a ouro, da FA!

 

Arsène Wenger
Wenger com a taça da Premier League: campeão invicto. Foto: Alan Walter.

 

A história estava escrita. Pela primeira vez na era moderna do futebol inglês, um clube conquistava o Campeonato Inglês sem nenhuma derrota. Nascia ali o mantra dos torcedores dos Gunners: 38 jogos. 26 vitórias. 12 empates. Derrotas: NENHUMA. Além disso, o clube anotou 73 gols (melhor ataque) e sofreu 26 gols (melhor defesa). Thierry Henry marcou 30 gols e foi o artilheiro da competição. Ninguém chegou aos pés do Arsenal em 2003-2004. Foi um feito tão impressionante que o único campeão inglês invicto na história datava de 1888-1889 (!), quando o Preston North End venceu o torneio após 22 jogos, bem menos do que os 38 disputados pelo Arsenal 115 anos depois.

arsenal 2004 invincibles

A Football Association, como forma de reconhecimento ao feito dos Gunners, concedeu ao clube até um troféu especial, na cor dourada, como forma de simbolizar o feito da invencibilidade. E aquele esquadrão ficou conhecido para sempre como Os Invencíveis. “Temos sido notavelmente consistentes, não perdemos nenhum jogo e jogamos um futebol vistoso. Temos entretido pessoas que simplesmente amam futebol”, comentou Wenger na época. Mais de 250 mil pessoas lotaram as ruas do norte de Londres para celebrar o título dos Gunners, em uma festa memorável. Wenger comentou ao The Guardian que vencer a Premier League sem derrotas era algo para a eternidade e único.

“Todo ano temos um time que ganha a Liga dos Campeões, mas nem todo ano temos um time que bate um recorde como esse. É difícil comparar porque não quero desmerecer a Liga dos Campeões, mas é algo único que ficará marcado. Principalmente em um campeonato tão difícil quanto o Campeonato Inglês atualmente, é realmente inacreditável. […] Sem dúvida, terminar a temporada invicto é a minha maior conquista. Quando você ganha o campeonato, sente que alguém pode chegar e fazer melhor do que você. Sempre foi meu sonho terminar a temporada invicto, porque não há muito mais que alguém possa fazer para superar isso.”

Fim da série invicta e os planos da nova casa

O Arsenal estendeu sua série de jogos sem perder na Premier League até outubro de 2004, já na temporada 2004-2005. Foram 49 jogos sem derrota na competição, um recorde que perdura até hoje. Eles só não conseguiram completar o redondo número de 50 jogos por culpa do Manchester United de Ferguson, que derrotou os Gunners por 2 a 0 em Old Trafford, em jogo polêmico no qual os Red Devils tiveram um pênalti a seu favor após Rooney supostamente se jogar dentro da área em lance com Campbell. Van Nistelrooy fez 1 a 0, aos 73’, e Rooney ampliou tempo depois para encerrar a sequência dos londrinos. A partida terminou com confusão dois dois lados e um pedaço de pizza foi arremessado em direção a Alex Ferguson no meio da bagunça, no que deu ao jogo o apelido de Pizzagate ou a “Batalha do Buffet”.

arsenal united 2004 pizzagate
A briga no clássico do Pizzagate.

 

Wenger ficou furioso com o desfecho da partida e com a atuação do árbitro Mike Riley, além de criticar o atacante Van Nistelrooy por má conduta durante a partida. “Só podemos controlar o nosso próprio desempenho, não o do árbitro. Levamos o pênalti de sempre quando jogamos contra o Manchester United e eles estão em dificuldades. Aconteceu na temporada passada e aconteceu de novo”, disse o treinador, que acabou multado em 15 mil libras pela FA por sua conduta. Aquele jogo acabou aumentando ainda mais a rivalidade entre os dois clubes na época e balançou um pouco a relação entre Ferguson e Wenger.

Líder até a 11ª rodada, o Arsenal perdeu o topo após esse revés e viu o Chelsea de Mourinho dominar o torneio. Implacáveis, os Blues acabaram campeões com apenas uma derrota em 38 jogos, chegando bem perto do feito dos Gunners, que ficaram com o vice. O lado bom da temporada foram as duas vitórias em finais sobre o United: primeiro, na Supercopa da Inglaterra, com um categórico 3 a 1. Depois, veio a conquista da Copa da Inglaterra, nos pênaltis, após 0 a 0 no tempo regulamentar e prorrogação. Na Liga dos Campeões, os Gunners foram eliminados nas oitavas de final pelo Bayern München-ALE.

highbury stadium
Highbury, antiga casa do Arsenal.

 

Naquela época, o Arsenal já alinhava e desenvolvia a construção de seu futuro estádio, o Emirates Stadium, localizado bem próximo ao Highbury. Wenger ajudou a diretoria na organização do projeto e era a favor da mudança para abrigar mais torcedores e elevar o nível do clube não só na Inglaterra, mas na Europa. 

“O Emirates Stadium é vital para o nosso futuro. Em certo momento, este projeto estava dividido meio a meio, pois era muito complexo e caro, mas a diretoria achou que tínhamos que seguir em frente ou correríamos o risco de fracassar no mais alto nível. Estou feliz no clube e ficarei enquanto puder atender às expectativas dos torcedores e não tenho planos de sair. O novo estádio aumenta minha motivação para levar este clube a um novo patamar, com o potencial aumento de receita fazendo uma enorme diferença no mercado.” Arsène Wenger, em entrevista à BBC, 15 de agosto de 2005.

Com isso, a temporada 2005-2006 seria a última do clube no antigo Highbury, pois o Emirates tinha inauguração marcada para meados de 2006. A construção do estádio exigia muito financeiramente do Arsenal, por isso, Wenger sabia que os títulos provavelmente seriam mais escassos dali em diante, além de ver a espinha-dorsal de seu time com muitos jogadores com idade superior a 30 anos. E ele tratou a temporada derradeira em Highbury como a oportunidade de tentar vencer o troféu que tanto o torcedor sonhava: a Liga dos Campeões da UEFA.

Doloroso vice e os tempos obscuros

Com a ascensão de Fàbregas no elenco titular, o Arsenal aceitou negociar o francês Vieira para a Juventus por mais de 13 milhões de libras. Mesmo sem o craque, o time seguiu forte, embora não tenha feito uma boa campanha na Premier League e, depois de muitos anos, não foi campeão nem vice: terminou na quarta colocação. Nas copas nacionais, nenhum sucesso, mas na Liga dos Campeões o clube, enfim, conseguiu um bom papel. Na fase de grupos, cinco vitórias e um empate. No mata-mata, o Arsenal venceu os Galácticos do Real Madrid em pleno Bernabéu por 1 a 0, na ida das oitavas de final – com golaço de Henry – e empataram sem gols na volta para se classificar. Nas quartas, vitória por 2 a 0 em casa e empate fora sem gols contra a fortíssima Juventus-ITA. E, na semifinal, vitória por 1 a 0 em casa e empate sem gols contra o Villarreal-ESP, com direito a defesa de pênalti de Lehmann em cobrança de Riquelme, que selou a vaga dos Gunners na grande final.

Riquelme_Lehmann2006

Invictos, os Gunners poderiam vencer a sonhada Velhinha Orelhuda em roteiro dos sonhos, como da Premier League de 2004. Mas, do outro lado, tiveram pela frente o Barcelona de Ronaldinho, um dos mais badalados times do planeta – e também invicto. O jogo foi um furacão de emoções para Wenger, que viu o goleiro Lehmann ser expulso com apenas 18 minutos de jogo, o que desmoronou qualquer tática planejada para uma final continental. Mesmo assim, Campbell, aos 37’, abriu o placar para o Arsenal e o placar seguiu a favor dos ingleses até os 76’, quando Eto’o empatou. Cinco minutos depois, Belletti virou o jogo e deu o título aos catalães.

Pela terceira vez na carreira, Wenger perdia um título europeu. Ele se tornou naquele ano o primeiro técnico a perder os três principais torneios organizados pela UEFA na história: Recopa da UEFA, Copa da UEFA e Liga dos Campeões da UEFA. Aquela derrota foi um divisor de águas para Wenger e para o Arsenal. O clube entraria em um período sem conquistas e de resiliência por conta dos gastos com o Emirates Stadium. Pagar o estádio significava menos dinheiro para contratações. Wenger sabia que precisava pelo menos manter o Arsenal disputando a Liga dos Campeões da UEFA, uma enorme fonte de renda. E sempre tratou isso como objetivo principal, acima mesmo de vencer títulos. 

camiseta arsenal barcelona final champions l 2006 hen e1546782648390
A decepção de Henry após o vice na Liga dos Campeões de 2005-2006. Foto: PA.

 

Ano após ano, o Arsenal via os rivais levantarem títulos, celebrarem grandes feitos e nada de algum troféu ser erguido na Era Emirates. Além disso, mudanças no corpo diretivo e saídas de ídolos, como Henry, minaram a outrora boa fase da equipe. Wenger, porém, seguia lá. O próprio treinador afirmou, anos depois, que ficou muito tempo no clube.

“Eu me identificava completamente com o clube. Esse foi o erro que eu cometi. Minha falha fatal foi amar demais onde eu estou… onde eu estava. Eu me arrependo disso. Eu deveria ter ido para outro lugar. Às vezes eu me pergunto: algo se quebrou depois da temporada invicta?. […] O ano de 2007 foi um ponto decisivo. Foi a primeira vez que eu senti tensões dentro da diretoria. Estava dividido entre ser leal ao clube e ser leal a David (Dein, vice-presidente do Arsenal)”. Arsène Wenger, em entrevista ao The Telegraph.

arsene wenger

Além de não conseguir competir financeiramente, o Arsenal também via outros concorrentes ganharem aportes financeiros consideráveis, casos do Chelsea, ainda sob o comando de Abramovich, e o Manchester City, que teria investimentos pesados na virada dos anos 2010. O treinador teve que abdicar de sua filosofia de bom futebol, de encantamento, e fazer times bons o suficiente para se classificar para a Liga dos Campeões da UEFA. Se rolasse um título, era bônus. O importante era resistir. 

Da humilhação ao bicampeonato da Copa da Inglaterra

Na temporada 2011-2012, Wenger voltou a sofrer diante do Manchester United ao levar uma goleada de 8 a 2 em Old Trafford, o pior placar do clube no futebol inglês desde os 8 a 0 sofridos para o Loughborough (que nem existe mais) em 1896. O resultado foi descrito por Wenger como uma humilhação, com Ferguson se solidarizando com o amigo dizendo que “ele tem sido um grande adversário e continuará sendo quando tiver seus principais jogadores de volta”. O Arsenal daquela temporada era, de fato, muito triste. O time que enfrentou o United e levou de oito foi: Szczesny; Jenkinson, Djourou, Koscielny e Traoré; Ramsey, Coquelin e Rosicky; Walcott, Van Persie e Arshavin. Tirando o trio de ataque e dois jogadores do meio de campo (Ramsey e Rosicky), nada se salvava por ali… E, mesmo assim, Wenger conseguiu fazer esse time terminar na 3ª colocação a Premier League!

Man Utd v Arsenal 017 8 2
Foto: Tom Jenkins for The Guardian

 

Tempo depois, Wenger conseguiu reestruturar seu time e, com nomes como Ozil, Mertesacker, Sagna, Arteta – que seria técnico do clube -, Cazorla, Podolski e Giroud, o clube levantou um troféu depois de 9 anos de jejum: a Copa da Inglaterra, conquistada com muita emoção em cima do Hull City, que abriu 2 a 0 nos primeiros 10 minutos de jogo e exigiu muito dos comandados de Wenger. Cazorla descontou aos 17’ e Koscielny, aos 71’, empatou. O jogo foi para a prorrogação e, aos 109’, Ramsey fez o gol da virada e do título que lavou a alma do torcedor e fez Wenger voltar a sorrir depois de tantos anos de jejum. 

“Queríamos fazer história… E fizemos história de duas maneiras: como não começar uma final e como virar o jogo. Acho que este é um ponto de virada na vida dos jogadores”, disse o treinador no pós-jogo.

o tecnico do arsenal arsene wenger ergue o trofeu da copa da inglaterra
Wenger colecionou Copas da Inglaterra com o Arsenal. Foto: Lee Smith/Reuters

 

Ainda em 2014, os Gunners venceram outra Supercopa da Inglaterra com triunfo por 3 a 0 sobre o Manchester City e repetiram a dose na Copa da Inglaterra, com direito a vitória por 2 a 1 sobre o Manchester United nas quartas de final. Na grande final, Wenger se redimiu do sufoco da temporada anterior e fez seu time dar show: 4 a 0 sobre o Aston Villa, com gols de Walcott, Alexis Sánchez, Mertesacker e Giroud. Com de praxe, os Gunners venceram a Supercopa da Inglaterra posterior com triunfo por 1 a 0 sobre o Chelsea.

O adeus da lenda

Os títulos copeiros deram a impressão de que o Arsenal poderia voltar aos bons tempos. Um pouco melhor financeiramente e colhendo os frutos das grandes receitas provenientes do Emirates Stadium, o clube conseguia se reforçar melhor e conseguiu permanecer nos primeiros lugares da Premier League de 2015-2016, ficando com o vice-campeonato – o surpreendente Leicester City foi o campeão. Na temporada 2016-2017, os Gunners não conseguiram fazer uma boa campanha e acabaram na quinta colocação a Premier League, o que fez Wenger não conseguir classificar o time para a Liga dos Campeões da UEFA pela primeira vez desde a temporada 1997-1998. Uma enormidade. Por outro lado, o Arsenal venceu outra Copa da Inglaterra, batendo o Chelsea na decisão de Wembley por 2 a 1 (gols de Alexis Sánchez e Ramsey). Foi o 7º título de Copa da Inglaterra de Wenger, recordista na competição, e o 13º na história do Arsenal, também recordista.

wenger 800 fa cup 2017
Foto: FA

 

Em agosto de 2017, o Arsenal derrotou mais uma vez o Chelsea em uma final – a Supercopa da Inglaterra – e Wenger levantou seu último troféu pelos Gunners. O treinador não tinha mais condições de continuar, seja pelo cansaço de tantos anos, seja pelo estilo de treinar que não se alinhava mais com a mentalidade dos jogadores, impacientes e até mimados. Por isso, em abril de 2018, o treinador anunciou que iria deixar o clube ao fim da temporada, quase 22 anos depois. 

“Depois de uma cuidadosa consideração, e seguindo as discussões com o clube, eu senti que é o momento certo para sair ao final da temporada. Eu sou grato por ter tido o privilégio de servir ao clube por tantos anos memoráveis. Eu dirigi o clube com total comprometimento e integridade. Quero agradecer aos funcionários, os jogadores, os diretores e os torcedores que fazem este clube tão especial. Eu peço aos torcedores para que apoiem o time para terminar em alta. Para todos que amam o Arsenal, cuidem dos valores do clube. Meu amor e apoio para sempre”, disse Wenger no comunicado oficial.

arsene wengerp066dzv1
arsene wenger 101200474 gettyimages 955374372.jpg

O Arsenal terminou na sexta colocação a Premier League, fora da zona de classificação para a UCL, mas Wenger terminou sua jornada no Emirates, lotado, com uma vitória por 5 a 0 sobre o Burnley. Vestindo um paletó personalizado e belíssimo, Wenger foi ovacionado pela torcida, que se emocionou com o último dia de seu grande professor à frente do time. Ele recebeu ainda uma réplica dourada do troféu da Premier League, em alusão aos Invencíveis. O último jogo oficial do treinador foi fora de casa, em vitória por 1 a 0 sobre o Huddersfield Town. Era o fim de uma história impressionante e longeva, de 1235 jogos, 707 vitórias, 280 empates, 248 derrotas e 17 títulos. Ele poderia ter vencido mais? Poderia. Poderia ter tido outras experiências como técnico? Poderia. Mas ele escolheu Londres. Escolheu um só clube. E o transformou para sempre.

Eterno professor

Após deixar o Arsenal, Wenger foi trabalhar na FIFA como Chefe de Desenvolvimento Global do Futebol, e virou um dos personagens mais influentes do esporte e presente em vários momentos e competições tanto da FIFA quanto da UEFA. Amante do futebol como poucos, Wenger frequentemente é visto em estádios pelo mundo apreciando uma partida, como sempre gostou de fazer na juventude, exceto no Emirates, onde ele procura evitar, pois o fim de uma história de amor é sempre triste. Ainda bem que o legado fica. E ficará para sempre no Arsenal e no Emirates Stadium.

wenger statue 3
A estátua de Wenger no Emirates: homenagem mais do que merecida. Foto: Arsenal FC

 

Licença Creative Commons
O trabalho Imortais do Futebol – textos do blog de Imortais do Futebol foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em imortaisdofutebol.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença.



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *