Todos, no Brasil e na Argentina, devem estar se perguntando por que Javier Milei voltou a atacar, no último domingo (2), o ministro Alexandre de Moraes e o presidente Lula.
Depois da repercussão negativa de suas declarações durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, seria natural esperar mais cautela por parte do presidente argentino. Ocorreu exatamente o contrário. E o fracasso da estratégia ficou evidente logo após seu discurso no Pacaembu, em São Paulo. Levantamento da Ativaweb DataLab, realizado entre o sábado e a segunda-feira (27), mostrou que das 158 mil menções a Milei no Instagram e no Facebook, apenas 5,2% manifestaram apoio às declarações do líder argentino.
Uma das explicações para essa nova escalada de ataques pode estar no cenário interno argentino. Milei enfrenta o momento de maior desgaste desde que assumiu a Presidência. Segundo o jornal britânico The Times, pesquisas realizadas na Argentina indicam que sua aprovação caiu para cerca de 35%, enquanto a desaprovação já supera 60%, o pior desempenho de seu governo até agora.
Embora a inflação tenha desacelerado, a recuperação econômica prometida ainda não chegou à maioria da população. O consumo segue enfraquecido, os salários permanecem pressionados e o desemprego voltou a preocupar os argentinos.
Há, contudo, uma dimensão geopolítica que ajuda a explicar a intensidade dos ataques. O Brasil ocupa posição estratégica na política de Donald Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina. Nesse contexto, as declarações de Milei podem ser interpretadas como parte de uma ofensiva destinada a contestar a liderança regional exercida por Lula e reduzir o protagonismo brasileiro no continente.
Também é possível enxergar esses movimentos dentro de uma articulação mais ampla entre governos alinhados a Trump na região. Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Paraguai e Bolívia aparecem como peças importantes dessa engrenagem, cujo objetivo seria pressionar o Mercosul e construir um discurso contrário ao governo brasileiro, justamente em uma das áreas em que Lula desfruta de maior reconhecimento internacional: a política externa.
Não se pode descartar, portanto, a possibilidade de que essa estratégia vá além da retórica. Em um cenário internacional marcado pela disputa por influência geopolítica, crises políticas, econômicas ou diplomáticas podem ser estimuladas para desgastar governos considerados obstáculos aos interesses de Washington.
Os acontecimentos recentes em Ceuta, na Espanha, demonstram como tensões migratórias e políticas podem ser instrumentalizadas em disputas internacionais. Guardadas as diferenças entre os contextos, é legítimo considerar a possibilidade de que o Brasil também venha a enfrentar episódios de forte pressão política e diplomática durante a campanha presidencial de 2026. Mais do que nunca, será necessário discernimento para distinguir fatos de operações políticas e preservar a soberania nacional diante de um ambiente internacional cada vez mais polarizado.
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