A mostra reúne mais de 60 peças do Mestre da Silhueta na capital francesa
Paris consagrou Azzedine Alaïa como um dos grandes arquitetos da moda contemporânea. Mas a gramática que sustentou suas silhuetas — rigor, geometria, matéria e uma relação precisa com o corpo — começou a ser escrita antes, na África. É essa dimensão menos evidente de sua trajetória que conduz “Azzedine Alaïa e a África”, exposição em cartaz, na A exposição “Azzedine Alaïa and Africa” acontece na Fondation Azzedine Alaïa, localizada no bairro do Marais em Paris, até 4 de janeiro.
Com curadoria de Olivier Saillard, a mostra reúne mais de 60 peças e evita uma leitura literal do continente como repertório de estampas ou exotismo. A África surge como estrutura de pensamento e memória, organizada em três territórios que atravessaram o trabalho do estilista: Tunísia, Egito e África subsaariana.
Exposição Azzedine Alaïa acontece na Fondation Azzedine Alaïa, localizada em Paris
Nascido em Túnis, Alaïa deixou cedo o continente, mas carregou consigo referências da infância. Na exposição, os brancos luminosos evocam as fachadas de Sidi Bou Saïd, enquanto o muxarabi reaparece reinterpretado em couro perfurado a laser. O preto absoluto de criações dos anos 1980 estabelece outro diálogo, desta vez com máscaras africanas em madeira queimada e couro.
Precisão estética
Vestido Bandage faz parte da exposição Alaïa em Paris
O Egito oferece uma das conexões técnicas mais instigantes. Fascinado pela mumificação, Alaïa estudou os métodos faraônicos de enfaixamento. Dessa investigação surgiram, em 1985, seus célebres vestidos bandage, construídos em malha elástica para modelar e sustentar a silhueta sem recorrer às estruturas tradicionais do espartilho.
Já a África subsaariana aparece em tons de areia, vermelhos intensos, ráfia, barbante, conchas e búzios presentes em coleções do fim dos anos 1980 e início dos 1990. A relação ganhou outra dimensão a partir da convivência com o fotógrafo Peter Beard e de uma viagem ao território Maasai, no Quênia, em 1996. Fotografias de Beard integram a exposição ao lado de pinturas de Kris Ruhs.
Estúdio do criador
A mostra também alcança a intimidade do criador. O estúdio preservado pela Fundação guarda moldes, padronagens e peças em que Alaïa trabalhava antes de morrer. A trilha sonora vinha de Oum Kalthoum; à mesa, seu círculo misturava nomes como Tina Turner e Whitney Houston a colaboradores e amigos. Para Farida Khelfa, musa e amiga do estilista, essa convivência sem hierarquias era parte essencial de seu universo.
Ao reunir essas geografias, a exposição reposiciona a relação de Alaïa com suas origens. A África na moda de Azzedine Alaïa não aparece como referência periférica, mas como uma das matrizes de sua construção estética e técnica — da memória tunisiana aos vestidos que redefiniram a relação entre tecido e corpo.










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