Ex-CTO do Nubank Levanta US$ 85 Milhões em Rodada Apontada Como a Maior Seed da América Latina


Uma década depois de ajudar a construir o Nubank desde seus primeiros clientes, Vitor Olivier decidiu começar novamente. O ex-diretor de tecnologia do banco digital anuncia nesta terça-feira (4) uma rodada seed de US$ 85 milhões, aproximadamente R$ 440 milhões, para a Decade.

Fundada por Olivier e Felipe Meneses, a startup combina inteligência artificial, Open Finance e orientação humana para organizar o patrimônio dos clientes e ajudá-los a tomar decisões financeiras. Rodada seed é o investimento realizado na fase inicial de uma startup, quando o negócio ainda está em desenvolvimento ou começando a chegar ao mercado.

Segundo a Decade, essa é a maior captação desse tipo já realizada na América Latina. Até então, a rodada de US$ 40 milhões, aproximadamente R$ 200 milhões, levantada pela PAX, startup de inteligência artificial voltada à segurança pública, era apontada como a maior seed da região.

A captação reuniu cinco fundos. Entre eles está a Benchmark, uma das gestoras de venture capital mais tradicionais do Vale do Silício, conhecida por investimentos iniciais em empresas como eBay, Uber e Instagram. Também participaram a Greenoaks, investidora de Stripe e Databricks, e a Diffusion, fundo de inteligência artificial comandado pelo brasileiro Victor Lazarte, fundador da Wildlife Studios e ex-sócio da Benchmark.

Do lado brasileiro, participaram a Atlantico, liderada por Julio Vasconcellos, fundador do Peixe Urbano, e a Norte Ventures, que já havia investido na Hyperplane, startup criada por Meneses e posteriormente adquirida pelo Nubank.

Nesta terça-feira, a Decade também deixa o chamado modo stealth, período em que uma startup desenvolve o negócio sem exposição pública, e abre sua lista de espera.

Do Nubank a um novo começo

O volume da rodada reflete a aposta dos investidores na trajetória dos fundadores. Olivier entrou no Nubank quando a fintech tinha cinco funcionários e nenhum cliente. Ao longo de sua passagem pela companhia, participou da criação da NuConta, comandou diferentes áreas e chegou ao cargo de CTO.

“Eu entrei no Nubank quando tinham 5 pessoas, 0 clientes. A empresa valia 10 milhões de dólares.” Quando deixou a companhia, segundo Olivier, o cenário era completamente diferente. “Saí com a empresa, tinha 10 mil pessoas, 125 milhões de clientes. Valendo 75 bilhões de dólares. Foi uma jornada doida. Uma honra ter participado de tudo aquilo. E lá dentro fiz um pouquinho de tudo.”

Meneses, por sua vez, construiu sua trajetória na aplicação de inteligência artificial ao sistema financeiro. Além de fundar a Hyperplane, foi o primeiro brasileiro selecionado para a Thiel Fellowship, programa criado pelo bilionário Peter Thiel para apoiar jovens empreendedores.

Para Olivier, deixar uma posição executiva em uma das maiores instituições financeiras da América Latina não representou apenas uma mudança profissional. Foi também uma decisão pessoal de iniciar outro capítulo.

“Para mim, é um grande recomeço. Acho que a vida é sobre novos capítulos, novos momentos”

Vitor Olivier

Por que a escolha pelo nome Decade

O nome Decade nasceu de uma reflexão de Olivier sobre o tempo necessário para construir mudanças relevantes na vida e nos negócios.

“Você superestima o que consegue fazer em um ano e subestima o que consegue fazer em uma década.”

Ao olhar para os últimos dez anos, o empreendedor lembra que ainda era engenheiro no Nubank, não tinha conhecido a mulher com quem se casaria nem formado uma família. Na época, também dividia um pequeno apartamento em São Paulo.

“Ver tudo o que a gente conseguiu construir nesses dez anos é incrível. Mas também sentir que os próximos dez anos podem ser muito diferentes, que você pode construir uma nova história e um novo momento, é o que me motiva.”

A vontade de voltar a empreender ganhou força enquanto Olivier ainda ocupava o cargo de CTO. Segundo ele, a rotina de executivo havia se distanciado da experiência de começar um negócio do zero.

“Ser executivo é bem diferente de ser empreendedor, de ser fundador. Como CTO, bateu de novo aquela coceira de construção”, disse.

A aposta por trás dos US$ 85 milhões

Embora ainda não tenha aberto o serviço ao público, a Decade afirma acompanhar alguns bilhões de reais em patrimônio de um grupo restrito de clientes. Com a abertura da lista de espera, a companhia começará a receber clientes externos gradualmente.

Olivier, porém, diz que a prioridade inicial não será acelerar o crescimento.

“Nossa meta principal é oferecer um serviço de alta qualidade. O crescimento vem”, afirmou.

Para Julio Vasconcellos, sócio fundador da Atlantico, a rodada reflete a expectativa de que a próxima onda de inovação nos serviços financeiros ocorra na gestão e no planejamento patrimonial.

“O tamanho dessa rodada reflete a convicção dos investidores de que essa próxima onda de transformação será a maior oportunidade em serviços financeiros na próxima década”, disse Vasconcellos.

A Decade tem como referência os multifamily offices, estruturas que administram o patrimônio de famílias de alta renda, mas pretende alcançar um público mais amplo. Olivier afirma que a infraestrutura financeira desenvolvida no Brasil, especialmente o Pix e o Open Finance, ajudou a atrair investidores internacionais.

“Acho que o Open Finance já é grande, mas ainda está no primeiro minuto do primeiro tempo do que pode ser construído”, afirmou.

O desafio agora será transformar a confiança dos fundos em uma empresa capaz de conquistar clientes. Para Olivier, a chegada ao mercado inaugura justamente a etapa mais difícil do negócio.

“Enquanto você está com a sua ideia e com o seu time, está construindo algo para dentro. As dúvidas aparecem quando você tem clientes de verdade”, afirmou.



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