O mapa político atual da América Latina coloca o Brasil ilhado entre governos de extrema-direita, principalmente olhando mais ao sul, da Argentina à Colômbia. Por esse quadro, as eleições no Brasil são apontadas como centrais na disputa histórica de territórios que acontece na América Latina, como analisaram os participantes da mesa “América Latina em chamas e 100 anos de Fidel”, ocorrida na quinta-feira (6), durante a 8ª Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), no centro de São Paulo (SP).
“A América Latina é parte de uma disputa geopolítica global em torno de alguns projetos que buscam se afirmar no planeta. O projeto da esquerda e da direita, o projeto do velho do Brasil europeu que está em crise, o projeto representado pela China na tentativa de incluir os países do Sul Global, com muita dificuldade atravessada por essas disputas. Portanto, sim, é um território de disputa, um território em luta, um território que é uma trincheira dos processos de resistência dos povos do mundo”, apontou o historiador Juliano Medeiros, autor de A nova esquerda na América Latina: partidos e movimentos contra o neoliberalismo.
“O Brasil é hoje o centro de uma batalha mundial. Eu estava lá, na Colômbia, há dois meses, e ficou muito claro isso. E agora, em relação à eleição brasileira, não se trata de uma eleição brasileira. É uma eleição com características continentais e para além da América Latina e das Américas. É uma disputa que coloca o Brasil frente a frente com o projeto de avançar ainda mais no domínio para uma recolonização da América Latina”, diagnosticou o jornalista e historiador Rodrigo Viana, do ICL Notícias e autor do livro A Espada de Bolívar – Democracia e Revolução na Colômbia, que conta a história do M19, movimento revolucionário colombiano.
Por coincidência, o debate no Espaço Cultural Elza Soares aconteceu no dia em que Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, deixava o cargo para a posse de Abelardo de la Espriella, mais um político de extrema direita, que venceu as eleições com 49,66% dos votos, contra Ivan Cépeda, candidato de Petro.
Na mesa, estava a ativista e cientista política Sofia Petro, filha do ex-presidente colombiano. Ela lembrou que a derrota da esquerda não eliminou o debate e a discussão no país, e mostrou aos colombianos que é possível um governo progressista. Ela recorda que, quando Petro chegou ao poder, “todo mundo falava que ele não chegaria até o final” do mandato.
Sobre o sucessor de Petro, a ativista destaca que Espriella abre uma janela para um discurso nunca visto antes na política colombiana, apesar dos anos de conflitos e violências políticas no país.
“A gente nunca teve um discurso de violência, de ódio, do jeito que chegou agora e do jeito que encarna o presidente eleito. O que está acontecendo agora? Estamos à frente de uma batalha pedagógica e cultural. Essa nova direita está controlando o discurso, e eles têm muitos meios, têm muito dinheiro por trás, muitas campanhas. Diferente da direita que a gente já teve, é uma nova direção de símbolo que se apropria da ideia de liberdade e tenta construir um novo discurso que é inaceitável”, detalhou Sofia, lembrando que Espriella prometeu perseguir todas as pessoas de esquerda.
A cientista política aponta também uma mistura de simbologia patriótica e subserviência aos Estados Unidos pelo presidente eleito, que inclusive tem cidadania estadunidense. Ele também apresenta forte alinhamento com Israel e pretende restabelecer os laços diplomáticos com o país, rompidos por Petro em meio ao genocídio praticado pelo exército israelense contra os plaestinos.
O país dos sionistas foi tema de repórter Leonardo Wexell Severo, autor de Guatemala e Palestina sob o tacão genocida de Israel – Uma história silenciada pela mídia hegemônica, livro que mostra as ações feitas pelo exército israelense na Guatemala, nos anos de 1970, como técnicas que se repetiram nos últimos anos com a invasão de Israel em Gaza e o genocídio palestino.
“Na Guatemala, a repressão aos movimentos populares provocou o desaparecimento de 200 mil pessoas, uma política de genocídio, um etnocídio de indígenas, de uma forma bastante trágica. Fomos até a Guatemala e vimos que a política e ações dos sionistas que eram praticadas naqueles anos foram exatamente as mesmas feitas contra o povo palestino”, aponta o jornalista, que é repórter internacional do jornal Hora do Povo e coordenador da Agência ComunicaSul.
Dentro desse contexto, no qual o imperialismo mantém seu controle na América Latina, Medeiros apresentou a análise da crise da hegemonia neoliberal, a partir das ideias do ex-vice-presidente da Bolívia Álvaro García Linera, que propõe que a América Latina, em vez de procurar ser parte de uma hegemonia, deve “constituir um projeto que fosse capaz também de disputar os futuros da humanidade”, baseado na tradição ecológica, redistribuição da riqueza e no anticolonialismo, entre outros aspectos.

Numa análise crítica da esquerda e da chamada onda rosa (governos progressistas nos últimos anos na América Latina), Medeiros aponta cinco cenários comuns aos antigos governos que precisam ser analisados para garantir uma perenidade no poder: a subestimação em relação aos desafios econômicos em contexto de crise; a distribuição de renda sem politização social; uma reforma moral do Estado; dificuldade para formação de lideranças; e o enorme grau de vulnerabilidade nas relações internacionais.
Mesmo com esses desafios, Medeiros acredita que uma nova hegemonia possa se estabelecer, orientada pelo combate à crise climática, pela promoção de direitos sociais e pela soberania nacional.
Rodrigo Viana, por sua vez, apontou a importância de defender a democracia nesse contexto. “Eu acho que nós temos que defender a democracia de maneira radical. A gente teve o oito de janeiro, a gente sentiu na pele o que é ficar no limiar de uma nova ditadura no Brasil. A gente tem, desde 1988, com a Constituição, uma melhoria para o povo brasileiro. A verdade é que as condições materiais do povo brasileiro melhoraram de lá para cá e vieram com a democracia.”
Já Severo lembrou que grandes mobilizações estão pelo continente, seja na Argentina ou na Bolívia, e trouxe como alternativa as ideias de Fidel Castro: “a arte da revolução é a arte de somar e todos os revolucionários têm como responsabilidade fazer as revoluções”.
O jornalista destacou ainda a necessidade de acumular “consciência política ideológica para esse enfrentamento” e, por isso, defendeu um maior investimento da sociedade na mídia alternativa, na mídia independente para “criar canais que possibilitem um combate efetivo a essa transformação”.
E é para essa necessária conscientização que Sofia Petro aponta ao falar dos próximos anos na Colômbia. “Acredito no convencimento, na resistência de uma esquerda capaz de propor uma visão do mundo, feita por símbolos, por uma narrativa que seja capaz de enfrentar essa batalha. Hoje não ganhamos, mas eu acho importante cultivar e levar verdadeiramente no coração essa visão de mundo. Então é legal ter essa perspectiva para defendermos nesses próximos quatro anos.”











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