
Por Sergio Ferrari | Tradução: Rose Lima
Apesar dos quase 14.000 quilômetros que separam Teerã da Cidade do México ou de Buenos Aires, a interdependência das economias faz com que a América Latina e o Caribe, assim como praticamente todos os demais continentes, sintam o efeito empobrecedor da guerra.
Em meados de junho, os Estados Unidos e o Irã assinaram um acordo com o objetivo de encerrar temporariamente os ataques militares e reabrir o Estreito de Ormuz ao tráfego comercial. Tal decisão também estabeleceu um prazo de dois meses, até meados de agosto, para chegar a um acordo definitivo. No entanto, no início de julho, as hostilidades foram retomadas após Donald Trump expressar suas dúvidas sobre uma solução negociada para o conflito na recente Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em Ancara, Turquia. Aconteça o que acontecer nas próximas semanas — seja um esfriamento ou o agravamento da crise bélica — essa guerra já está impactando diretamente muitas esferas da atividade econômica mundial.
América Latina e Caribe golpeados
No caso específico dessa região tão vasta, um relatório recente da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) intitulado Impactos na América Latina e no Caribe das recentes hostilidades na República Islâmica do Irã e arredores argumenta que neste ano o preço médio dos bens energéticos será de 20% a 25% maior do que em 2025. Essa é, sem dúvida, uma projeção preocupante, embora seja uma região em posição geográfica mais favorável do que as outras devido à sua baixa exposição direta aos países do Golfo Pérsico. E isso é alarmante para os países latino-americanos — a grande maioria — que são importadores de hidrocarbonetos.
Em outras palavras, embora o aumento do custo da energia gerado pela guerra favoreça a balança comercial dos países que exportam hidrocarbonetos (principalmente o Brasil, a Venezuela, o México, a Argentina, o Chile e a Colômbia), isso afeta significativamente aqueles que precisam importá-los (a grande maioria da região). O aumento dos preços da energia por parte dos importadores corrói diretamente o poder de compra da cesta básica, do transporte e basicamente de tudo o que é necessário para o funcionamento diário e o bem-estar das famílias. Soma-se a isso o impacto sobre os alimentos causado pelo aumento dos preços dos fertilizantes, cujo suprimento e transporte, assim como o preço do petróleo e do gás, estão amplamente concentrados no Golfo Pérsico.
Por outro lado, como a CEPAL enfatiza, a América Latina e o Caribe, como praticamente o resto do mundo, enfrentam um “esfriamento da atividade econômica mundial” que afeta suas perspectivas de crescimento global. Não menos importantes são as consequências negativas nos campos de política financeira e monetária. A pressão inflacionária sobre as economias avançadas está levando seus bancos centrais a manterem altas taxas de juros por mais tempo do que o esperado, tornando o financiamento externo mais caro para a América Latina e o Caribe. “O aumento da incerteza geopolítica”, argumenta a CEPAL, “está associado a uma maior demanda por ativos considerados mais seguros, o que fortalece o dólar e cria maior pressão sobre as moedas dos países da região”.
Tudo isso ocorre no contexto de uma situação mundial já preocupante, onde o custo de uma alimentação saudável aumentou 25% em cinco anos e quase uma em cada três pessoas — nada menos que, aproximadamente, 2,7 bilhões de seres humanos — não consegue acesso a uma nutrição adequada. Significativamente, a região do planeta com os maiores custos de alimentos básicos é a América Latina e o Caribe. Segundo a FAO, isso se explica em parte pelo fato de que muitos de seus países priorizam as exportações de grãos, carnes e alimentos em detrimento de um fornecimento suficiente e diversificado para seus próprios mercados e consumidores locais.
Duas grandes crises só neste século
A guerra no Oriente Médio e outros conflitos bélicos em andamento afetam tanto o fornecimento de combustíveis quanto o de fertilizantes, como aconteceu há duas décadas, quando o mundo enfrentou uma crise muito séria devido ao aumento do preço do petróleo. Segundo a organização internacional Grain (Grãos/Sementes), que apoia movimentos sociais rurais ao redor do mundo, esse aumento se traduziu em aumentos paralelos nos custos de produção e distribuição de alimentos, um fenômeno que “perturbou a vida de centenas de milhões de pessoas”.
Segundo Grain, o aumento do custo dos fertilizantes está forçando agricultores em muitos países a plantar menos ou a reduzir o uso de fertilizantes, justamente quando os preços dos alimentos já estão disparando devido ao impacto energético no processamento, na embalagem e no transporte. Mas “o pior ainda está por vir em alguns meses”, antecipa a agência de Barcelona, Espanha, “quando os cortes atuais no plantio ou no uso de fertilizantes se traduzam em colheitas reduzidas”. Com essa perspectiva, “a situação será especialmente grave para culturas como arroz, milho e trigo”.
A análise de Grain visualiza certas coincidências entre esses dois períodos mundiais muito complexos. No início do século, por exemplo, os efeitos dos altos preços dos combustíveis foram muito amplificados por eventos climáticos extremos, especialmente enchentes e secas. Agora, o mundo está prestes a enfrentar um super El Niño, com secas severas e enchentes este ano e no início do próximo. Em 2008, os especuladores financeiros e as corporações que dominavam os setores de sementes, de fertilizantes, de commodities e de supermercados utilizaram seu poder para obter enormes lucros e repassar os custos para o campesinato e aos consumidores. Agora, a concentração dos negócios e o impacto das finanças e da especulação no sistema alimentar tornaram-se mais graves.
No entanto, Grain aponta que ambas as conjunturas históricas apresentam diferenças. Em primeiro lugar, a situação atual é uma consequência direta da guerra e da agressão imperialistas. Em segundo, “o mundo, sem dúvida, tornou-se mais desigual”, com a população mundial mais vulnerável a aumentos repentinos nos preços dos alimentos do que há 20 anos. Esse aumento também impacta diretamente na moradia, no transporte, na eletricidade, no vestuário, nos medicamentos, mesmo quando a renda real das pessoas não é ajustada.
Na conjuntura atual, continua a Grain, os ricos estão ficando muito mais ricos ao acumular riqueza nos mercados financeiros e no setor de tecnologia. Para os trabalhadores, especialmente aqueles que produzem, processam e distribuem alimentos, a situação está se tornando mais difícil. Resumindo: “Os salários estão caindo, os empregos estão mais precários, as mudanças climáticas e a intensificação da agricultura tornam o trabalho agrícola e o processamento de alimentos mais perigosos, e, para muitas pessoas, não há proteções ou benefícios sociais”.
Em conclusão, o estudo de Grain argumenta que “mais uma vez, a guerra EUA-Israel contra o Irã expôs, dolorosamente, a dependência excessiva do nosso sistema alimentar dos combustíveis fósseis e sua vulnerabilidade às agressões imperiais”. Se a isso somarmos a crise climática, é urgente romper com essa dependência e construir sistemas alimentares biodiversos, sem dúvida, a única alternativa viável ao uso e abuso de combustíveis fósseis. Essa é uma construção que pode se tornar um ponto comum de confluências sociais internacionais que unam os diferentes movimentos sociais, mas com perspectivas reais somente se for baseada na construção de economias de solidariedade e equitativas.
Labirinto sem saída?
O diagnóstico do impacto negativo da guerra na sobrevivência da espécie humana é claro, e muitas vozes diferentes concordam sobre a gravidade da situação atual, onde a força das balas se impõe à viabilidade alimentar da população mundial. No entanto, a estranha confluência de palavras roucas de grande parte da sociedade civil internacional e os ouvidos moucos do poder imperial marcam um cenário de crescente dificuldade humana e climática.
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