América Latina: o grande laboratório (parte 2) – Brasil 247


Segunda fase (2026-)

A segunda fase caracteriza-se por uma ingerência imperial mais intensa contra as instituições democráticas dos países-alvo, combinando manipulações institucionais e ações extrainstitucionais, violentas ou não, que envolvem violações grosseiras do direito internacional. Caracteriza-se também por duas linhas novas de ingerência: o cristianismo político e a participação crescentemente invasiva de Israel. Daí a designação de guerra híbrida. A escala da ingerência reacionária aumenta exponencialmente nesta fase, os seus instrumentos são tão sofisticados que reduzem a soberania dos países a brinquedos de criança ou a anedotas de café, e o número de países envolvidos não para de crescer. Está em curso um vasto processo de recolonização cuja forma política é o fascismo global. Está em curso uma Internacional de extrema-direita cujos alvos privilegiados são os países da América Latina e a Europa.

Dado o caráter secreto do que se planeia, só podemos identificar as táticas e as estratégias de maneira indiciária, através da sua aplicação concreta no terreno das operações de contrainsurgência. É bem possível que o âmbito delas seja muito maior do que o detetável nas ingerências conhecidas. Logo no início de 2026, três casos merecem destaque particular: a Venezuela, as Honduras e a Colômbia. O fato de em tão pouco tempo termos assistido a três intervenções tão diversas, embora igualmente intensas, revela um plano de intervenção muito ambicioso. Neste grande laboratório, o departamento de opressão está a trabalhar a todo o gás.

Venezuela

O que ocorreu na Venezuela desde janeiro de 2026 não tem precedentes na história recente da América Latina. A ingerência imperial na política interna venezuelana vem de longe e intensificou-se muito desde que Hugo Chávez iniciou a revolução bolivariana no princípio do milênio. Apesar do forte discurso anti-imperialista de Chávez, as relações comerciais com os EUA continuaram, sobretudo no petróleo. Personalidade carismática, Chávez manifestou desde o início a intenção de exercer soberania total sobre os recursos naturais do país, para com os rendimentos deles melhorar as condições de vida de populações que até então não tinham beneficiado da imensa riqueza nacional. Criaram-se vastos programas de redistribuição social, entre os quais viriam a sobressair as misiones, intervenções em áreas como a saúde, a educação e as infraestruturas, organizadas à margem das regras burocráticas de intervenção estatal. Nasceu assim uma forma de Estado paralelo que granjeou imensa popularidade a Chávez e ao mesmo tempo exacerbou a oposição interna das classes sociais que até então tinham beneficiado, direta ou indiretamente, das rendas do petróleo geradas e distribuídas pelo “Estado Mágico”, na designação do grande cientista social venezuelano Fernando Coronil. Em textos anteriores analisei, com solidariedade e com crítica, o processo bolivariano, liderado por Chávez até à sua morte prematura em 2013 e depois pelo seu sucessor, o anterior vice-presidente Nicolás Maduro.

Neste texto refiro apenas que a política regional e internacional de Chávez e de Maduro violou várias linhas vermelhas do imperialismo norte-americano. Uma solidariedade concreta sem precedentes com Cuba. Uma política regional que promovia a organização dos países do subcontinente fora da tutela dos EUA. Relações políticas e comerciais privilegiadas com a China, a Rússia e o Irã. Uma política de gestão do petróleo que poderia vir a ameaçar a posição do dólar como moeda de reserva mundial.

A resposta imperial não se fez esperar. Incluiu desde cedo os instrumentos de ingerência hoje generalizados: golpe de Estado, tentativas de assassínio, embargos, sanções, confisco de reservas depositadas no estrangeiro, deslegitimação do presidente eleito e promoção internacional de um presidente fantoche, farsa em que a União Europeia participou alegremente. Como nada disto resultou, a componente militar da ingerência foi-se intensificando, com o bombardeamento de pequenos barcos em águas territoriais venezuelanas sob o pretexto de transportarem droga. Nasceu assim a caracterização do Estado bolivariano como Estado narcoterrorista. Foi a primeira grande ampliação do conceito de terrorismo, a que outras se seguiriam, como veremos.

Em 3 de janeiro, forças especiais dos EUA capturaram durante a noite o presidente Nicolás Maduro e a mulher, mataram mais de duas dezenas de militares da guarda presidencial, na maioria cubanos, e levaram o casal para os EUA, para que Maduro responda perante a justiça norte-americana por alegadas ligações ao tráfico de droga. Neutralizaram também todo o sistema de defesa antiaérea. Depressa se restaurou a “normalidade”, com a vice-presidente Delcy Rodríguez a assumir a presidência da República.

Soube-se pouco depois que a gestão da produção e do comércio do petróleo passara para empresas norte-americanas e que os rendimentos petrolíferos, em vez de entrarem no Tesouro venezuelano, entrariam no Tesouro dos EUA, de onde seriam distribuídos à Venezuela segundo critérios definidos pelas autoridades norte-americanas, isto é, pelo secretário de Estado Marco Rubio. Em poucas semanas, a anti-imperialista Venezuela da Revolução Bolivariana estava reduzida à condição de protetorado norte-americano, gerido pelo vice-rei Marco Rubio.

Espanta que esta violação sem precedentes da integridade de um país soberano não tenha causado reação alguma no chamado mundo ocidental, nem sequer na América Latina, onde as críticas não foram além de vagas declarações de protesto.

Da ONU é melhor não falar, para não chorar. Desapareceu, encontra-se em parte incerta, e as buscas para a resgatar estão a ser desativadas, dada a pouca esperança de a encontrar com vida.

A intensidade da ingerência imperial na segunda fase é assim qualitativamente superior à da primeira. Difícil determinar até onde chegará. Os sinais são perturbadores. Mais perturbador ainda é o fato de a influência israelita na intervenção se tornar cada vez mais visível. Dou três exemplos, que valem o que valem e dos quais não pretendo tirar conclusões definitivas.

Como uma tragédia nunca vem só, dois violentos terremotos atingiram a Venezuela em 24 de julho passado. Vários países ofereceram ajuda humanitária e compreende-se que a Venezuela não tenha podido escolher entre eles. Não deixa de ser curiosa, porém, a visibilidade que se deu à ajuda dos militares israelitas. As forças militares responsáveis pela morte de milhares de crianças palestinas em Gaza exibiam agora todo o seu zelo a salvar dos escombros crianças venezuelanas. Sem desvalorizar a ajuda prestada, aquilo parecia uma operação de branqueamento de imagem ou, simplesmente, um sublinhado da “banalidade do mal” cometido em Gaza. Não pude deixar de recordar que Heinrich Himmler, o chefe nazi responsável pela morte de muitos milhares de judeus, entrava em casa pela porta traseira para não acordar o canário.

O segundo exemplo tem que ver com o Tribunal Penal Internacional. Sabe-se que Israel, com a cumplicidade dos EUA, move uma luta violenta contra o Tribunal desde que este pediu um mandado de captura de líderes israelitas, Netanyahu à cabeça. Em 24 de julho, a Venezuela anunciou a saída “firme e irrevogável” do TPI. Qualquer que seja a nossa avaliação do TPI ao longo da sua existência, e a minha é bastante crítica, o tempo e as circunstâncias da decisão venezuelana não apontam para uma pura coincidência. Note-se que Chávez criticava o TPI por ser um “braço do império norte-americano”. Não é crível que sejam essas as razões por trás da decisão do governo venezuelano neste momento.

Finalmente, a composição da delegação de congressistas norte-americanos que visitou a Venezuela em finais de julho diz muito do que aí vem. Dois deles, Brian Mast e Randy Fine, estão fortemente associados ao lobby israelita nos EUA, o AIPAC. Uma congressista, Kat Cammack, especializa-se em segurança interna, fronteiras e defesa. Outro congressista, Jonathan Jackson, filho de Jesse Jackson, defende o fim das sanções à Venezuela e do congelamento das reservas internacionais do país. O fator Israel, com investimentos e participação na defesa de minerais raros, e a reformulação do Escudo das Américas, projeto de Trump, com a possível participação da Venezuela, parecem ser os temas em discussão no futuro próximo.

Honduras

Como referi atrás, as Honduras foram o primeiro país a sofrer o regresso do golpismo imperial ao subcontinente, em 2009. Em abril de 2026 vieram a público arquivos de som com trocas de mensagens entre o atual presidente, Nasry Asfura, e o ex-presidente Juan Orlando Hernández, preso nos EUA, condenado em 2024 a 45 anos de prisão por narcotráfico e indultado pelo presidente Trump em 2025. Os dois políticos pertencem ao mesmo partido conservador e as mensagens revelavam as condições do regresso do ex-presidente ao país, no quadro de um plano internacional liderado pelos EUA, por Israel e pela Argentina para desestabilizar os governos progressistas do subcontinente, sobretudo na Colômbia, de Gustavo Petro, e no México, de Claudia Sheinbaum. O plano incluía o uso das igrejas evangélicas na manipulação ideológica, novas bases militares, investimentos norte-americanos e a criação de zonas econômicas especiais, e já conhecemos a cidade privada de Próspera, na ilha de Roatán, financiada por Peter Thiel, da Palantir. Previa ainda uma unidade de jornalismo digital para divulgar notícias falsas destinadas a desestabilizar os governos progressistas e um enquadramento jurídico que favoreça as empresas de inteligência artificial dos EUA e de Israel.

Novos áudios, divulgados em 26 de julho pelo Diario Red em artigo de Valeria Duarte Galleguillos, revelavam projetos de “recuperar as instituições”, como o Supremo Tribunal e a cúpula do Ministério Público. Mas o que há de mais perturbador nas novas filtragens, a confirmarem-se, é um vasto plano de espionagem e de cibervigilância a cargo de empresas israelitas, em colaboração com as operadoras telefónicas Claro e Tigo, tendo por alvo políticos, ativistas de direitos humanos e cidadãos comuns.

Nota de voz de Nasry Asfura (áudio 168): “Os israelitas afirmaram que, desde que as pessoas comuniquem dentro das Honduras com números que se encontram no território das Honduras, é possível obter algumas informações, como com quem comunicam e outros dados. O software de que dispõem limita-se exclusivamente à colaboração da Tigo e da Claro”.

Aparentemente nada disto é novidade, uma vez que durante a presidência de Hernández se detectou a interceptação de chamadas telefônicas, sem deixar rasto ao utilizador, com recurso às tecnologias Palantir, de Peter Thiel, e Pegasus; o programa do grupo israelita NSO também não é novo no subcontinente. Em 2011, o México foi o primeiro comprador mundial do Pegasus, ainda sob a presidência de Felipe Calderón, e com ele terá cibervigiado, já sob Enrique Peña Nieto, 15 mil pessoas, entre as quais jornalistas, ativistas da luta contra a corrupção e advogados de vítimas. O mesmo terá acontecido na Colômbia sob a presidência de Iván Duque.

À espionagem soma-se a indústria da desinformação.

Em 2 de agosto de 2026, o Times of Israel noticiou que o Facebook proibira dezenas de contas, páginas e grupos, muitos deles ligados ao Archimedes Group, de Israel, por “comportamento inautêntico coordenado”, com atuação na África subsaariana, na América Latina e no Sudeste Asiático, e com o objetivo de “mudar a realidade segundo os interesses do cliente”.

A atuação assenta sempre na mesma combinação: capacidade técnica para vigiar, o que pressupõe legislação que permita eliminar o anonimato nas redes sociais e nos telefones, e instrumentos para fabricar “fatos” e relatos.

O uso massivo da espionagem combinado com a desinformação parece ser um dos instrumentos privilegiados desta segunda fase de ingerência em países soberanos com governos progressistas.

Colômbia

A Colômbia é o terceiro exemplo das operações de ingerência e de desestabilização de governos progressistas que caracterizam a segunda fase.

As eleições de maio passado deram a vitória ao candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, advogado de narcotraficantes e de grupos armados paramilitares, as autodefesas, com dupla nacionalidade colombiana e norte-americana e residência em Miami. A candidatura, apoiada ativamente por Donald Trump, substituiu a praça pública pelas plataformas digitais. Não foi apenas mais bem financiada. Assentou em boa medida na desinformação e na manipulação dos eleitores.

Segundo o jornalista Lucas Ospina, em La Silla Vacía, a maior parte da operação decorreu em servidores informáticos e em grupos de WhatsApp organizados por níveis de “receptores”, com vídeos gerados algoritmicamente que se adaptavam ao perfil do eleitor. Ao uribista convicto, o candidato surgia com a imagem do “Tigre” a esmagar guerrilheiros. Ao evangélico, aparecia rodeado de pastores. Ao jovem indignado com Gustavo Petro, o presidente de esquerda, o meme transformava De la Espriella num felino onipotente a saltar sobre as ruínas do palácio petrista. À mãe solteira e chefe de família, o vídeo mostrava-o como marido provedor bíblico. Ao eleitor da nova classe média que sonha com ordem, apresentava-se o vídeo épico com música de super-heróis, em que o candidato de mão dura chega à região devastada pela violência para capturar o malfeitor e trazer prosperidade.

Cito com alguma extensão este artigo porque ele é elucidativo das estratégias de manipulação e de desinformação hoje utilizadas em todo o mundo. Resistir-lhes pressupõe conhecê-las:

Um estudo do Observatório de Redes Sociais da Universidade Católica da Colômbia identificou que a empresa eleitoral de De la Espriella foi a que de forma mais contundente dominou o espaço virtual, ao apresentar “os problemas sociais como ameaças urgentes”, criando “a necessidade de respostas imediatas” e reforçando “a sua mensagem de autoridade”.

A plataforma da empresa eleitoral de De la Espriella chamou-se defensoresdelapatria.com e funcionou segundo a mesma lógica piramidal do gruposrodolfistas.com, o candidato da direita em 2022: ligações de referência personalizadas, código QR próprio, painel de pontos, “Kit de Batalha” para descarregar. A campanha chegou a lançar um concurso que prometia viagens ao Mundial de futebol de 2026 ao militante que reunisse mais contactos. Um modelo multinível da Herbalife com bandeira tricolor e camisola.

Mas a despesa declarada é apenas a face visível. Uma investigação do blogue Hyperconectado documentou uma campanha ativa no Google Ads, com 600 anúncios simultâneos na rede de display, visíveis em qualquer sítio com monetização na Colômbia, que encaminha os utilizadores para um formulário de recolha de dados pessoais: nome completo, idade, correio eletrónico, número de WhatsApp, departamento e cidade. O anunciante registado no Google identifica-se como “Luisa Portela”, sem identidade verificada. O financiador declarado da despesa publicitária é outra pessoa, “Juan Esteban Méndez”, cuja identidade também não está verificada. O formulário não incluía política de privacidade nem mecanismo de autorização, infringindo a Lei n.º 1581 de 2012, sobre proteção de dados, e a Circular Externa n.º 002 de 2026 da Superintendência da Indústria e do Comércio.

Tudo é astutamente apresentado como uma “iniciativa cidadã”.

Alguém dispõe hoje de uma base de dados com os números de WhatsApp e a geolocalização de milhares de colombianos que clicaram num anúncio do Google. Não se sabe quem a administra nem com quem é partilhada. Mas o seu valor operacional é preciso: uma lista segmentada por departamento e cidade é exatamente o ativo que completa o circuito da rede multinível, a sua rede de contatos, nível de consumo, educação e localização. É a diferença entre disparar com uma metralhadora e disparar com um atirador de elite, nas palavras do operador digital Lester Toledo, que colaborou para levar Bukele à presidência de El Salvador, quando reduz qualquer ser humano ao algoritmo eleitoral: “Um cidadão é alguém com um telemóvel”.

Outro fator novo da segunda fase de ingerência é a religião política. Comerciantes da fé capitalizam as crenças religiosas das populações carenciadas para lhes oferecer uma satisfação suposta que em nada modifica o status quo da desigualdade e da precariedade social. É fator novo pela intensidade com que agora se usa, pois vem a ser usado desde o relatório Rockefeller de 1969, perante o fracasso da Aliança para o Progresso em conter o impulso progressista que a Revolução Cubana injetara nas classes populares. Pouco depois, pastores evangélicos invadiam o subcontinente, sobretudo pentecostais e neopentecostais. As suas igrejas e as suas rádios bem financiadas foram convertendo paulatinamente a religião católica progressista que então dominava, a das comunidades eclesiais de base, assente na Teologia da Libertação, em agente do “ateísmo satânico do comunismo”.

O primeiro sinal do poder que tinham veio da Guatemala, quando o general Efraín Ríos Montt, membro da igreja neopentecostal El Verbo, chegou ao poder mediante um golpe de Estado e com o apoio de Ronald Reagan. Quase quarenta anos mais tarde, em 2019, Jeanine Áñez assumia o poder depois do golpe de Estado contra Evo Morales e contra o Estado plurinacional da Bolívia, empunhando a Bíblia e proclamando que “a Bíblia volta ao Palácio”.

A vitória de De la Espriella na Colômbia não se explica sem este fator religioso. No Diario Red de 29 de junho de 2026 pode ler-se uma análise detalhada do peso do fenômeno religioso, com o exemplo de uma das regiões do país:

O verdadeiro salto quântico nas urnas ocorreu através da Associação de Pastores de Bucaramanga e Santander e da rede de mega-igrejas aliadas, que chegou a estender-se por todo o país. O bloco confessional lançou uma campanha silenciosa, mas feroz, de educação eleitoral a partir dos púlpitos. Ao contrário do voto de opinião, que varia consoante os debates ou os escândalos da semana, o voto confessional articulado responde a diretrizes de preservação da identidade. Fontes próximas das uniões pastorais da região confirmam que a narrativa partilhada nas semanas anteriores a 31 de maio equiparava a proposta de De la Espriella à “defesa da família e das liberdades face à agenda progressista”. Esta rede setorial proporcionou uma base eleitoral inabalável de mais de 35 mil votos altamente mobilizados na área metropolitana de Bucaramanga, e serviu de dinamizadora e guardiã dos votos nas mesas no dia da eleição.

A Colômbia é o primeiro país latino-americano de grande dimensão onde se aplica com maior intensidade a mais sofisticada engenharia de manipulação e de desinformação da opinião pública, combinada com a politização conservadora do cristianismo. Os três pilares políticos da ingerência são o imperialismo dos EUA, o sionismo de Israel e o cristianismo político. Tudo leva a crer que os próximos países-alvo serão o Brasil e o México. Se esta engenharia tiver pleno êxito, fechar-se-á, por agora, o ciclo de políticas progressistas no subcontinente. Dois séculos depois da sua primeira proclamação, a Doutrina Monroe atinge a realização máxima.

A intensidade da manipulação e da desinformação faz com que, em muitos casos, perca sentido o debate sobre a existência ou não de fraude eleitoral. A fraude não se comete na contagem dos votos. Comete-se antes, quando se desinforma livremente e em massa a opinião pública. A famosa frase, talvez inspirada em Umberto Eco e Pier Paolo Pasolini, ganha todo o sentido: “Vota-se num verdadeiro fascista pensando que é falso, por medo de um comunismo falso que se acredita ser verdadeiro”.

Conclusão

Alguns cientistas sociais latino-americanos de esquerda, cujos nomes não menciono para não os envergonhar, criticaram duramente durante anos os países e governos progressistas que há mais de uma década são alvo de um ataque imperial cada vez mais sofisticado. Para sintetizar as críticas inventaram o conceito de “progressismo”, com que caracterizavam depreciativamente esses governos. Implícita e por vezes explicitamente, defendiam que tais governos não eram de esquerda. A extrema-direita destes últimos anos cavalgou a deslegitimação vinda dos próprios “aliados” para aprofundar a desestabilização. Como tantas vezes no passado, tais cientistas sociais foram os idiotas úteis de estratégias que os transcendiam. Porque será que uma esquerda bem-pensante se engana sempre mais do que uma direita que não pensa?

Estou convencido de que o departamento da libertação do grande laboratório latino-americano não está completamente desativado, mas por agora só se veem ruínas. Estou certo de que são ruínas-sementes, simultaneamente lembrança de um passado de luta e de resistência e anúncio de um futuro de vida digna, para a vida humana e não humana.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com [email protected].

Apoie o jornalismo independente do 247:

Cortes 247

https://www.youtube.com/watch?v=

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



Source link

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *