A notícia de que a Fifa negocia a venda de uma participação minoritária da empresa responsável pelos direitos comerciais da Copa do Mundo, como expliquei no post anterior do blog, não surgiu de forma isolada. Ela pode representar a etapa seguinte de uma estratégia que Gianni Infantino começou a colocar em prática um ano antes nos Estados Unidos, na primeira edição da Copa do Mundo de Clubes com 32 participantes.
O novo torneio não foi apenas uma revolução esportiva. Funcionou como laboratório financeiro. Até então, a Fifa seguia um modelo conhecido: organizava competições, vendia direitos de transmissão, patrocínios e hospitalidade. No fim do ciclo, distribuía parte das receitas às federações e aos participantes. A Copa do Mundo de Clubes de 2025 indicou à entidade máxima do futebol a possibilidade de fazer diferente.
Para viabilizar uma competição muito maior, mais longa e mais cara, a Fifa montou uma engenharia financeira inédita. A DAZN adquiriu os direitos globais de transmissão em um acordo bilionário. Pouco antes, a plataforma havia recebido um importante aporte de capital da SURJ Sports Investment, empresa ligada ao Public Investment Fund (PIF), o fundo soberano da Arábia Saudita. Paralelamente, o próprio PIF tornou-se parceiro oficial do torneio.
Mais do que coincidências, os movimentos revelam um novo modelo de financiamento. Capital privado ajudando a impulsionar um ativo esportivo antes mesmo da consolidação comercial.
Os números reforçam essa percepção. A Fifa arrecadou mais de US$ 2 bilhões com o Mundial de Clubes. Os direitos de transmissão responderam pela maior fatia da receita. Houve distribuição de US$ 1 bilhão em premiações aos clubes e a criação de um fundo de solidariedade para o futebol. Segundo a própria entidade, o torneio encerrou o ciclo com resultado operacional positivo, mesmo após investimentos elevados.
O aspecto mais relevante, porém, não está no balanço financeiro. O Mundial de Clubes provou que investidores estão dispostos a apostar bilhões em propriedades comerciais da Fifa. Demonstrou que grandes plataformas de mídia enxergam valor em assumir riscos financeiros em troca da exploração global desses ativos. E mostrou que a entidade pode compartilhar o financiamento de torneios sem abrir mão do controle esportivo.
Esse raciocínio ajuda a entender a nova iniciativa de Gianni Infantino. Ao buscar investidores para adquirir uma participação na empresa comercial da Copa do Mundo, a Fifa pretende antecipar receitas futuras em troca de uma parcela dos lucros que o torneio continuará gerando nas próximas décadas. Trata-se de um modelo amplamente utilizado por ligas esportivas, empresas de entretenimento e fundos de investimento, mas inédito para o maior patrimônio do futebol mundial.
Não há confirmação oficial de que a Copa do Mundo de Clubes tenha sido concebido como teste para essa operação. Não seria correto afirmar que um movimento decorre diretamente do outro. Mas a sequência dos acontecimentos, a arquitetura financeira adotada e a lógica econômica das duas operações apontam na mesma direção.
A Copa do Mundo de Clubes foi a prova de conceito. A venda de uma fatia da Copa do Mundo é o próximo passo. Infantino parece enxergar a Fifa menos como uma entidade que organiza competições – e mais como uma empresa global de ativos esportivos.
A ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções, a criação do novo Mundial de Clubes e a abertura do capital econômico dos principais torneios fazem parte da mesma transformação. Se essa estratégia será benéfica ao futebol ou significará uma crescente financeirização do principal evento esportivo do planeta é uma discussão em aberto.
O que já não parece haver dúvida é que a Copa do Mundo de Clubes de 2025 deixou um legado muito maior do que seu primeiro campeão – o Chelsea. Ele mostrou como poderá ser financiada a Copa do Mundo do futuro.
Laboratório | O modelo de negócios do Mundial de Clubes 2025
Como a Fifa testou uma nova engrenagem comercial
Transmissão: a DAZN comprou os direitos globais do torneio em um acordo bilionário.
Capital saudita: a SURJ Sports Investment, ligada ao PIF, fundo soberano da Arábia Saudita, entrou como parceira comercial da competição.
Clubes: a Fifa destinou US$ 1 bilhão em premiações aos participantes.
Receitas: além da televisão, o torneio explorou patrocínios, hospitalidade, ingressos e licenciamento.
Análise: a competição funcionou como prova de conceito para um modelo em que investidores privados ajudam a financiar grandes propriedades da Fifa.
Leia também
“SAF” da Copa: quem é o bilionário da IA por trás do plano de Infantino
Instagram: @marcospaulolima.jor











Leave a Reply