Governo acha que Trump e Milei fazem dobradinha para tumultuar eleições e ajudar Flávio
Para auxiliares de Lula, estratégia combinada inclui reforço do gabinete do ódio nas redes sociais para lançar dúvidas sobre urnas eletrônicas.
O conflito diplomático entre Argentina e Brasil, após o presidente argentino Javier Milei ter chamado seu homólogo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “corrupto”, mascara uma realidade muito mais preocupante: as disputas políticas na América Latina estão prejudicando o crescimento econômico em toda a região.
Após as declarações de Milei durante uma viagem ao Brasil para apoiar o candidato de direita Flávio Bolsonaro, o governo brasileiro convocou seu embaixador na Argentina para consultas e, posteriormente, adiou indefinidamente seu retorno a Buenos Aires.
Mas enquanto essa disputa diplomática dominava as manchetes, outra história — mais corriqueira, porém mais importante — passou quase despercebida: o comércio intrarregional entre os países latino-americanos caiu para o nível mais baixo em quase duas décadas, segundo um novo estudo das Nações Unidas.

A convenção nacional do Partido Liberal (PL) no Mercado Livre Arena, na zona oeste de São Paulo, para lançamento oficial da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República Foto: Taba Benedicto/Estadão
O estudo “Disrupções e Oportunidades”, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) das Nações Unidas, afirma que o comércio intrarregional na América Latina caiu de um pico histórico de 21% das exportações totais da região em 2008 para apenas 14% em 2024. Essa é uma das taxas mais baixas de comércio intrarregional do mundo. Em comparação, o comércio intrarregional na União Europeia representa mais de 60% de suas exportações totais.
Os três copresidentes do grupo que elaborou o estudo — o Secretário Executivo da Cepal, José Manuel Salazar-Xirinachs, e os ex-presidentes Michelle Bachelet, do Chile, e Iván Duque, da Colômbia — deixaram de lado suas diferenças políticas para buscar soluções comuns que impulsionem as economias latino-americanas.
O relatório propõe que, em vez de buscar acordos presidenciais de difícil implementação, sejam firmados acordos concretos em áreas específicas. Em outras palavras, menos retórica grandiloquente sobre uma América Latina maior e mais acordos concretos para reduzir as barreiras alfandegárias que dificultam a exportação de parafusos, ou qualquer outro produto, de um país da região para outro.
Hoje, muitos produtores latino-americanos consideram mais fácil exportar para os Estados Unidos ou a China do que para os países vizinhos. O México envia 84% de suas exportações para os Estados Unidos e apenas 4% para o restante da América Latina, enquanto o Brasil envia 28% para a China e apenas 15% para o restante da região, afirma o estudo.
Milei acusa Brasil, México e democratas dos EUA de financiar ‘campanha anti-argentina’
Sem fornecer mais dados para respaldar suas acusações, o presidente argentino acentuou as críticas por ser impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Crédito: AFP
O comércio intrarregional representa uma grande oportunidade perdida para a América Latina, pois constitui um mercado de mais de 660 milhões de pessoas e um produto interno bruto combinado de US$ 6,8 trilhões, destaca o relatório.
A integração regional e a participação na economia global não são aspirações contraditórias, mas sim complementares, afirma o estudo. “A economia global parece estar se reconfigurando cada vez mais em torno de blocos regionais”, acrescenta. Além disso, um maior foco no comércio intrarregional ajudaria a América Latina a diversificar seus riscos e a se proteger melhor contra choques externos, como as tarifas do presidente Donald Trump.
Como Duque me disse: “Precisamos despolitizar a integração comercial. A integração não é de esquerda nem de direita; pelo contrário, ela nos fortalece, abre oportunidades de negócios e nos torna menos vulneráveis”.
Ele citou como exemplo negativo o que aconteceu com a Aliança do Pacífico, o acordo comercial criado em 2012 entre Chile, Colômbia, México e Peru, que foi paralisado pelo México depois de alguns anos por razões políticas.
Concordo. Há alguns anos, escrevi um livro intitulado “Os Estados Desunidos da América Latina”, no qual argumentei que a América Latina sempre tentou se integrar de trás para frente: de cima para baixo. Grandes cúpulas presidenciais eram realizadas com declarações finais muito ambiciosas, mas os detalhes concretos eram deixados para depois.
Na Europa, fizeram exatamente o oposto. O que hoje é a União Europeia, com seus 27 países, começou em 1951 como um tratado que abrangia apenas dois produtos — carvão e aço — e gradualmente adicionou mais mercadorias, criando, por fim, um mercado comum europeu.
É hora de a América Latina começar a construir a integração regional de baixo para cima. Se o comércio puder ser despolitizado por meio de acordos tediosos sobre produtos específicos, os presidentes da Argentina e do Brasil — ou de qualquer outro país — poderiam se insultar diariamente, mas a economia regional cresceria mais, beneficiando a todos.










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