A fome está diminuindo em grande parte da América Latina e do Caribe. O próximo desafio da região é mais complexo: garantir que todas as pessoas possam ter acesso financeiro a uma alimentação saudável, e não apenas a calorias suficientes para sobreviver.
A taxa regional de fome caiu pelo quinto ano consecutivo em 2025, alcançando um nível historicamente baixo de 4,8%, abaixo do pico de 6,1% registrado durante a pandemia em 2020.
Cerca de 32 milhões de pessoas enfrentaram a fome, mais de 1 milhão a menos do que em 2024 e 7,5 milhões a menos do que em 2020. A insegurança alimentar moderada ou grave — que inclui pessoas obrigadas a pular refeições ou comer menos do que precisam — também caiu para 22,9%, abaixo do nível de 23,4% registrado em 2015. A participação da região no total de pessoas que passam fome no mundo permanece em torno de 5% há 15 anos.
Esse progresso não ocorreu por acaso. Ele reflete investimentos sustentados na produtividade agrícola e o fortalecimento da proteção social, incluindo programas de transferência de renda e de alimentação escolar desenvolvidos por países como Brasil e México.
Os países que registraram os maiores avanços são bastante diferentes entre si, mas suas políticas revelam um padrão consistente. Brasil, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Guiana e Uruguai reduziram a fome para menos de 2,5%, limite abaixo do qual a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apresenta as estimativas simplesmente como “inferior a 2,5%”. Desde meados dos anos 2000, o Peru reduziu sua taxa de fome de 17,9% para 5,7%; a Bolívia, de 27,6% para 19,5%; a Colômbia, de 11,0% para 4,1%; e o Panamá, de 14,8% para 4,7%.
Esses resultados, apresentados na edição de 2026 do relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi), mostram que a fome diminui quando políticas agrícolas, econômicas e sociais se reforçam mutuamente. A proteção social preserva o poder de compra das famílias. Os investimentos agrícolas aumentam a produtividade. A infraestrutura rural conecta agricultores aos mercados. A alimentação escolar e as transferências de renda protegem famílias vulneráveis e, ao mesmo tempo, criam demanda por alimentos produzidos localmente.
Os avanços alcançados, contudo, permanecem frágeis e desiguais.
A crise no Oriente Médio em 2026 representa uma ameaça menos uniforme para esta região do que para a África ou a Ásia. A América Latina e o Caribe produzem mais petróleo bruto do que consomem, e alguns exportadores de energia podem até se beneficiar dos preços mais elevados. Mas essa média regional esconde a vulnerabilidade de muitas economias da América Central e do Caribe, fortemente dependentes de combustíveis importados e expostas ao aumento dos custos de energia, fertilizantes, transporte e importação de alimentos. A crise produzirá vencedores e perdedores dentro da própria região; ela não passará sem consequências.
A divisão mais acentuada está no Caribe. A taxa de fome da sub-região aumentou para 16,6% em 2025, quase cinco vezes superior à da América do Sul. Já a insegurança alimentar moderada ou grave atingiu 52%, o maior índice entre todas as sub-regiões do mundo.
O Haiti representa o caso mais extremo. Sua taxa de fome aumentou de 47,7% para 51,4%, e mais da metade da população enfrenta insegurança alimentar aguda. O Haiti é o único país das Américas — e um dos cinco do mundo — onde pessoas enfrentam níveis catastróficos de fome.
Violência armada, colapso institucional, declínio econômico e choques climáticos estão anulando anos de desenvolvimento, mesmo sem a existência de uma guerra formalmente declarada. Mas a fome representa apenas uma dimensão da privação. O custo de uma alimentação saudável revela um problema estrutural ainda mais amplo.
A América Latina e o Caribe possuem a alimentação saudável mais cara do mundo. Em 2025, seu custo médio foi de US$ 4,91 em paridade de poder de compra por pessoa por dia, em comparação com US$ 4,35 na África, US$ 4,33 na Ásia e US$ 3,64 na América do Norte e Europa. No Caribe, esse custo chegou a US$ 6,04 em paridade de poder de compra, o maior entre todas as sub-regiões, em comparação com US$ 4,66 na América Central.
Como a renda média regional é mais elevada, a proporção de pessoas incapazes de arcar com uma alimentação saudável — 25,7% — permanece muito abaixo dos 66,1% registrados na África e vem diminuindo desde 2021. Mas, novamente, as médias escondem situações extremas. No Haiti, 88,9% da população não consegue pagar por uma alimentação saudável.
Portanto, a América Latina e o Caribe fizeram progressos reais na redução da privação calórica.
Mas calorias suficientes deixaram de ser o único — ou mesmo o principal — desafio alimentar da região. Uma dieta que evita a fome não necessariamente previne anemia, atraso no crescimento infantil, obesidade, diabetes e outras formas de má nutrição. Uma alimentação saudável requer quantidades adequadas de frutas, verduras, legumes e alimentos de origem animal, mas esse padrão alimentar custa mais aqui do que em qualquer outra região do planeta.
Os elevados custos da alimentação saudável são impulsionados especialmente pelos vegetais e pelo que acontece após os alimentos deixarem a propriedade rural. Estradas precárias, redes ferroviárias limitadas, armazenamento refrigerado insuficiente, fornecimento de energia instável, mercados ineficientes e perdas pós-colheita aumentam os custos à medida que os alimentos nutritivos passam pelos processos de armazenamento, processamento, transporte, comercialização por atacado e varejo. Não se trata apenas de um problema de produção. Trata-se de um problema da cadeia intermediária de abastecimento.
A resposta política, portanto, precisa ser mais eficiente do que simplesmente ampliar os gastos com agricultura. Subsídios generalizados não consertarão as cadeias de suprimento deficientes.
Os governos devem investir na produtividade hortícola, em estradas rurais, conexões ferroviárias, cadeias de frio, armazenamento, centrais de embalagem, fornecimento confiável de energia, mercados atacadistas e transporte competitivo. Esses investimentos reduziriam as perdas, ampliariam a oferta e diminuiriam os preços de frutas, verduras, legumes e outros alimentos ricos em nutrientes.
A sequência das políticas também é importante. Expandir programas de alimentação escolar, transferências de renda ou vales-alimentação antes que a oferta consiga responder pode elevar os preços locais e excluir exatamente os consumidores que esses programas pretendem apoiar.
Investimentos em produção e em cadeias de abastecimento devem preceder — ou pelo menos acompanhar — medidas destinadas a estimular a demanda.
Há uma década, Brasil, Peru, República Dominicana e Colômbia poderiam parecer histórias de sucesso sem relação entre si. Hoje sabemos que seus avanços foram resultado de investimentos deliberados em proteção social e produtividade agrícola.
Tornar a alimentação saudável acessível exigirá a mesma determinação, desta vez direcionada para a infraestrutura, a logística e os mercados que levam alimentos nutritivos até os consumidores. A prioridade imediata é estender o progresso da região ao Caribe e, de forma ainda mais urgente, ao Haiti.
A América Latina e o Caribe já demonstraram que é possível reduzir a fome. Agora, precisam provar que uma alimentação saudável não precisa continuar sendo um privilégio.











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