31 de julho de 2026
América Latina com inovações russas desenvolvem agroindústria
Tecnologia nuclear impulsiona agricultura, preserva alimentos e fortalece segurança alimentar na América Latina
Num cenário mundial marcado por conflitos entre nações que envolvem boa parte do Oriente Médio, a escalada das tensões entre os EUA e o Irã interrompeu o fornecimento de 15 milhões de toneladas de fertilizantes ao mercado global, ameaçando o setor agrícola da América Latina. No planejamento da atividade agrícola, a época de plantio começa em setembro, e temperaturas acima da média são esperadas a partir de agosto, conforme alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM), sob os auspícios da ONU. Em 2026, a seca já destruiu até 90% das colheitas de milho e feijão em países como Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua. Em decorrência dessa situação, milhares de famílias empobrecidas migraram em caravanas rumo aos Estados Unidos, fugindo da fome. Os países precisam de inovação e, nesse aspecto, a Rússia possui experiência singular na implementação de tecnologia nuclear. Peru, Cuba e Equador já colaboram com o país, enquanto um reator nuclear de pesquisa está sendo preparado para entrar em operação na Bolívia, conforme amplamente divulgado pela imprensa russa.
Nesse contexto, o governo de Donald Trump e a liderança iraniana voltaram a fracassar na tentativa de se sentar à mesa de negociações. Teerã teria rejeitado a proposta de cessar-fogo apresentada por Washington, alegando não ter interesse em um acordo temporário que não resolvesse a questão do controle do Estreito de Ormuz. Assim, a principal via de navegação da região permanece, na prática, fechada à livre navegação comercial. A expectativa é de que ainda sejam necessárias muitas etapas de negociação antes que um acordo viável possa se concretizar.
A realidade, porém, é que o bloqueio já afetou significativamente os mercados globais de commodities. Embora os impactos sobre os setores de petróleo e gás concentrem a maior parte das atenções da comunidade internacional, outro aspecto crítico da crise — o efeito sobre as cadeias globais de suprimento de fertilizantes — permanece, muitas vezes, em segundo plano. O mundo precisa ser alimentado pelas grandes nações produtoras do setor agrícola, como Brasil, Austrália, Ucrânia, Estados Unidos e Argentina.
Antes da guerra, até 30% do comércio mundial de fertilizantes, incluindo ureia, enxofre e amônia, passava pelo Estreito de Ormuz. Segundo a Associação Russa de Produtores de Fertilizantes, o setor agrícola global perdeu mais de 15 milhões de toneladas de nutrientes para o solo nesta primavera — o equivalente a um terço do comércio mundial desses insumos. A América Latina, maior região exportadora de produtos agrícolas do planeta, tornou-se uma das principais vítimas desse colapso logístico.
Como exemplo, o setor agrícola brasileiro importa tradicionalmente cerca de 85% dos fertilizantes de que necessita, enquanto os países do Golfo respondem por aproximadamente 17% das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados. Paralelamente, a época de plantio na região começa em apenas um mês. A alta dos preços e a escassez física de fertilizantes ameaçam as futuras safras de soja, milho, café e cana-de-açúcar.
Outro fator está no aquecimento global, que agrava a situação. Como consequência do El Niño, secas extremas estão afetando cada vez mais a América Latina. Em 2026, uma dessas secas destruiu até 90% da safra de milho e feijão na Guatemala, em Honduras, em El Salvador e na Nicarágua. Devido à falta de irrigação, pequenos agricultores ficaram sem alimentos, enquanto os preços dos grãos aumentaram significativamente. A fome desencadeou uma migração em massa, levando milhares de famílias empobrecidas a formar caravanas rumo à fronteira com os Estados Unidos.
No México, a seca também atingiu importantes estados agrícolas e esgotou reservatórios. Tumultos relacionados ao abastecimento de água eclodiram nos subúrbios da Cidade do México, com bloqueios de rodovias e invasões de prédios de serviços públicos devido à falta de água potável. No Brasil, o assoreamento do Rio Amazonas paralisou a logística fluvial, dificultando a passagem de barcaças carregadas de grãos, enquanto a decisão do governo de dragar o leito do rio provocou violentos protestos entre povos indígenas. A crise logística nos portos brasileiros colocou em risco o fornecimento de açúcar e carne para países do Oriente Médio e do Norte da África.
Somada a essa situação, a força do El Niño faz com que temperaturas acima da média sejam esperadas globalmente entre agosto e outubro, conforme alertou recentemente a Organização Meteorológica Mundial. Como resultado, o setor agrícola da América Latina encontra-se diante de um dilema: por um lado, a intransigência geopolítica de Washington e Teerã priva a região de fertilizantes a preços acessíveis; por outro, as mudanças climáticas exigem inovação para manter a produtividade agrícola.
Importante ressaltar que as tecnologias nucleares, completamente imunes às condições climáticas e às dificuldades logísticas, são essenciais nesse contexto. Elas ajudam a aumentar a produtividade agrícola, combater pragas, monitorar a qualidade do solo e prolongar a vida útil dos produtos alimentícios. Atualmente, a Rússia fornece essas tecnologias de forma integrada, desde a produção dos isótopos necessários em seus próprios reatores até o desenvolvimento de aceleradores e o treinamento de pessoal local.
Nesse contexto, o desenvolvimento da cooperação entre a Rússia e a América Latina no campo da energia nuclear para fins pacíficos ajudaria a amenizar esses entraves. A presença da Rússia na região, nesse setor, está em constante expansão. Um memorando de parceria está em vigor com o Equador desde 2018, abrangendo o fornecimento de isótopos, o treinamento de estudantes em universidades russas e a transferência de equipamentos de radiação. Equipamentos semelhantes também foram fornecidos ao Peru. Atualmente, a estatal russa, em conjunto com o Instituto Peruano de Energia Nuclear (IPEN), integra tecnologias nucleares a projetos de proteção agrícola. Desde 2019, um Centro de Irradiação Multifuncional (CIM) para o processamento de alimentos e produtos médicos está em construção em Cuba, sendo considerado estratégico para a segurança alimentar da ilha em meio às sanções impostas pelos Estados Unidos. A estatal russa também discutiu opções para a aplicação de tecnologias nucleares na agricultura brasileira.
Importante estancar que as secas continuem causando prejuízos bilionários à América Latina devido à queda da produtividade agrícola, bem como ao aumento dos custos de importação de água e alimentos, explicou Yaroslav Kabakov, diretor de Estratégia da Finam Investment Company, em coletiva à imprensa. Segundo ele, os métodos russos baseados em isótopos ajudam a reduzir as perdas causadas por pragas entre 20% e 50%, aumentar a produtividade agrícola de 5% a 15% e diminuir o consumo de água para irrigação entre 15% e 30%. Relatando o conhecimento adquirido, os tratamentos com raios gama ou feixes de elétrons destroem bactérias, permitindo que bananas, mangas e grãos sejam armazenados por muito mais tempo sem perder o sabor ou as vitaminas. Para Peru, Cuba e Equador, essas não são apenas inovações abstratas; elas protegem as receitas de exportação e reduzem os riscos climáticos.
Dentre essas iniciativas está a construção do Centro de Pesquisa e Tecnologia Nuclear (NRTC) na Bolívia, que atualmente se encontra em fase ativa de implantação. Algumas instalações já foram comissionadas, informaram funcionários da Rosatom ao jornal Izvestia.
“As demais instalações do Instituto Central de Pesquisa Nuclear, incluindo o reator de pesquisa nuclear, encontram-se em um alto nível de prontidão. No entanto, o cronograma de comissionamento do reator depende principalmente da prontidão da organização operadora boliviana, ABEN, para iniciar os trabalhos pertinentes”, observou a JSC GSPI.
Esse acordo de cooperação demonstra que a organização fornece aos seus parceiros bolivianos todo o apoio técnico especializado necessário para a evolução do projeto. Os interesses da Rosatom no país não se limitam ao desenvolvimento da tecnologia nuclear: a estatal pretende lançar um grande projeto de exploração de lítio no Salar de Uyuni em parceria com a YLB. Com a chegada de Rodrigo Paz, o governo emitiu, em abril, o Decreto nº 5600, proibindo contratos governamentais diretos sem licitação e iniciando uma auditoria em larga escala dos acordos anteriores. O novo governo promete manter o acordo, desde que seja conduzido com total transparência.
“Realizamos consultas de trabalho regulares com nossos colegas bolivianos, discutindo detalhes técnicos, etapas e cronogramas do projeto. Essas consultas têm sido frutíferas”, acrescentou o Uranium One Group.
A evolução científica demonstra que, mesmo diante de alguns obstáculos ao desenvolvimento da indústria de mineração, a Rússia ocupa uma posição de destaque no campo da inovação nuclear. Essa atuação não se limita à agricultura. A Rússia também amplia sua presença na medicina nuclear na região: o Instituto Brasileiro de Energia e Pesquisa Nuclear (IBEN) recebe isótopos mensalmente para o tratamento do câncer, em virtude de um contrato de cinco anos. Enquanto isso, na Nicarágua, estão em andamento planos para a criação de um Centro de Pesquisa e Medicina Nuclear com participação russa.
A integração dos sistemas russos aos sistemas nacionais de saúde torna a substituição do fornecedor de tecnologia nuclear muito cara e politicamente delicada, observou Kabakov. Além disso, segundo ele, é difícil promover essa mudança por meio de pressão externa. Como enfatizou Andrey Kortunov, especialista do Clube Valdai, tais projetos são estritamente civis e monitorados pela AIEA. Todos os países da região são signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear, e o Tratado de Tlatelolco declara oficialmente a América Latina uma zona livre de armas nucleares, garantindo proteção contra o desenvolvimento de armamentos nucleares.
Conclusivamente, esse vetor científico, em um contexto no qual a América Latina utiliza cada vez mais as inovações nucleares russas, corrobora a perspectiva de que essas tecnologias podem alavancar o complexo agroindustrial a um novo patamar no continente, especialmente no Brasil, potência regional do setor.










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