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- O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou que Washington realizará ataques “em terra” contra narcotraficantes na América Latina, ampliando a ofensiva militar da região.
- A ação, que desde setembro de 2023 operava com bombardeios aéreos a embarcações suspeitas em águas internacionais, será estendida a operações terrestres em países como Colômbia e Equador.
- O anúncio ocorreu durante exercícios militares multinacionais na Cidade do Panamá, poucos dias após a Colômbia aderir à Coalizão das Américas contra os Cartéis, aliança de 19 nações iniciada sob a administração Trump.
- Hegseth justificou a expansão invocando uma versão atualizada da Doutrina Monroe e tratando os cartéis como organizações terroristas, permitindo intervenções onde quer que atuem.
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou no Panamá que Washington planeja realizar ataques “em terra” contra narcotraficantes na América Latina, expandindo uma ofensiva que, desde setembro do ano passado, opera em águas internacionais com bombardeios aéreos contra embarcações suspeitas. O anúncio foi feito durante exercícios militares multinacionais na Cidade do Panamá, com a participação de cerca de 20 países, e ocorre dias após a Colômbia aderir à Coalizão das Américas contra os Cartéis, aliança de 19 nações liderada pelo governo de Donald Trump. Hegseth comparou os grupos de narcotráfico a organizações terroristas como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, rejeitou processos judiciais como resposta e invocou uma versão atualizada da Doutrina Monroe para justificar a expansão da presença militar norte-americana na região.
EUA anunciam ofensiva terrestre na América Latina
Pete Hegseth foi direto ao ponto ao falar com jornalistas no Panamá: os Estados Unidos pretendem reproduzir em território continental a mesma capacidade operacional empregada nos ataques a embarcações no Caribe e no Oceano Pacífico oriental. “Será o mesmo efeito em terra. Por isso, estamos trabalhando com Equador, Colômbia e outros parceiros para levar a luta às DTOs em terra”, afirmou o secretário, usando a sigla para “organizações designadas como terroristas”. A ofensiva se enquadra nos esforços da Coalizão das Américas contra os Cartéis, mas Hegseth deixou claro que o alcance das operações não depende da adesão à aliança: os ataques poderão ocorrer “onde quer que” grupos do narcotráfico estejam operando.
A Colômbia, que aderiu à coalizão nesta semana, ocupa posição central nos planos imediatos de Washington. Antes de se reunir com o novo ministro da Defesa colombiano, Jorge Eduardo Mora, Hegseth anunciou que o país autorizou “operações militares conjuntas para destruir terroristas e redes terroristas”. O secretário confirmou que discutiu com Mora ações contra grupos como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e remanescentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), ambos classificados pelos EUA como organizações terroristas. O México, onde operam alguns dos maiores cartéis da região, permanece fora da aliança.
A “guerra às drogas” e a comparação com o terrorismo
A retórica de Hegseth no Panamá foi construída sobre uma equiparação deliberada: narcotraficantes tratados como terroristas de guerra, não como suspeitos a serem processados. “Onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo, assim como o ISIS ou a Al-Qaeda”, declarou o secretário. A comparação não é apenas discursiva: ela serve de base legal e política para justificar ataques letais sem revisão judicial. O governo Trump informou ao Congresso que os EUA estão em um “conflito armado” contra os cartéis, classificando os mortos nas operações como “combatentes ilegais” e alegando autoridade para realizar ataques sem supervisão dos tribunais.
As consequências concretas dessa doutrina já se acumulam. Desde setembro do ano passado, bombardeios aéreos contra supostas lanchas de narcotráfico no Caribe e no Pacífico deixaram ao menos 215 mortos. Hegseth foi explícito sobre a intenção de não mudar esse modelo: “Não vamos submetê-los a um processo judicial, onde sabemos que serão liberados. Vamos destruir estas redes com todas as capacidades do governo americano.” Membros do Congresso norte-americano e grupos de direitos humanos questionaram a conclusão do Departamento de Justiça que sustenta essa postura, argumentando que suspeitos de tráfico deveriam ser submetidos a processos legais, não eliminados em operações militares.
Implicações para a soberania e o histórico de intervenções
A expansão das operações para o território terrestre reacende um debate que a América Latina conhece há décadas: até onde vai o direito de Washington intervir nos assuntos internos da região? Hegseth respondeu à pergunta invocando o que chamou de “Doutrina Donroe”, trocadilho com o nome de Donald Trump e atualização declarada da Doutrina Monroe, a política do século 19 que afirmava a primazia dos EUA nas Américas. “Defenderemos nosso hemisfério contra ameaças externas”, disse, incluindo nessa categoria tanto narcotraficantes quanto influências “malignas” estrangeiras. Críticos associam a Doutrina Monroe a décadas de intervenção norte-americana na região, e a reformulação de Hegseth não faz esforço para disfarçar a continuidade. A política de Trump para a América Latina já incluiu, em janeiro, uma incursão de comandos liderada pelos EUA que depôs Nicolás Maduro na Venezuela.
No plano jurídico, críticos afirmam que os ataques já realizados constituem crimes de guerra passíveis de julgamento pelo Tribunal Penal Internacional. A resposta de Hegseth foi atacar o próprio tribunal: na reunião no Panamá, o secretário criticou o TPI e encorajou os aliados da coalizão a se retirarem da organização. O Brasil, que não integra a Coalizão Anticartéis das Américas, já sinalizou desconforto com a direção tomada por Washington: a inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista norte-americana de organizações terroristas, em junho, gerou críticas do governo brasileiro sobre interferência na soberania nacional. A possibilidade de que operações terrestres dos EUA se estendam a países fora da coalizão, como o próprio Hegseth sugeriu, torna essa tensão ainda mais concreta para Brasília.











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